Instagram: marcelo.braga73

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Vacinas Abstemiológicas 16/33 - Teoria da Antessala do Processo de Abstinênci


Antes de iniciar o processo de abstinência propriamente dito – que consiste na desintoxicação e no período inicial de abstinência correspondente entre  02  (dois) e 03 (três) anos existe um momento anterior a ele. É um pequeno detalhe na cronologia do processo de abstinência e que consiste em apresentar ao adicto a sua própria adicção. Essa apresentação do processo de adicção pode decorrer do próprio adicto (autoapresentação do diagnóstico adicto) ou de terceiros (heteroapresentação do diagnóstico adicto)2. A heteroapresentação é a mais comum, mas em alguns casos o próprio adicto pode reconhecer que está imerso no processo de adicção.

A diferença entre a autoapresentação e a heteroapresentação do processo de adicção é que, na autoapresentação, o adicto  autorreconhece  a  existência  da adicção e, na heteroapresentação, o adicto apenas desconfia – tem noção ou vaga ideia de que está mergulhado num processo de adicção. Existe uma  enorme diferença entre dizer para alguém que essa pessoa possui a adicção (heteroapresentação) e essa mesma pessoa reconhecer que possui a adicção (autoapresentação).

Assim, após a heteroapresentação da adicção, seu autorreconhecimento poderá levar, ainda, certo lapso temporal. Por isso, é comum  se  dizer  que  “a  ficha demora para cair”. Quanto mais precoce for realizada a autoapresentação ou a heteroapresentação do processo adicto, menores serão as  sequelas  e  mazelas geradas pela adicção. Por outro lado, quanto mais  tempo  isso  demorar,  maiores serão as sequelas deixadas pelo triste e doloroso caminho da adicção.

Note-se que a heteroapresentação do processo adicto não é uma  autêntica assunção admissão do adicto no sentido de reconhecer a existência da adicção. Essa heteroapresentação é o marco fundamental onde terceiros reconhecem a existência de um grave problema com um de seus entes. A heteroapresentação é realizada de forma a expor (exposição) a uma determinada pessoa  – adicto – que existe um processo de adicção instaurado e que ele precisa interrompê-lo de alguma forma (intervenção). Assim, a heteroapresentação realizada através de uma exposição interventiva pode ser classificada como REAL ou FALSA. Por sua vez, a autoapresentação do diagnóstico adicto será realizada através de autoexposição interventiva. Nesse ponto, é preciso compreender que  existem  três  etapas  muito bem delineadas:


(1º) exposição da adicção: que pode ocorrer pelo próprio adicto (autoexposição) ou por terceiros (heteroexposição). Como a exposição é um pedido de ajuda, será sempre interventiva. É fase externa ou exógena. A síntese dessa fase é: “eu uso drogas/álcool” ou “eu sou usuário de drogas/álcool”. Essa fase é uma declaração. Essa etapa é o Ponto “E”.

(2º) reconhecimento da adicção: se o adicto fizer a  autoexposição  de  sua adicção, estará também se autorreconhecendo como adicto e, nesse caso, a 1ª e a 2ª etapas ocorrem de forma simultânea. Porém, se ocorrer a heteroexposição, a pessoa ainda vai precisar de certo lapso temporal para se autorreconhecer  como  sendo adicta e, nessa situação, a e a etapas serão sucessivas. É fase interna  ou endógena, mas é mera percepção da adicção. A síntese dessa fase é: “eu sou dependente”, “eu sou viciado”, “eu sou adicto” ou “eu tenho adicção”.  Essa  fase  é uma intenção. Cuidado: autorreconhecer que é adicto não é a mesma coisa que aceitar ou admitir sua adicção. Essa etapa pode ocorrer no Ponto  “E”,  depois  do Ponto “E” ou, infelizmente, nunca.

()   admiso/aceitação   da   adicção:   para   os   grupos   animos   esse   é   o primeiro passo. Aqui, para a abstemiologia, esse momento ocorre quando a pessoa desiste de lutar contra a adicção e aceita sua real condição de adicto, ou seja, admite sua impotência perante o uso de drogas/álcool. Aqui, a pessoa não vai autorreconhecer  que  é  adicto,  mas  vai  admitir/aceitar  que  está  envolvida num processo de adicção. É fase endógena ou intrínseca, mas é compreensão racional de que existe um processo de adicção, de que existe um adicto e de que isso deve ser interrompido. É entendimento da real condição de adicto e do processo de adicção. A síntese dessa fase é: “eu sou adicto, eu tenho adicção e eu quero interromper esse processo”. Essa fase é uma ação. Essa etapa, em regra, ocorre muito depois do Ponto “E” ou, também infelizmente, nunca.

A seguir será feito o estudo da 1ª e 2ª etapas citadas anteriormente, ou seja, a exposição e o reconhecimento da adicção.

 

Autoexposição interventiva

O próprio adicto reconhece sua adicção perante si e perante terceiros normalmente membros de sua família nuclear – realizando  a autoapresentação  do seu diagnóstico. Nessa autoexposição interventiva, o adicto pede ajuda para  iniciar seu processo de abstinência. Essa autoexposição sempre será real, que não é possível que ela ocorra sem que o adicto deixe de expor sua adicção. Dessa forma, a autoexposição interventiva será sempre um autorreconhecimento do processo de adicção perante terceiros.

 

Exposição interventiva falsa

A exposição interventiva FALSA ocorre quando um desconhecido ou amigo  pessoa que não tem muita intimidade com o adicto instiga ou induz o adicto a pensar sobre sua adicção. Nesse caso, essa intervenção expositiva é falsa porque, embora possa fazer com que o adicto pense sobre sua adicção, não está ocorrendo de forma solene e nem pelas pessoas que farão parte do seu processo de abstinência. É muito comum que essa forma de exposição interventiva seja feita por: amigos que dizem que a pessoa é adicta, empregador que reclama do empregado porque ele não está tralhando com o mesmo desempenho de antes, prisão policial em que a pessoa é flagrada com drogas ou dirigindo embriagada –, ou acidentes de trabalho envolvendo o uso de drogas/álcool. Nesses casos, embora sejam graves, o adicto nem sempre consegue perceber que está vivendo em um universo adicto e que possui um grave problema de adicção. Por isso, como essas intervenções estão descarregadas de energia emocional e afetiva, elas podem ser consideradas como exposições interventivas falsas.

 

Exposição interventiva real

A exposição interventiva REAL é o momento em que se apresenta perante o adicto sua adicção, mas por pessoas que o adicto reconhece como sendo essenciais, fundamentais e indispensáveis em seu círculo afetivo. É quando a exposição interventiva está carregada de sentimentos e emoções. São, normalmente, muito impactantes sob o ponto de vista emocional. Esse é o momento em que as pessoas que ele conhece e ama lhe dizem: “você é adicto”. Isso pode ocorrer várias vezes durante o processo de adicção, mas somente quando as pessoas que fazem parte da vida do adicto se reúnem formalmente com ele e lhe dizem “você precisa de ajuda e nós queremos ajudá-lo” é que existe a real exposição interventiva. Existem casos onde a família nuclear nunca reconheceu a existência de um processo de adicção entre seus membros, o que faz com que o adicto fique sob as sombras da adicção por longos períodos.

Essa real exposição interventiva tem outra característica interessante, dado que as pessoas que “expõem” ao adicto seu processo de adicção farão parte, também, do seu processo de abstinência.

Nessa exposição interventiva, quando a família nuclear expõe a realidade do processo de adicção ao seu membro adicto, ela, simultaneamente, também expõe essa realidade perante os demais familiares. Ela tem, portanto, dupla função expositiva: anunciar ao adicto que ele está envolto em uma adicção e, também, mostrar aos demais membros familiares que está sendo tomada uma medida para resolver essa questão. De fato, na exposição interventiva real, as “cartas serão postas na mesa”.

Todas  as  formas  de  exposições  interventivas   real,  falsa  ou autoexposição    NÃO  fazem  parte,  no  sentido  mais  tecnicista,  do  processo de abstinência, mas fazem parte de um momento  anterior,  quando  se reconhece  a  existência  de  um  adicto  e  que  ele  está  envolto  em   um processo de adicção. Por isso, tais exposições que constituem formas de apresentação do processo de adicção ao adicto são, na verdade, a ANTESSALA do processo de abstinência. Para iniciar a jornada abstêmia, a pessoa precisará, muito antes, reconhecer a existência de um processo adicto, e isso ocorrerá através da autoapresentação ou heteroapresentação do processo de adicção.

Deste modo,  a  antessala  do  processo  de  abstinência  consiste  em  apresentar o processo de adicção perante si e perante terceiros. Esse é o reconhecimento da adicção e,  a partir  daí, se  iniciará  a prática  de atos para superar  o modelo  adicto que  foi  criado.  Esse  momento  na  escada  abstêmia,  por  se  referir  à  exposição

interventiva, é entendido como sendo Ponto “E”.

 

TRIPLO EFEITO DA EXPOSIÇÃO INTERVENTIVA

Em qualquer uma das formas de exposição interventiva vistas anteriormente falsa, real ou autoexposição ocorrerão três efeitos  imediatos.  Esses  efeitos decorrem das respostas às seguintes questões: Existe  um  processo  de  adicção? Quem é  o  adicto?  O que vamos fazer? As  respostas dessas  indagações identificarão “o que”, “quem” e “como”. Não se precisa identificar nenhum “porquê”, já que não interessa muito o motivo pelo qual se iniciou o processo de adicção, o que importa é como será solucionado o problema. Não se  precisa  procurar  culpados,  mas  se precisa encontrar a solução.

O   primeiro   efeito   consiste   em    RECONHECER    OU AUTORRECONHECER a existência de um processo de adicção. Se houver o autorreconhecimento, o processo estará um pouco mais adiantado do  que  se houver apenas o reconhecimento da adicção pelos terceiros, e não  pelo  próprio adicto. Assim, reconhecer ou autorreconhecer a adicção enseja um diagnóstico consciencial que determina a existência do  “ser  adicto”,  ou  seja,  do  HOMO ADDICTO. Dessa maneira, o Ponto “E” representa o reconhecimento ou autorreconhecimento do HOMO ADDICTO que    existe,  efetivamente,  desde  o Ponto “A”. Portanto, o Ponto “E” serve para constatar, na  escada  abstêmia,  a existência do HOMO ADDICTO.

O segundo efeito é IDENTIFICAR “quem” está passando pelo processo de adicção, ou seja, quem é ou são os adictos envolvidos.

O terceiro efeito é muito mais prático, posto que, após a  exposição interventiva, os atores envolvidos começarão a procurar soluções para o processo de adicção, ou seja, “como” TENTAR SANAR o problema.

Esse triplo efeito da exposição interventiva  pode  ser  descrito  na fórmula: RECONHECER IDENTIFICAR    SANAR.  É para gerar esses  efeitos que existem as diversas formas de exposições interventivas.

Para concluir, é na ANTESSALA do processo de abstinência que se reconhece, se identifica e se tenta sanar o processo de adicção. Agora, somente após saber qual é o problema e quem está afetado, poderemos começar a discutir quais serão as possíveis soluções.

 

QUESTÃO DA REINTERVENÇÃO

A reintervenção ocorre quando houver uma recaída e a  própria  pessoa,  sua família, seus cuidadores ou terceiros tiverem que fazer uma nova intervenção. Toda recaída gera a necessidade de uma nova intervenção, que também pode decorrer de terceiros (heterorreexposição interventiva) ou do próprio recaído (autorreexposição interventiva). O processo é muito semelhante à  primeira  intervenção  e  se desenvolve com a mesma sistemática. O detalhe que deve ser destacado é o de que, a cada reintervenção, os desgastes serão maiores. A cada reintervenção, os relacionamentos afetivos se desgastam, a falta de segurança emocional domina os envolvidos e a sensação de fracasso aumenta. O fracasso individual na tentativa de se recuperar parece ser um fracasso coletivo que envolve todos os terceiros (familiares,    cuidadores    e    terapeutas).    Muitas    vezes    a    reintervenção    gera reinternamento, mas também pode provocar outras situações, como reavaliações clínicas, mudanças de médicos, alteração de cuidadores, rompimentos de laços familiares e discussão sobre “culpas”. De fato, o mais comum, e que ocorre na esmagadora maioria dos casos, é a existência de uma intervenção e, depois, sucessivas reintervenções.


1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª  ed.  Curitiba/PR:  Edição  do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

2 Esses temas também estão apresentados no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN,  Péricles Princípios  abstemiogicos 1ª  ed.  Curitiba/PR Ediçã do autor, 2019. 165 p.; 14 X 21 cm. ISBN 978-85-924432-1-4. Distribuído pela Editora Simplíssimo.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

BUNKER DE ALVÍSSARAS SUSPEITAS

  12.02.2011. Nada que fale além do murmúrio das pedras que estalam no calor que as dilatam entre terrinhas e espinhos que crescem no escald...