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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

TERCEIRA CARTA

 

05.07.2012.

 

Acordei pensando que sou mesmo um sonhador. De certa forma, isso me satisfaz, embora que, a satisfação que eu queria encontrar era e é na realização de meus sonhos. Se vou realiza-los? Lógico que não, pois hoje meu maior sonho é parar de sonhar.
 
Farei ode às coisas, como fez Neruda; odes à grama, aos postes, às paredes, à minha mesinha, a tudo que me emocionou na vida, a você, ao dicionário que nunca larguei, ao sabor dos vinhos que bebi, à música de Tchaikovsky que ouço agora, à meus bichos, à tudo que me cerca.
 
Serei feliz. Genialmente feliz sendo um mero expectador de tudo que se passa, de tudo que existiu e de tudo que existe. Descobrir, perceber, provar da beleza da vida não é para qualquer um e isso me enlouquece, de certa forma, ainda mais. Perfeição é o que vejo na natureza e na natureza genial de alguns poucos homens.
 
Meu emocional vitupera com insalubre desgraça os imbecis que apenas nascem-crescem-reproduzem-se-e morrem. De forma alguma eu passaria a vida sem notar deliberadamente a beleza da mesma e produzir algo que fique.
 
Ficarão minhas mazelas, minha “amada imortal” por mais que não pareça, ficarão minhas paixões, minhas coisas pelas quais resolvi fazer odes, os sons que me entorpeceram, as palavras que escrevi, onde meus pensamentos se materializaram. Ficarão minhas impressões sobre tudo que vi, senti, toquei, ouvi e interpretei.
 
Ficarão todos esses poucos 14 mil dias e um pouco mais de muita luta, resignação, busca, encontros e desencontros. Um emocional desequilibrado, com o qual te assustei – e deveras como não seria assim! Mas ficarão intensas minhas emoções; serão sempre assim minhas indelicadas propostas, aparentemente dúbias; certamente um espetáculo de emoções desse canceriano legítimo e autêntico.
 
Não sendo injusto, ficarão também as impressões daqueles que compartilharam comigo suas evidências e seus vereditos. Observo também que, muita coisa ao meu respeito se repetiu. Isso, de certa forma, me serviu de ração, alimento e regra ao meu jeito de ser. Pretensioso, despreocupado e péssimo aluno, embora que autodidata.
 
Entre tantas coisas que ficarão, ficará a incompreensão de agora, onde é visível a inexistência de um manual; quando poderiam ser práticas as coisas da vida. Ficará seu medo e indisposição a propostas decisivas, onde de forma alguma quereria ou pretenderia eu persuadi-la.
 
Talvez também fique, isso eu não sei, mas talvez também fique um eterno arrependimento por ambos os lados, de tudo aquilo que poderíamos ter vivido e não vivemos.

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