Antes de
iniciar o processo de abstinência propriamente dito – que consiste na desintoxicação e no período inicial de abstinência correspondente entre
02 (dois) e 03 (três) anos – existe um momento
anterior a ele. É um pequeno detalhe
na cronologia do processo de
abstinência e que consiste em apresentar ao adicto a sua própria adicção. Essa apresentação do processo de adicção pode
decorrer do próprio adicto (autoapresentação do diagnóstico adicto) ou de terceiros
(heteroapresentação do diagnóstico adicto)2. A heteroapresentação é a mais comum,
mas em alguns casos o próprio adicto pode reconhecer que está imerso no processo
de adicção.
A diferença
entre a autoapresentação e a heteroapresentação do processo de adicção é que, na autoapresentação, o adicto autorreconhece a
existência da adicção e, na heteroapresentação, o adicto apenas desconfia – tem noção ou vaga ideia – de que está mergulhado num processo de adicção. Existe uma enorme diferença entre dizer para alguém que essa pessoa possui a adicção (heteroapresentação) e essa mesma pessoa reconhecer que possui a adicção (autoapresentação).
Assim, após a
heteroapresentação da adicção, seu autorreconhecimento poderá levar, ainda, certo lapso temporal. Por isso, é comum
se dizer que
“a ficha demora para cair”. Quanto mais precoce for realizada a autoapresentação ou a heteroapresentação do processo adicto,
menores serão as
sequelas e
mazelas geradas pela adicção. Por outro lado, quanto mais
tempo isso demorar,
maiores serão as sequelas deixadas
pelo triste e doloroso caminho da adicção.
Note-se que a heteroapresentação do processo adicto não é uma autêntica assunção – admissão – do adicto
no sentido de reconhecer a existência da adicção. Essa heteroapresentação é o marco fundamental onde terceiros reconhecem a existência de um grave problema com um de seus entes. A heteroapresentação é realizada de forma
a expor (exposição) a uma determinada pessoa
– adicto – que existe um
processo de adicção instaurado e que ele precisa interrompê-lo de alguma forma (intervenção). Assim, a heteroapresentação realizada através de uma exposição
interventiva pode ser classificada como REAL ou FALSA. Por sua vez, a autoapresentação do diagnóstico adicto será realizada
através de autoexposição
(1º) exposição da adicção: que pode ocorrer
pelo próprio adicto (autoexposição) ou
por terceiros (heteroexposição). Como a exposição é um pedido de ajuda, será sempre interventiva. É fase externa
ou exógena. A síntese dessa fase é: “eu uso drogas/álcool”
ou “eu sou usuário de drogas/álcool”. Essa
fase é uma declaração. Essa etapa é o Ponto “E”.
(2º) reconhecimento da adicção: se o adicto fizer a
autoexposição de sua adicção,
estará também se autorreconhecendo como adicto e, nesse caso, a 1ª e a 2ª etapas ocorrem de forma simultânea. Porém,
se ocorrer a heteroexposição, a pessoa ainda vai precisar de certo lapso temporal para se autorreconhecer como
sendo adicta e, nessa situação,
a 1ª e a 2ª etapas serão sucessivas. É fase interna
ou endógena, mas é mera percepção da adicção. A síntese dessa fase é: “eu sou dependente”, “eu sou viciado”, “eu sou adicto” ou “eu tenho
adicção”. Essa fase é uma intenção. Cuidado: autorreconhecer que é adicto não é a mesma
coisa que aceitar
ou admitir sua adicção. Essa etapa pode ocorrer no Ponto “E”,
depois do Ponto “E” ou, infelizmente, nunca.
(3º) admissão/aceitação da adicção: para os
grupos anônimos esse é o primeiro
passo. Aqui, para a abstemiologia, esse momento ocorre quando a pessoa desiste de lutar contra a adicção e
aceita sua real condição de adicto, ou seja,
admite sua impotência perante o uso de drogas/álcool. Aqui, a pessoa não vai autorreconhecer que é
adicto, mas vai
admitir/aceitar que está envolvida num processo de adicção. É fase endógena ou intrínseca, mas é compreensão racional
de que existe um processo
de adicção, de que existe
um adicto e de que isso deve ser interrompido. É entendimento da real condição
de adicto e do processo
de adicção. A síntese dessa fase é: “eu sou adicto, eu tenho adicção
e eu quero interromper esse
processo”. Essa fase é uma ação.
Essa etapa, em regra, ocorre muito depois do Ponto “E” ou, também infelizmente, nunca.
A seguir
será feito o estudo da 1ª e 2ª etapas citadas anteriormente, ou seja, a exposição
e o reconhecimento da adicção.
Autoexposição interventiva
O próprio
adicto reconhece sua adicção perante
si e perante terceiros – normalmente
membros de sua família nuclear –
realizando a autoapresentação do seu
diagnóstico. Nessa autoexposição
interventiva, o adicto pede
ajuda para iniciar seu processo de abstinência. Essa autoexposição sempre será real, já que não é possível
que ela ocorra sem que o adicto deixe de expor sua adicção. Dessa forma, a autoexposição interventiva será sempre um autorreconhecimento do processo de adicção perante
terceiros.
Exposição interventiva falsa
A exposição
interventiva FALSA ocorre quando um desconhecido ou amigo – pessoa que não tem muita intimidade com o adicto
– instiga ou induz o adicto a pensar sobre sua
adicção. Nesse caso, essa intervenção expositiva é falsa porque, embora possa fazer com que o adicto pense
sobre sua adicção, não está ocorrendo de forma solene e nem pelas pessoas que farão parte do seu processo
de abstinência. É
Exposição interventiva real
A exposição
interventiva REAL é o momento em que se apresenta perante o adicto sua adicção, mas por pessoas
que o adicto reconhece como sendo essenciais, fundamentais e indispensáveis em seu círculo
afetivo. É quando a exposição
interventiva está carregada de sentimentos e emoções. São, normalmente,
muito impactantes sob o ponto de
vista emocional. Esse é o momento em que as pessoas que ele conhece e ama lhe dizem: “você é adicto”. Isso pode
ocorrer várias vezes durante o processo de adicção, mas somente quando
as pessoas que fazem parte da vida
do adicto se reúnem formalmente com ele e lhe dizem “você precisa
de ajuda e nós
queremos ajudá-lo” é que existe a real exposição interventiva. Existem casos onde a família nuclear nunca reconheceu a
existência de um processo de adicção entre seus membros,
o que faz com que o adicto fique sob as sombras da adicção por longos períodos.
Essa real
exposição interventiva tem outra característica interessante, dado que as pessoas que “expõem” ao adicto seu processo de adicção farão parte, também,
do seu processo
de abstinência.
Nessa
exposição interventiva, quando a família nuclear expõe a realidade do processo de adicção ao seu membro adicto,
ela, simultaneamente, também expõe essa realidade
perante os demais familiares. Ela tem, portanto,
dupla função expositiva: anunciar ao adicto que ele
está envolto em uma adicção e, também, mostrar
aos demais membros familiares que está sendo tomada uma medida para resolver essa questão. De fato, na
exposição interventiva real, as “cartas serão
postas na mesa”.
Todas as formas de exposições interventivas
–
real,
falsa
ou autoexposição –
NÃO fazem parte,
no sentido mais
tecnicista, do processo de abstinência, mas fazem parte de um momento
anterior,
quando
se reconhece a existência de um adicto
e
que
ele
está
envolto
em um processo de adicção. Por isso, tais exposições que constituem formas de apresentação do processo de adicção ao
adicto são, na verdade, a ANTESSALA do processo de abstinência. Para iniciar a
jornada abstêmia, a pessoa precisará, muito antes, reconhecer a existência de um processo
adicto, e isso ocorrerá através
da autoapresentação ou heteroapresentação do processo de adicção.
Deste modo, a antessala do processo de abstinência consiste em apresentar o processo de adicção perante si e perante terceiros. Esse é o reconhecimento da adicção e, a partir daí, se iniciará a prática de atos para superar o modelo adicto que foi criado. Esse momento na escada abstêmia, por se referir à exposição
TRIPLO EFEITO DA EXPOSIÇÃO INTERVENTIVA
Em qualquer
uma das formas de exposição interventiva vistas anteriormente – falsa, real ou autoexposição – ocorrerão três efeitos
imediatos.
Esses
efeitos decorrem
das respostas às seguintes questões:
Existe um processo
de adicção? Quem é
o adicto? O que vamos fazer? As respostas dessas indagações identificarão “o que”, “quem” e “como”. Não se precisa
identificar nenhum “porquê”, já que não interessa
muito o motivo pelo qual se iniciou o processo de adicção, o que importa é como será solucionado o problema. Não se precisa
procurar culpados, mas se precisa
encontrar a solução.
O primeiro efeito
consiste em
RECONHECER OU AUTORRECONHECER a existência de um processo
de adicção. Se houver o autorreconhecimento, o processo já estará um pouco mais adiantado do
que se houver apenas o reconhecimento da adicção pelos terceiros, e não pelo
próprio adicto. Assim, reconhecer ou autorreconhecer a adicção enseja um diagnóstico consciencial que determina
a existência do “ser adicto”, ou seja, do HOMO ADDICTO. Dessa maneira, o Ponto “E” representa o reconhecimento ou autorreconhecimento do HOMO ADDICTO
que já existe,
efetivamente, desde o Ponto “A”. Portanto, o Ponto “E” serve para constatar, na
escada abstêmia, a existência do HOMO ADDICTO.
O segundo efeito é IDENTIFICAR “quem” está passando
pelo processo de adicção, ou seja, quem é – ou são – os adictos envolvidos.
O terceiro efeito é muito mais prático,
posto que, após a
exposição interventiva, os atores envolvidos começarão a procurar soluções para o
processo de adicção, ou seja, “como” TENTAR SANAR o problema.
Esse triplo efeito da exposição
interventiva pode ser descrito na fórmula: RECONHECER – IDENTIFICAR –
SANAR. É para gerar esses efeitos que existem as diversas
formas de exposições
interventivas.
Para
concluir, é na ANTESSALA do processo de abstinência que se reconhece, se identifica e
se tenta sanar o processo de
adicção. Agora, somente após saber qual
é o problema e quem está afetado, poderemos começar a discutir quais serão as possíveis soluções.
QUESTÃO DA REINTERVENÇÃO
A reintervenção ocorre quando houver uma recaída e a própria pessoa, sua família, seus cuidadores ou terceiros tiverem que fazer uma nova intervenção. Toda recaída gera a necessidade de uma nova intervenção, que também pode decorrer de terceiros (heterorreexposição interventiva) ou do próprio recaído (autorreexposição interventiva). O processo é muito semelhante à primeira intervenção e se desenvolve com a mesma sistemática. O detalhe que deve ser destacado é o de que, a cada reintervenção, os desgastes serão maiores. A cada reintervenção, os relacionamentos afetivos se desgastam, a falta de segurança emocional domina os envolvidos e a sensação de fracasso aumenta. O fracasso individual na tentativa de se recuperar parece ser um fracasso coletivo que envolve todos os terceiros (familiares, cuidadores e terapeutas). Muitas vezes a reintervenção gera reinternamento, mas também pode provocar outras situações, como reavaliações clínicas, mudanças de médicos, alteração de cuidadores, rompimentos de laços familiares e discussão sobre “culpas”. De fato, o mais comum, e que ocorre na esmagadora maioria dos casos, é a existência de uma intervenção e, depois, sucessivas reintervenções.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
2 Esses temas também estão apresentados no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Princípios abstemiológicos. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 165 p.; 14 X 21 cm. ISBN 978-85-924432-1-4. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
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