RELAÇÕES INTERSUBJETIVAS DA ESCADA ABSTÊMIA1
Como se pode observar, a escada
abstêmia possui uma ordem de gradação que pode ser crescente e ascendente
(parte positiva – período de abstinência) ou decrescente e descendente (parte
negativa – período de adicção). Enquanto o processo de adicção corresponde a
uma linha descendente, o processo abstêmio corresponde a um caminho ascendente.
O processo de recaída, por outro lado,
pode ser analisado como a inversão (ponto de deflexão) que ocorre na linha
ascendente, fazendo com que o abstêmio seja reconduzido ao universo adicto2. Esses fenômenos são compreendidos como gradações abstêmias. Nesse primeiro momento, para fins didáticos, a
escada abstêmia será apresentada com foco nessas gradações abstêmias. No decorrer do estudo, a escada abstêmia será
esmiuçada e detalhada com mais profundidade.
![]()
Como as duas gradações de usuários – usuário positivo e usuário
negativo – e a categoria de adicto
se relacionam com drogas/álcool, existirá, nesses casos, uma relação
subjetivo-objetiva. Esse modelo de relação refere-se à pessoa e ao objeto
de desejo, ou seja, é a correlação entre o drogadito/adicto e o consumo de
drogas/álcool. Assim, os usuários (mero usuário ou usuário abusivo) e adictos
são pessoas que se relacionam diretamente com o objeto drogas/álcool.
Contudo, as graduações de abstêmios
(abstêmio mínimo, abstemenor, abstemaior, abstemaior real e mega-abstêmio) não se relacionam com drogas/álcool.
Por isso, os abstêmios se baseiam numa relação
subjetivo-dinâmica ou relação
subjetivo- cronológica. Esse modelo de relação refere-se à pessoa e ao seu
próprio lapso abstêmio (tempo de abstinência). Dessa maneira, o abstêmio é, por
natureza, uma pessoa que está sem usar drogas/álcool a certo período
cronológico.
Assim, é possível compreender que o processo de adicção possui,
primordialmente, relação subjetivo-objetiva. Por seu turno, o processo abstêmio
se desenvolve com relações subjetivo-dinâmicas.
Essas relações podem ser sintetizadas
em um quadro que demonstra a gradação da pessoa durante o período de drogadição
e o período de abstinência. Como a gradação entre usuários (mero usuário ou
usuário abusivo) e adicto corresponde
a um degrau para baixo, já que o adicto está num patamar inferior na escada
abstêmia, pode-se afirmar que o
adicto foi “degradado”. A degradação do adicto é o nível mais
baixo da escada abstêmia e pode ocorrer de duas formas: tanto na degradação do
usuário abusivo quanto na recondução ao processo adicto de alguém que estava em
abstinência.3
Após o processo de adicção, iniciam-se
as gradações abstêmias. A primeira gradação abstêmia não pode corresponder ao
mesmo nível da gradação adicta e nem da gradação de qualquer outro usuário, já
que o abstêmio não pode se relacionar com drogas/álcool. Dessa forma, o
primeiro degrau abstêmio deve ser mais elevado do que o nível do degrau de mero
usuário. Por isso o primeiro passo para ser abstêmio é tão alto e difícil, uma
vez que exige a superação da (de)gradação adicta e, simultaneamente, a de
usuário abusivo e a de mero usuário.
Por fim, além das gradações (estudo dos degraus da escada abstêmia), existem delays e pontos abstêmios. Como será visto adiante, os delays são os intervalos que precisam ser preenchidos para se alcançar a gradação superior (v.g., desintoxicação). Os pontos abstêmios, por sua vez, são as intersecções que ocorrem nos momentos de maior relevância na jornada da abstinência, podendo ser ponto abstêmio técnico (v.g., ponto “R”), ponto abstêmio consciencial (v.g., ponto “E” ou ponto “X”) ou ponto abstêmio cronológico (v.g., ponto “R+2” ou “R+3” ou ponto “Z”). Em suma, a escada abstêmia possui gradações (degraus), delays (intervalos) e pontos abstêmios (momentos relevantes).
![]()
A desintoxicação, do ponto de vista
abstemiológico, dentro do itinerário abstêmio, representa somente um dos
diversos delays. Contudo, é o delay que separa a pessoa intoxicada
pelo uso de drogas/álcool da tão almejada abstinência.
Delay do período de desintoxicação
O estudo da desintoxicação pode ser
compreendido como inserido em uma área mista, ou seja, ora está na adictologia,
ora está na abstemiologia. Por outro lado, o estudo da prevenção de recaída
deveria ser deslocado da adictologia para a abstemiologia, porque não é
coerente estudar prevenção de recaída através da visão do processo de adicção. De fato, seria muito mais técnico analisar
a prevenção de recaída
O delay
da desintoxicação, no viés abstemiológico, representa a diferença de tempo
entre a intoxicação física e a desintoxicação física. Utiliza-se a expressão desintoxicação física porque a
desintoxicação psicológica pode demorar muito tempo para ocorrer e, em alguns casos, pode não acontecer. A
desintoxicação física é a eliminação da droga/álcool do corpo humano
através de um tratamento que visa livrar
o organismo dos efeitos gerados por essas toxinas.
Por sua vez, a desintoxicação psicológica representa algo muito mais sutil, uma
vez que constitui a eliminação da vontade de usar drogas/álcool. Assim, eliminar a intoxicação provocada pela
ingestão de droga/álcool (desintoxicação física) difere da eliminação da vontade de usar drogas/álcool (desintoxicação
psicológica).
O delay
da desintoxicação física depende de cada situação em concreto e das
recomendações médicas/clínicas. Em outras palavras, quem dita o intervalo de
tempo necessário para a desintoxicação física são os médicos. Em regra, a
desintoxicação física deve ser
acompanhada por profissionais médicos devidamente habilitados e conforme os
protocolos clínicos ou diretrizes terapêuticas. Todavia, na prática, nem sempre
é isso que ocorre. Infelizmente, a fase de desintoxicação é realizada sem
acompanhamento técnico e, muitas vezes, sem utilização de técnicas ou
medicamentos adequados. Isso é perigoso, porque pode resultar no agravamento de
comorbidades ou até mesmo em ausência de diagnóstico adequado.4
Desintoxicação relativa
ou absoluta
A desintoxicação no sentido de neutralização da intoxicação produzida pelo consumo de
drogas/álcool pode ser relativa (parcial) ou absoluta (total). A desintoxicação
total pode ocorrer na parte física do corpo humano. Entretanto, a
desintoxicação mental ou cognitiva sempre será parcial.
É comum que abstêmios de longa data
ainda tenham fissuras ao visualizarem outra pessoa ingerindo drogas/álcool ou ao sentirem
o odor característico da sua droga de
![]()
Duplo efeito imediato
da internação
O duplo efeito imediato da internação é
iniciar a desintoxicação orgânica do
adicto e, simultaneamente, a cessação da
periculosidade que o uso prolongado de drogas/álcool causava. Ao usar
drogas/álcool, o adicto coloca-se em situação de extrema periculosidade
e fica suscetível a inúmeras formas
de violência, como violência
física, surtos psicóticos, prisão ou morte.
Deste modo, a internação com seu duplo efeito é fundamental para
permitir um pequeno lampejo de lucidez
abstêmia (v.g., insight de 1º grau) capaz de fazer com que o abstêmio assuma a responsabilidade por
seus atos. O internamento não é a
solução, mas pode fazer parte da solução. Como dito antes, a desintoxicação
física e a cessação da periculosidade
são dois efeitos imediatos gerados pela internação. Contudo, existem efeitos mediatos nos quais a internação
pode auxiliar, como, por exemplo: socialização, estabilização de comorbidades,
facilitação de diagnóstico, reequilíbrio dos neurotransmissores, reorganização
cognitiva e restabelecimento do asseio.
Por fim, cabe ressaltar que existem, atualmente, no Brasil, três formas de
![]()
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
2 O processo de recaída representa um ponto de deflexão no itinerário abstêmio, posto que altera a ordem natural da jornada da abstinência de modo a reconduzir a pessoa ao universo da drogadição e, nas piores situações, constitui um retorno à adicção.
3 Via de regra, isso ocorre através do processo de recaída. Destaque-se que existem pessoas em permanente DESVIO ABSTÊMIO e, inclusive nesses casos, teremos um processo de recaída.
4 Em que pese o fato de muitas comunidades terapêuticas (CTs) não disporem de médicos em seus quadros funcionais, atualmente existem vários convênios (informais) firmados entre as CTs e o poder público, para que os pacientes (internos) sejam conduzidos até postos de saúde e recebam atendimento médico. Inclusive, o assistente social JOSÉ PLÍNIO DO AMARAL ALMEIDA advoga a tese de que podem existir CTs híbridas, ou seja, comunidades terapêuticas que possuam em seus quadros funcionais psicólogos, médicos ou enfermeiros e, mesmo assim, não optem por converter sua natureza jurídica para clínicas de tratamento propriamente ditas. De fato, legalmente, nada obsta que as CTs contratem profissionais habilitados e optem, por não preencherem outros requisitos técnicos, a manterem-se na condição de comunidades.
5 Inclusive, acompanham o abstêmio, durante toda sua jornada, dois efeitos interessantes: o efeito repristinatório e o efeito lag. O efeito repristinatório indica que a adicção possui um efeito intrínseco ao seu estado irracional, que consiste em fazer com que a pessoa possa voltar ao processo de adicção no exato momento de reuso das drogas/álcool. Esse retorno à adicção ocorre durante a reintoxicação física (última etapa da recaída). Ao que tudo indica, o efeito de repristinar ao estado adicto acompanhará o abstêmio durante toda sua vida. Por óbvio, quanto maior for o tempo de abstinência, menor será a intensidade do efeito repristinatório. De outra banda, o efeito lag (efeito latency at game) corresponde ao período de latência do processo de adicção que permanece no abstêmio durante todo o processo de abstinência. Em outras palavras, o processo de adicção tem seu fim no ponto “F” (que corresponde ao óbito ou abstinência), porém esse marco final da adicção é apenas aparente, porque existe um elemento de latência inerente à adicção e que permanece por todo o processo abstêmio.
6 A “tolerância” é a necessidade de aumentar a quantidade do uso de drogas/álcool para que seja possível sentir o mesmo efeito anterior. Os adictos possuem uma “tolerância” muito elevada, já que precisam aumentar gradativamente a quantidade de drogas/álcool para que possam sentir os efeitos que elas produzem. Contudo, no auge da adicção e nos casos mais graves, ocorre uma “sensibilização”, visto que basta a ingestão de uma pequena dose de droga/álcool para que o adicto sinta fortes efeitos. Isso ocorre porque o organismo do adicto fica extremamente debilitado com o passar dos anos de drogadição e com o agravamento das comorbidades.
![]()
Nenhum comentário:
Postar um comentário