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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Vacinas de Abstinência 24/33 - Teoria da Dissonância Patente

 

Você já ouviu falar numa pessoa que estava há vários anos em abstinência, mas acabou tendo uma recaída? O estudo de hoje é sobre essa pessoa e o processo de abstinência que ela deixou para trás. Já vimos em postagens anteriores que o tempo de abstinência forma um LASTRO ABSTÊMIO de tal forma que  quanto maior for o tempo em abstinência maior será o lastro. Agora, nesse estudo, vamos analisar a vinculação do abstêmio com o processo de abstinência ou com o lastro deixado antes da recaída. A bem da verdade, vamos analisar a DESVINCULAÇÃO do abstêmio com o processo de abstinência, ou seja, a DISSONÂNCIA que evoluiu ao ponto de fazer com que o abstêmio “abandonasse” seu processo de abstinência.

 

O processo de recaída2 tem como uma de suas características fundamentais resultar no DESALINHAMENTO do processo abstêmio. Enquanto a  abstinência decorre de um ALINHAMENTO ABSTÊMIO, o processo de recaída representa um desvio abstêmio que resulta no retorno ao processo de adicção. Esse retorno ao processo de adicção pode, de certo modo, servir de suporte para quantificar o empenho, a dedicação, a vinculação e o próprio sistema ideológico abstêmio que o recaído estava percorrendo antes de sua reintoxicação física.

 

Exemplificando para esclarecer: se o abstêmio está fortemente COADUNADO e INSERIDO em seu processo abstêmio, caso ele  venha  a  recair, essa recaída não será muito duradoura e não terá efeitos tão negativos em sua vida. Por outro lado, se o abstêmio estava DESVINCULADO de seu processo abstêmio, caso ele venha a recair, essa recaída será muito intensa e produzirá efeitos nefastos. Assim, é possível estabelecer uma relação entre a intensidade  (grau  ou nível) da recaída e a intensidade (grau ou nível) de  comprometimento  com  o processo abstêmio. Então, quanto maior for a intensidade da recaída, menor será o comprometimento do abstêmio com seu processo de abstinência; ou o contrário: quanto menor for a intensidade da recaída, maior será o comprometimento do abstêmio com seu processo de abstinência.


Dessa forma, é possível estabelecer a seguinte premissa: A RECAÍDA É UMA DISSONÂNCIA PATENTE ENTRE O ABSTÊMIO E SEU PROCESSO ABSTÊMIO, E ESSA DISSONÂNCIA PODERÁ SER MEDIDA CONFORME FOREM OS EFEITOS CAUSADOS PELA PRÓPRIA RECAÍDA. Concluindo esse

raciocínio: se a recaída teve um período muito longo, se houve grandes perdas financeiras, se o desgaste emocional foi acima do tolerável, se o retorno ao processo adicto foi profundo, e se o recaído teve de ser internado de forma coercitiva para que pudesse se desintoxicar, podemos afirmar que o seu anterior compromisso com o processo abstêmio estava muito tênue e frágil.



 









Por fim, é possível compreender que o processo de recaída constitui no resultado de uma DISSONÂNCIA PATENTE entre o abstêmio e seu processo de abstinência e que, quanto maior for essa dissonância, maior será a intensidade da recaída.

 

Aqui se faz necessário afirmar que o LASTRO ABSTÊMIO consiste em CRITÉRIO MERAMENTE CRONOLÓGICO para conseguir reinserir o abstêmio dentro da escada abstêmia. Por sua vez, a TEORIA DA DISSONÂNCIA PATENTE (TDP) corresponde a um CRITÉRIO MISTO (SUBJETIVO-OBJETIVO) capaz de avaliar o nível de comprometimento do sujeito (abstêmio que recaiu) perante seu próprio processo de abstinência através dos efeitos produzidos pelo processo de recaída.


 

Parece ser evidente que, quanto maior for o vínculo do abstêmio com seu processo de abstinência, menor será a dissonância patente ou, por outro lado, quanto maior forem os efeitos da recaída, maior será a dissonância patente. Assim, a pessoa que possuir um grande lastro abstêmio e um grande vínculo com seu processo de abstinência tenderá a retornar muito mais rapidamente ao caminho abstêmio.


1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

2 Para esse estudo a expressão recaída será entendida apenas como sendo a reintoxicação física do abstêmio. Contudo, no processo de recaída existe uma sequência de atos/eventos que se sucedem no tempo culminando com o último ato que é a reintoxicação física da pessoa. Então, se entendermos a recaída como sendo um processo, existem as seguintes fases:

  REINTOXICAÇÃO FÍSICA: é a última etapa do processo de recaída, culminado com o uso efetivo de drogas/álcool. É a recaída real.

  REINTOXICAÇÃO EMOCIONAL: são os fatos antecipadores imediatamente anteriores ao uso de drogas/álcool, tais como comprar ou pedir drogas/álcool. É a “recaída emocional”.

  FATOS AUXILIADORES ANTECEDENTES: são as artimanhas para o uso. Por exemplo, discussões desnecessárias, mentiras, ardil, fuga, obtenção de meios, aumento da irritabilidade ou isolamento.

  FATOS COGNITIVOS ESTRATÉGICOS: ocorrem internamente, apenas na mente da pessoa, como desorganização mental e cogitações de uso.

  FATOS COGNITIVOS PERMISSIVOS: constituem-se pela manutenção de reservas, teimosia, ausência de flexibilização conceitual. É uma espécie de orgulho, mas, como é um orgulho exagerado, é comum dizer que é orgulho inflado.

 

 

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