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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Vacinas de Abstinência 5/33 - Teoria do Deadline da Adicção e da Abstinência



Como termina a adicção? Como se perde a adicção?²

O ditado popular de que a adicção termina em “cadeia, clínica ou caixão” é verdadeira? Essa “crença” deve ser aceita como verdade? Existe outra solução? Vamos estudar esse assunto.

Popularmente é comum a informação de que o uso de drogas/álcool termina de três formas: cadeia, clínica ou caixão. Esse é o famoso “CCC” (ou os três C’s) do fim da adicção. Todavia, fazendo um estudo um pouco mais atento podemos observar que isso não representa toda a verdade. Por quê? Vejamos.

A questão central é saber “COMO” o processo de adicção vai terminar. A resposta é muito simples: a adicção termina quando CESSAR o uso de drogas/álcool. Existe diferença entre cessar e suspender o uso de drogas/álcool. Cessar é terminar, extinguir, acabar por completo ou interromper em definitivo. Enquanto, suspender é apenas parar por curto período, interromper momentaneamente, sustar ou adiar o uso de drogas/álcool. Dessa forma, CESSAR o uso drogas/álcool significa “parar em definitivo” o processo de adicção. Então, quais são as formas de parar de usar drogas/álcool? Vejamos.

Entendemos que o fim da adicção pode ser VOLUNTÁRIO ou INVOLUNTÁRIO, ou seja, o processo de adicção é algo que nasceu com data certa para terminar. Dessa forma, a adicção vai terminar: quer o adicto queira ou não.

O fim da adicção entendido como sendo INVOLUNTÁRIO pode ocorrer de diversas formas. Por exemplo:

1.    Óbito involuntário. Ex.: morte prematura da pessoa por overdose acidental, violência contra o adicto – homicídio, lesão corporal gravíssima -, violência do adicto contra outra pessoa alguém atuando em legítima defesa causa a morte do adicto -, acidente de trânsito culposo,  morte  pela  traficância  (execução  do  adicto), violência doméstica, morte em confrontos com a polícia etc.

2.    Abstinência forçada. A pessoa adicta é forçada a ficar em abstinência por motivos diversos, por exemplo:

2.1     Debilidade mental que torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.: esquizofrenia grave, invalidez mental permanente, depressão grave etc.

2.2     Debilidade física permanente que torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.: AVC, câncer no pulmão ou fígado, diabetes avançada etc.

2.3     Internamento permanente. Ex. manicômio judiciário ou grandes períodos de prisão que acabam gerando a desintoxicação e abstinência coercitiva (abstemius coacto).

Assim, o fim da adicção de forma INVOLUNTÁRIA resultará no óbito ou na abstinência forçada (debilidade mental, debilidade física ou internamento permanente).

Em outro diapasão, o fim da adicção também pode ocorrer de maneira

VOLUNTÁRIA, mas como? Através de:


1.   Óbito voluntário. Ex. suicídio direto, suicídio indireto (acidente de trânsito doloso), overdose volitiva, permanência perpétua na vida adicta (adicto que permanece adicto até o final de sua vida, por exemplo, bebeu até morrer pela falência de seus órgãos).

2.    Abstinência “voluntária”. Ex.: deixou a adicção para trás e não usa drogas/álcool quer seja interrompendo o uso por meio de internamentos, ou sozinho, ou com ajuda de grupos anônimos, ou com ajuda de terceiros. Destaque-se um detalhe de suma importância: a abstinência é voluntária, porém o fato que originou a abstinência pode não ter sido voluntário. Por exemplo, a pessoa é internada involuntariamente, entretanto depois do internamento e da desintoxicação permanece em processo de abstinência. Essa abstinência é voluntária, embora o fato que tenha contribuído para isso (internamento) seja involuntário.

A crítica é que a CADEIA e a CLÍNICA não são formas de CESSAR a adicção. O que extingue a adicção não é ficar preso, mas é o término do uso de drogas/álcool pelo fato de estar preso ou sem acesso às drogas/álcool. Da mesma forma, o que extingue a adicção não é a “clínica”, mas é cessação do uso drogas/álcool por estar sem acesso às drogas.

Entretanto, por óbvio que o CAIXÃO, representando o óbito, de fato interrompe por completo o processo adicto. Entretanto, a morte não interrompe a adicção por superar o modelo adicto, mas porque não existirá mais a PESSOA que era adicta. A morte (CAIXÃO) elimina a “pessoa da adicção” e não a “adicção da pessoa”. Assim, temos o seguinte panorama:

·     Cadeia – pode ser um meio involuntário de interromper a adicção, desde que o adicto não continue usando drogas/álcool quando preso e nem quando sair da prisão. Então, o que interrompe a adicção não é a cadeia, mas é a abstinência gerada pelo fato da pessoa adicta ter sido presa.

·     Clínica – pode ser um meio involuntário de interromper a adicção, desde que o adicto não continue usando drogas/álcool quando sair da clínica. Então, o que interrompe a adicção não é a clínica, mas é a abstinência gerada pelo fato da pessoa ter sido internada.

·     Caixão – é efetivamente um meio de interromper a adicção, seja pela morte voluntária ou involuntária. A morte interrompe o processo de adicção, mas não pelo fim do uso das drogas/álcool, e sim pelo fim da pessoa que usava drogas/álcool.

Então, pelo raciocínio exposto, a adicção termina somente de duas formas: óbito ou abstinência. Ao que tudo indica, seja pela morte ou pela abstinência, de um jeito ou doutro a adicção vai terminar. Agora vem um ponto muito importante. Como a morte não representa o fim do uso de drogas/álcool, mas sim o fim da PESSOA que usava drogas/álcool, pergunto: “como uma pessoa ‘viva’ que é adicta pode ficar sem usar drogas/álcool?” Somente de uma forma, pela ABSTINÊNCIA. Não existe outra maneira, não tem outro caminho. Se a pessoa que era adicta quiser permanecer viva e, simultaneamente, sem a adicção, só existe um caminho: a ABSTINÊNCIA.

Por sua vez, como visto antes, ABSTINÊNCIA pode ser alcançada de duas formas: ou a pessoa fica abstêmia de forma VOLUNTÁRIA, ou a pessoa será abstêmia de forma FORÇADA.

Concluindo a questão, a adicção não termina em “cadeia, clínica ou caixão” que são, em geral, formas de obter a ABSTINÊNCIA FORÇADA. Existe outra solução para o fim da adicção: a ABSTINÊNCIA VOLUNTÁRIA.

 

Quando termina a abstinência? Como se perde a abstinência?

A resposta a essa pergunta parece ser: no óbito ou no retorno ao processo de adicção. A morte não faz alguém perder a abstinência porque usou drogas/álcool, mas porque a pessoa deixou de existir, é o fim da própria pessoa e não o fim da abstinência em si. Então, na realidade, nem mesmo a morte faz com que a pessoa perca sua própria abstinência. A morte pode ser voluntária (suicídio) ou involuntária, mas o reuso de drogas/álcool é, em regra, somente voluntário já que forçar alguém a usar drogas/álcool contra sua vontade é algo muito difícil. Se o abstêmio for obrigado a usar drogas/álcool contra sua vontade estará perdendo sua abstinência, mas, nesse raríssimo caso, provavelmente, poderá voltar ao caminho da abstinência de forma menos complexa e penosa do que aquela pessoa que interrompeu deliberadamente seu o processo de abstinência.3

Existe o caso do uso de drogas/álcool involuntário como quando o abstêmio é vítima de crime, por exemplo, o “boa noite cinderela” que consiste em colocar um medicamento de uso controlado em alguma bebida para que a pessoa adormeça e seja vítima de algum crime como roubo, estupro4 ou sequestro. Isso é uma espécie de uso involuntário de drogas, mas é raro acontecer entre abstêmios já que eles, normalmente, não frequentam os “lugares” onde essa droga pode ser utilizada de forma criminosa porque aplicam ou deveriam aplicar a técnica do evite pessoa, hábitos e lugares da ativa.

Então, na prática, ao que tudo indica a abstinência somente termina de uma forma: ao (re)usar drogas/álcool. Note-se que não se perde a abstinência porque “entrou no bar”, ou porque discutiu com a esposa, porque perdeu o emprego, ou porque seu ente querido veio a falecer, ou porque está sem dinheiro, ou porque bateu o seu carro, ou porque os medicamentos acabaram e não foram comprados outros remédios. Todos esses fatos são desestabilizadores de humor, agentes estressores ou quebra do dever de cuidado, mas não geram a imediata perda da abstinência. O que faz a abstinência se perder, onde mora o perigo, é no efetivo uso de drogas/álcool. Somente o uso de drogas/álcool é capaz de interromper o processo de abstinência. Tudo o que vem antes do uso de drogas/álcool não tem o efetivo efeito de interromper a abstinência, mas são elementos que podem gerar o fim da abstinência se não forem devidamente analisados, interpretados e combatidos pelas diversas técnicas que existem e estão apresentadas nas mais variadas obras.

Outra questão: Quando se interrompe a abstinência, a pessoa volta a ser mero usuário? Volta a ser usuário abusivo? Volta a ser adicto? É difícil responder essas questões. Porém, pelo empirismo - derivado das regras de experiência do cotidiano de clínicas, terapias e grupos anônimos - percebe-se que não existe pessoa abstêmia originária de um longo processo de adicção que consiga voltar a ser mera usuária ou usuária abusiva. Na prática, o abstêmio que voltar a usar drogas/álcool irá, inevitavelmente, em mais tempo ou menos tempo, voltar ao processo de adicção. Isso parece ser a regra. Nos raríssimos casos em que o abstêmio volta a utilizar drogas/álcool, mas não retorna ao universo adicto fica a seguinte dúvida: será que essa pessoa era realmente adicta ou fazia apenas uso abusivo? Há controvérsias, mas é muito difícil encontrar abstêmio que conseguiu voltar a ser mero usuário ou usuário abusivo. Assim, na prática, os abstêmios não conseguem fazer uma redução no uso de drogas/álcool de maneira efetiva e, muito menos, lidar com técnicas de “redução de danos”.



PÉRICLES ZIEMMERMANN                                                         

 



1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas.  ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

2 Esses temas também estão apresentados no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Princípios abstemiológicos. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 165 p.; 14 X 21 cm. ISBN 978-85-924432-1-4. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

3 Lembrando que existe a “recaída sem uso” e o “uso sem recaída”. A “recaída sem uso” pode ser exemplificada pela recaída emocional quando a pessoa ainda não usou drogas/álcool, mas está na iminência de usar. O “uso sem recaída” pode ocorrer, por exemplo, no caso de emergência médica ou nas rape drugs (ver próxima nota).

4 Quando se utiliza o “boa noite cinderela” para estuprar a vítima temos a denominação de “drogas para estupro” ou rape drugs. Essas drogas são na sua maioria compostas por: flunitrazepam (nome comercial de Rohypnol), ácido gama hidroxibutírico (abreviado de GHB, nome comercial de Ecstasy líquido) ou ketamina (nome comercial de Special K).


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