Você já
ouviu falar numa pessoa que estava há vários anos em abstinência, mas acabou tendo uma recaída? O estudo
de hoje é sobre essa pessoa e o processo de
abstinência que ela deixou para trás. Já vimos em postagens anteriores que o tempo de abstinência forma um LASTRO ABSTÊMIO de tal forma que quanto maior
for o tempo em abstinência maior será o lastro. Agora, nesse estudo, vamos analisar a vinculação do abstêmio com o
processo de abstinência ou com o lastro deixado antes da recaída.
A bem da verdade, vamos
analisar a DESVINCULAÇÃO do abstêmio com o processo de abstinência, ou seja, a
DISSONÂNCIA que evoluiu ao ponto de fazer com que o abstêmio
“abandonasse” seu processo de abstinência.
O processo
de recaída2 tem como
uma de suas características fundamentais resultar no DESALINHAMENTO do processo abstêmio.
Enquanto a abstinência
decorre de um ALINHAMENTO ABSTÊMIO,
o processo de recaída representa um desvio abstêmio
que resulta no retorno ao processo de adicção. Esse retorno ao processo de adicção pode, de certo modo, servir de suporte
para quantificar o empenho,
a dedicação, a vinculação e o próprio sistema ideológico abstêmio que o recaído estava percorrendo antes de sua reintoxicação física.
Exemplificando para esclarecer: se o abstêmio
está fortemente COADUNADO
e INSERIDO em seu processo
abstêmio, caso ele venha a
recair, essa recaída
não será muito duradoura e não terá efeitos tão negativos em sua vida.
Por outro lado, se o abstêmio estava DESVINCULADO de seu processo
abstêmio, caso ele venha a recair, essa recaída será muito intensa
e produzirá efeitos
Dessa
forma, é possível estabelecer a seguinte premissa: A RECAÍDA É UMA DISSONÂNCIA PATENTE
ENTRE O ABSTÊMIO E SEU PROCESSO ABSTÊMIO,
E ESSA DISSONÂNCIA PODERÁ SER MEDIDA CONFORME
FOREM OS EFEITOS
CAUSADOS PELA PRÓPRIA
RECAÍDA. Concluindo esse
raciocínio: se a recaída teve
um período muito longo, se houve grandes perdas financeiras, se o desgaste emocional
foi acima do tolerável, se o retorno
ao processo adicto foi profundo, e se o recaído teve
de ser internado de forma coercitiva para que pudesse se desintoxicar, podemos
afirmar que o seu anterior
compromisso com o processo abstêmio estava muito tênue e frágil.
Por fim, é
possível compreender que o processo de recaída constitui no resultado de uma DISSONÂNCIA PATENTE entre
o abstêmio e seu processo de abstinência
e que, quanto maior for essa dissonância, maior será a intensidade da recaída.
Aqui se faz necessário afirmar que o LASTRO ABSTÊMIO
consiste em CRITÉRIO MERAMENTE CRONOLÓGICO para conseguir reinserir
o abstêmio dentro da escada abstêmia. Por sua vez, a
TEORIA DA DISSONÂNCIA PATENTE (TDP) corresponde a um CRITÉRIO
MISTO (SUBJETIVO-OBJETIVO) capaz de avaliar
o nível de comprometimento do sujeito (abstêmio
que recaiu) perante seu
Parece ser evidente que, quanto maior for o vínculo do abstêmio com seu processo de abstinência, menor será a dissonância patente ou, por outro lado, quanto maior forem os efeitos da recaída, maior será a dissonância patente. Assim, a pessoa que possuir um grande lastro abstêmio e um grande vínculo com seu processo de abstinência tenderá a retornar muito mais rapidamente ao caminho abstêmio.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
2 Para esse estudo a expressão recaída será entendida apenas como sendo a reintoxicação física do abstêmio. Contudo, no processo de recaída existe uma sequência de atos/eventos que se sucedem no tempo culminando com o último ato que é a reintoxicação física da pessoa. Então, se entendermos a recaída como sendo um processo, existem as seguintes fases:
• REINTOXICAÇÃO FÍSICA: é a última etapa do processo de recaída, culminado com o uso efetivo de drogas/álcool. É a recaída real.
• REINTOXICAÇÃO EMOCIONAL: são os fatos antecipadores imediatamente anteriores ao uso de drogas/álcool, tais como comprar ou pedir drogas/álcool. É a “recaída emocional”.
• FATOS AUXILIADORES ANTECEDENTES: são as artimanhas para o uso. Por exemplo, discussões desnecessárias, mentiras, ardil, fuga, obtenção de meios, aumento da irritabilidade ou isolamento.
• FATOS COGNITIVOS ESTRATÉGICOS: ocorrem internamente, apenas na mente da pessoa, como desorganização mental e cogitações de uso.
• FATOS COGNITIVOS PERMISSIVOS: constituem-se pela manutenção de reservas, teimosia, ausência de flexibilização conceitual. É uma espécie de orgulho, mas, como é um orgulho exagerado, é comum dizer que é orgulho inflado.

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