• com avós:
Avó Leda Nolding, nascida no Rio, filha de alemão com brasileira se não me engano, tendo sido criada por madrasta. Prendada no piano e muito bonita em seus olhos azuis. Viveu muitos anos da infância abafada por sua madrasta. Depois vários anos de trabalho e agonia com Sildo e por último, trinta e poucos anos doente física e mentalmente.
Convivi muito com ela na Praça Seca, no Pechincha e por último na Freguesia. Me lembro em seus acessos de loucura, seus muitos “diazepans” para dormir, seu constante cheiro de urina devido à uma incontinência constante. Muitas vezes me deu dinheiro para doces e estava sempre perguntando por mim. Nas brigas constantes entre mãe e tios, me escondia em sua saia. Em seus últimos anos, sua cabeça melhorou um pouco. Tio Carlos lhe proporcionou um bom plano de saúde e um apartamento na Freguesia. Morreu uns dois anos após o falecimento de Sildo, seu ex-marido sem ter o conhecimento de tal ocorrido. Fazem quase quatro anos que fui em seu enterro no cemitério do Pechincha e onde chorei muito sua falta. Seu coração era muito puro e sua natureza muito boa, sempre preocupada com todos. Infelizmente sua vida se foi.
Com o avô Sildo, também alguma convivência, já que o único de seus filhos que o visitava era a minha mãe. Nascido e criado no Rio, nos meados dos anos 80 teve de sair e foi morar em Minas, sem que quase ninguém soubesse seu paradeiro, numa cidade chamada Visconde do Rio Branco e em algumas ocasiões eu, o único neto que o visitava, estive lá já em minha fase adulta. Morei com ele também umas semanas na cidade de São Geraldo em 1993, mas ele, com ciúmes de sua última mulher, quase quarenta anos mais nova que ele, me expulsou de sua casa. Veja que situação!
Foi Sildo quem ensinou meu pai a fotografar, até que meu pai se tornou fotógrafo da Rede Manchete. Teve ele, dois laboratórios de fotografia: um na casa de Praça Seca e outro em Realengo, que seu irmão Almir tomava conta. Durante quase toda a sua vida teve criação de animais para a revenda como: cães, galinhas, patos, gansos, galinhas ornamentais, cabras, pássaros e peixes. Trabalhou também como marceneiro da marinha e negociava muito pondo anúncios no jornal Balcão. Sempre um apaixonado por carros e um às no volante, dom puxado por tio Paulo. Autodidata em muitos assuntos, inclusive no alemão que aprendera depois de tanto ler livros sobre cachorros. Construía gaiolas, viveiros; muito engenhoso e perfeccionista em tudo o que fazia. Trabalhava sem parar. Muito mulherengo, como fora o seu pai. Boas roupas e boa lábia. Conheceu leis a fundo, devido a alguns processos que tivera que responder por agredir pessoas e durante os anos de briga pela guarda de sua filha Ieda, após sua separação de minha avó.
Era rude, grosso e agressivo com todos, inclusive e principalmente com os de casa. Um chinelo seu que fosse posto em lugar diferente ou uma ferramenta errada que o entregassem já era motivo de berros e xingamentos de sua parte.
No mais, deixou a mania do trabalho a todos os seus descendentes, acompanhada do nervosismo, impaciência e falta de carinho para com os seus.
Com o avô João Batista, nenhuma lembrança, pois o mesmo falecera em 1974, tendo eu apenas um ano. As poucas coisas que sei, meu pai me contara e pouco hoje me lembro. Sei que era canhoto como eu. Piamente religioso, tesoureiro da Igreja Batista em Vila Brasilândia, tendo ido morar lá quando ainda haviam sítios onde hoje é um bairro bem povoado como toda a capital paulista. Visitava doentes de tuberculose numa época que ninguém ousava tal risco e levava alimento e oração. Honesto e trabalhador, tendo achado uma maleta contendo dinheiro de pagamentos da empresa que trabalhava, Estrada de Ferro Santos – Sorocabana, a devolveu e ganhou assim tal casa como prêmio. Ficou diabético e morreu completamente cego e cheio de feridas pelo corpo.
Sua esposa, minha avó Joana Gomes, tenho ainda menos conhecimento, pois meu pai, como o seu irmão, também não pactuava um bom relacionamento com sua mãe. As poucas vezes em minha infância que fui com ele visitá-la, tivemos de sair às pressas devido a discussões entre eles. Minha avó não queria ter filhos homens e seus dois primeiros foram Clóvis e meu pai, até que vieram Zuleika e Lígia. Por ordem dela, meu pai ia ao colégio descalço, seu caderno era de papel de pão e não permitia que ele comesse nada de gostoso que por acaso meu avô comprasse. Quando Clóvis tinha 15 anos e meu pai 14, ambos foram postos na rua por ela. Meu pai perambulou pelas ruas e por várias casas em São Paulo dos 14 aos 19 anos, até que veio para o Rio de Janeiro morar no Itanhangá na casa do violinista Baden Powell. Ela voltou a ver meu pai, quando já morando no Rio, no programa do Chacrinha, o mesmo entregando um quadro a óleo pintado e vendido ao apresentador. Clóvis nunca mais falou com ela.
Andava nos ônibus com um alfinete nas mãos, caso alguém lhe encostasse, era alfinetado por ela. Quando meu pai urinava na cama, por sua incontinência urinária devido a tamancadas na altura dos rins, era obrigado ficar na calçada em frente à casa de quatro até que secasse pelo Sol o lençol que era posto sobre ele, sendo desse modo, motivo de escárnio por todos na rua.
Depois de um bom tempo, Zuleika, não suportando mais guardar, contou ao meu pai que sua mãe, além de bater em João Batista e lhe criar feridas que não cicatrizavam, colocava açúcar em seu adoçante, lhe dava água de privada para beber estando o mesmo já cego e tinha um amante que morava em Minas Gerais. Meu avô morava nessa época num quartinho nos fundos da casa e lá ouvia e cantava seus hinos. Ela tomava isso como deboche da parte dele e o agredia furiosamente. Indo ao enterro, telefona para tal amante e diz: “Estamos livres, o Batista morreu!”.
O tempo passou, minha avó viveu com Lígia e foi ficando psicótica. Conseguiu o porte de armas e comprou dois 38, um prateado e outro preto. Qualquer um que parasse em seu portão à noite ela atirava para cima, imaginando que era alguém querendo vingar a morte de meu avô. No final, ficou viciada em operações plásticas e qualquer caroço já era motivo para internar-se no Hospital das Clínicas. Tirava pele de um lugar para pôr em outro; nenhuma pequena mancha podia aparecer. Virou uma neurose até que ficou cancerígena, não sei se motivado por tantas plásticas. Diante da amputação de uma perna, veio a falecer nos meados dos anos 90.
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