Fichas e lembranças de tempo de
sobriedade em A.A. (origem)
=> O costume
atual de muitos Grupos celebrarem os aniversários de sobriedade de seus
membros, uma prática que não diz respeito ao programa de A.A. na sua essência (1) – mas também não se opõe,remete aos primeiros
tempos da Irmandade. Este costume começou com iniciativas individuais e depois
se estendeu às celebrações comunitárias; os costumes variam muito conforme os
Grupos e as regiões.
A
Irmã Inácia, a freira que ajudou o Dr. Bob nas internações de alcoólicos no
Hospital St. Thomas, em Akron, parece ter sido a primeira a usar medalhas para
incentivar alcoólicos a manterem a sobriedade. Ela dava a cada alcoólico que
recebia alta do hospital uma medalha do Sagrado Coração e fazia-lhe prometer que a
devolve-se pessoalmente a ela antes de tomar o primeiro trago se decidisse
voltar a beber. Ela teria seguido o
exemplo de um movimento pró-temperança - Padre
Mateus, criado na Irlanda (a irmã Inácia era imigrante irlandesa) por volta
dos anos de 1840 que teria iniciado
esse procedimento.
Entre as primeiras
evidências destas celebrações individuais, aparece uma de Clarence S.
cofundador do primeiro Grupo propriamente dito de A.A. (o primeiro Grupo com o
nome Alcoólicos Anônimos) em
Cleveland. Clarence ingressou no Grupo de Akron, o primeiro Grupo de A.A., em
11 de fevereiro de 1938. Ele fez um
medalhão com uma moeda de um dólar de prata onde fazia um furo passante a cada
ano que conseguia manter a sobriedade. Carregou esse medalhão em seu pescoço até morrer em 22 de março de 1984. Nessa data, o medalhão tinha 46
furos.
A
pratica de usar fichas para celebrar o aniversário de sobriedade parece ter
sido iniciada em 1947 e é atribuída
a um Grupo de Elmira, Nova York. Muito provavelmente este costume foi herdado
dos membros do Grupo de Oxford que assim comemoravam seus aniversários de
renascimento espiritual.
O Grupo de Portland, Maine, usa fichas de pôquer de nove cores: a ficha
branca é entregue no ingresso; se o membro não recai, após trinta dias recebe
uma ficha vermelha; a ficha azul para dois meses, a preta para três meses,
verde para quatro meses, azul transparente para cinco meses, âmbar para seis,
roxo transparente para nove meses e uma ficha branca transparente por um ano de sobriedade continuada. As fichas estão impressas com as letras AA em dourado. A
cada ano seguinte, o membro recebe um cartão de aniversário assinado pelos
presentes.
Em
Charlotte, Carolina do Norte, ao receber a ficha branca no final da reunião o
ingressante está admitindo
diante de seus novos companheiros que aceita os preceitos de A.A.
e se dispõe a iniciar o caminho da sobriedade. Após três meses troca a ficha
branca por uma vermelha. Mais tarde uma ficha âmbar transparente indica que
este membro tem desfrutado seis meses de um novo modo de vida. Uma ficha
verde-clara sinaliza que ele manteve a sobriedade durante nove meses e recebe
uma ficha azul quando completa um ano de sobriedade. Em alguns Grupos, os
padrinhos presenteiam seus afilhados com uma ficha de prata gravada quando
completam cinco anos de pensamento claro e vida limpa.
Em
Artesia, Novo México, alguns Grupos entregam esferas de mármore do tamanho de
bolinhas de gude. Outros Grupos alternam essas bolinhas com fichas coloridas ou
metálicas.
O
Grupo Larchmont, de Larchmont, Nova York dá uma estatueta de um camelo feita em
bronze fundido montada numa base de mogno para celebrar os aniversários de um,
cinco e dez anos de sobriedade. A figura do camelo simboliza o propósito da
maioria dos AAs, ou seja, viver 24 horas sem bebida.
http://www.barefootsworld.net/aachips.html
N.T.
(1): A
Conferência de Serviços Gerais de 1992 –
EUA/Canadá abrigou uma discussão
a respeito de produzir ou não produzir medalhas e, sobre a responsabilidade de
A.A.W.S. de proteger nossas marcas registradas e os direitos de propriedade
contra usos que pudessem sugerir afiliação com fontes alheias.
O resultado
foi uma Ação Recomendável da Conferência para que a Junta de Serviços Gerais
iniciasse um estudo a respeito da viabilidade de possíveis métodos através dos
quais se poderiam colocar as fichas de sobriedade a disposição da Irmandade,
seguido de um relatório a um Comitê ad hoc (para esse fim) constituído por Delegados à Conferência de 1993, o qual informaria todos os
membros da Conferência no seguinte mês de março (nos EUA/Canadá, as
Conferências são realizadas no mês de abril).
Após longas considerações, o
Comitê ad hoc apresentou
seu relatório e recomendações à Conferência de 1993. Depois de uma discussão, a
Conferência aprovou duas das cinco recomendações apresentadas:
1)
O
uso de fichas e medalhas de sobriedade é um assunto de autonomia
local e não algo sobre o que a Conferência deva consignar uma posição
definitiva;
2)
Não
é apropriado que A.A.W.S ou a Grapevine produzam ou autorizem a produção de
fichas e medalhas de sobriedade...
http://www.aa.org/lang/sp/sp_pdfs/sp_box459_aug-sept93.pdf (pág. 6-7)
Fichas e lembranças de tempo de sobriedade no Brasil
=> O texto a seguir foi extraído do
livro “Alcoolismo - Queda e Recuperação”, de Luiz M., membro de A. A.
no Rio de Janeiro, falecido em 1992,
e recolhido no sítio:
http://www.aacarmosion.com/2011/12/historia-do-uso-das-fichas-no-aa.html Inicio
da transcrição => A
história do uso das fichas no A.A. Brasileiro.
Pelo
menos até o início da década de 1950,
quando não havia sido publicado Os 12 Passos, que só ocorreria em 1953, os AAs dos Estados Unidos
adotavam, como programas de abstinência, os slogans: “Se tem que tomar um trago, não o tome” (revista Seleções, dez. 1947), e “Só por hoje” (revista
Seleções, fev. 1954). Não se falava
em “evitar o primeiro gole” ou em “programa de 24 horas”,
sugestões que me parecem, levam muito do reconhecido “jeitinho brasileiro”.
Não
havia ainda, também, uma estrutura de apoio suficientemente organizada, pois o
primeiro escritório de serviços situado em Versey Street, Nova York, havia
nascido em 1940 muito mais como
suporte à Editora que havia sido criada para o lançamento do Livro Azul, que não dispunha de recursos humanos suficientes para atender, particularmente,
os poucos membros em vacilação, os quais, por outro lado, contavam com poucos
grupos e poucas reuniões em Nova York. Certamente
preocupados com esses aspectos imaginaram um sistema que mantivesse viva na
lembrança dos que se recuperavam e nasceu um programa intitulado “Psicologia do níquel do telefone”, que
consistia em estimular os companheiros a conduzirem no bolso, número de
telefone de outro, junto com um níquel (N.T.:
moeda fracionária de dólar) para,
nos momentos de vacilação, antes de voltarem a beber, usarem. Deu certo. Foi
substancial e muito animador o índice de recuperações. Essa
campanha, através do boletim mundial, chegou ao conhecimento de um A.A. brasileiro ainda engatinhando,
apalpando no escuro, que tudo fazia na base do “deve ser assim” porque o nosso saudoso fundador Herbert L. D., quando para aqui veio, também quase nenhuma
experiência
institucional possuía e, pois embora com muita disposição e boa vontade, pouco
podia ilustrar.
Mas
surgiu logo um grave problema. Como adotar aqui essa campanha, com o
fechadíssimo conceito de anonimato de então, quando os poucos membros nem mesmo
davam os seus nomes? Como usar um “níquel
do telefone” objeto, então muito raro, tanto particular como publicamente?
Era, na época, privilégio de muito poucos a posse de um aparelho telefônico e Escritório de Serviço, nem pensar!.
. .
Foi
quando alguém lembrou que recentemente, o Governo Federal havia fechado todos os cassinos e, portanto, nas lojas de
material especializado deveria estar encalhado tudo que usavam, inclusive
fichas das mais variadas cores. Era a solução. Nasceu assim, com o clássico
“jeitinho brasileiro” um sucedâneo
para o“níquel do telefone”. E
essas fichas, nestes anos de A.A. no Brasil, estão nos bolsos de milhares de
companheiros, lembrando-lhes a última reunião que estiveram presentes, os
depoimentos que calaram fundo, os novos fatos na vida de cada um, o progresso,
tanto material como espiritual, conquistado.
Representam as fichas, de certa forma, uma “tradição” do A.A. brasileiro que,
ultimamente registra com alegria sua adoção por AAs, dos outros Países,
incluindo os companheiros dos EUA.
A sequência de cores
parece ter sido aleatória, com base nos estoques
encontrados nas lojas, e são: 1° amarela, para o ingresso; 2º Azul, trocada
pela amarela aos 3 meses; 3º rosa, aos 6 meses; 4º vermelha, aos 9 meses; 5º
verde, com 1 ano; 6º verde-gravata, que não é trocada, aos 2 anos; 7º
branca-gravata; aos 5 anos, 8º amarela- gravata, aos 10 anos; 9º azul-gravata,
aos 15 anos; 10º rosa-gravata, trocada aos 20 anos; 11º vermelha-gravata, aos
25 anos e, atualmente, a última; 12º
verde-gravata, clara de um lado e, verde clara
circulada por losangos com todas as cores das fichas anteriores, aos 30 anos (2). A “troca”, até a ficha de 2 anos era feita
pela vontade,
o desejo do companheiro de que a ficha que estava devolvendo, que tanto lhe
trouxe, que tanto de seu calor humano continha, fosse levar, ao novo portador,
tudo aquilo que conquistara. Havia muito sentimento de fraternidade, nessas
solenidades. Por
outro lado, no caso de uma infortunada recaída, devia o companheiro
sigilosamente, com o seu padrinho ou algum companheiro de sua absoluta
confiança “quebrar” essa sua ficha evitando o prosseguimento de seu
círculo de imagem negativa.
Essa
é a história das fichas no Brasil. Não tem qualquer procedência outras
histórias, especialmente a que diz que elas lembram as chapinhas guardadas por Bill
e Bob, da última cerveja que tomaram primeiro
porque eles nunca beberam juntos,
segundo porque, se um
alcoólico ativo não guarda coisas importantes não seria uma simples chapinha
que ia guardar.
(N.T.: 2) Atualmente a Junaab disponibiliza fichas nos seguintes
materiais e cores:
· Ficha plástica
comum Amarela => Ingresso.
· Ficha plástica
comum Azul => 3 meses
· Ficha plástica
comum Rosa => 6 meses
· Ficha plástica
comum Vermelha =>
9 meses
· Ficha plástica
comum Verde => Um ano
· Ficha luxo madrepérola Verde
=> Um e dois anos
· Ficha luxo madrepérola Marrom
=> Três anos
· Ficha luxo madrepérola Tomate
=> Quatro anos
· Ficha luxo madrepérola Branca
=> Cinco anos
· Ficha luxo madrepérola Amarelo-claro => Seis anos
· Ficha luxo madrepérola Azul-claro => Sete anos
· Ficha luxo madrepérola Amarelo-ouro => Oito anos
· Ficha luxo madrepérola Laranja
=> Nove anos
· Ficha luxo madrepérola Ouro-velho => 10 anos
· Ficha luxo madrepérola Azul => 15 anos
· Ficha luxo madrepérola Lilás => 20 anos
· Ficha luxo madrepérola Rosa-violeta => 25 anos
· Ficha luxo madrepérola dupla
Azul e Branca => 30 anos
O mesmo Luiz M.
(1929-1992), em sua história (autorizada) “Origens de A.A. no Brasil” (3)–
coletânea que abrange o período entre os anos 1945 e 1992, ano da sua
morte, conta que em 1962 Raimundo R. foi eleito
Secretário-geral de A.A. no Rio de Janeiro e “...Das variadas realizações de Raymundo R., apenas uma criou sérios e
divergentes problemas no A.A. brasileiro - a criação das fichas de ouro para homenagear os companheiros quando completassem dez anos de
sobriedade e participação; uns
alertaram para o fato de que, sendo
o A.A. uma irmandade calcada na
espiritualidade, o ouro, como o mais completo símbolo do poder material, seria
um símbolo inadequado em nosso meio; outros alegavam que, sendo o A.A. uma
Irmandade pobre e que assim devia permanecer, como poderia oferecer fichas de
ouro e, finalmente, havia os que
argumentavam que, naquele momento ou nos imediatos anos seguintes, seria fácil brindar os poucos companheiros que estavam ou estariam completando dez anos, mas, mais
adiante, esse número de companheiros iria crescendo e, os grupos, não tendo condições
para adquirir essas fichas de ouro, criariam
dentro de A.A. duas castas: a dos que tinham fichas de ouro, e a dos que não podiam ter. De qualquer forma, a ficha foi introduzida no A.A. e, atualmente, muitos são os companheiros que
completaram os seus dez anos e não receberam a ficha de ouro”. (N.T.: 3) Maiores informações a respeito desta coletânea
podem ser obtidas no Grupo de origem de Luiz M., o Grupo
Central do Brasil de A. A. Rua Prof.
Clementino Fraga Filho, nº 22 (Igreja de Santana - Reuniões 3ª e 6ª feiras).
Caixa Postal: 16.070 CEP: 20.221, Rio – RJ. A história foi redigitada por Ricardo
Gorobo - Gr. Paquetá.
Vale
dizer que o ato da entrega de fichas, sua frequência e a forma de fazê-lo ou
não, é uma prerrogativa de cada Grupo em particular adotada conforme sua
consciência coletiva. Ainda assim, a aceitação ou recusa da ficha é de livre
vontade de cada membro. Muitos AAs celebram seus “aniversários” fazendo doações voluntárias e anônimas aos Órgãos de
Serviço conforme suas poses ou doando literatura a companheiros novos. Os
Grupos deverão sempre evitar fazer entrega de fichas e/ou homenagens em
reuniões de divulgação ou de Informação ao Público.
É
consenso que as fichas celebram o tempo
de sobriedade continuada – sem recaída, que é, também, o tempo que conta
para pleitear qualquer encargo na estrutura de A.A. Como ninguém pode ser
fiscalizado, este tempo baseia-se numa afirmação
moral do membro. O tempo de Irmandade é contado desde
quando o membro manifestou seu desejo de nela ingressar. Não existindo
infração, penalização, punição nem expulsão não existe reingresso na Irmandade,
mas sim, retomada do tempo de
sobriedade a partir de uma eventual recaída.