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terça-feira, 5 de novembro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 34/35 - Relações Intersubjetivas da Escada Abstêmia

 

RELAÇÕES INTERSUBJETIVAS DA ESCADA ABSTÊMIA1

 

 

Como se pode observar, a escada abstêmia possui uma ordem de gradação que pode ser crescente e ascendente (parte positiva – período de abstinência) ou decrescente e descendente (parte negativa – período de adicção). Enquanto o processo de adicção corresponde a uma linha descendente, o processo abstêmio corresponde a um caminho ascendente.

O processo de recaída, por outro lado, pode ser analisado como a inversão (ponto de deflexão) que ocorre na linha ascendente, fazendo com que o abstêmio seja reconduzido ao universo adicto2. Esses fenômenos são compreendidos como gradações abstêmias. Nesse primeiro momento, para fins didáticos, a escada abstêmia será apresentada com foco nessas gradações abstêmias. No decorrer do estudo, a escada abstêmia será esmiuçada e detalhada com mais profundidade.


Como as duas gradações de usuários – usuário positivo e usuário negativo – e a categoria de adicto se relacionam com drogas/álcool, existirá, nesses casos, uma relação subjetivo-objetiva. Esse modelo de relação refere-se à pessoa e ao objeto de desejo, ou seja, é a correlação entre o drogadito/adicto e o consumo de drogas/álcool. Assim, os usuários (mero usuário ou usuário abusivo) e adictos são pessoas que se relacionam diretamente com o objeto drogas/álcool.


Contudo, as graduações de abstêmios (abstêmio mínimo, abstemenor, abstemaior, abstemaior real e mega-abstêmio) não se relacionam com drogas/álcool. Por isso, os abstêmios se baseiam numa relação subjetivo-dinâmica ou relação subjetivo- cronológica. Esse modelo de relação refere-se à pessoa e ao seu próprio lapso abstêmio (tempo de abstinência). Dessa maneira, o abstêmio é, por natureza, uma pessoa que está sem usar drogas/álcool a certo período cronológico.

Assim, é possível compreender que o processo de adicção possui, primordialmente, relação subjetivo-objetiva. Por seu turno, o processo abstêmio se desenvolve com relações subjetivo-dinâmicas.

Essas relações podem ser sintetizadas em um quadro que demonstra a gradação da pessoa durante o período de drogadição e o período de abstinência. Como a gradação entre usuários (mero usuário ou usuário abusivo) e adicto corresponde a um degrau para baixo, já que o adicto está num patamar inferior na escada abstêmia, pode-se afirmar que o adicto foi “degradado”. A degradação do adicto é o nível mais baixo da escada abstêmia e pode ocorrer de duas formas: tanto na degradação do usuário abusivo quanto na recondução ao processo adicto de alguém que estava em abstinência.3

Após o processo de adicção, iniciam-se as gradações abstêmias. A primeira gradação abstêmia não pode corresponder ao mesmo nível da gradação adicta e nem da gradação de qualquer outro usuário, já que o abstêmio não pode se relacionar com drogas/álcool. Dessa forma, o primeiro degrau abstêmio deve ser mais elevado do que o nível do degrau de mero usuário. Por isso o primeiro passo para ser abstêmio é tão alto e difícil, uma vez que exige a superação da (de)gradação adicta e, simultaneamente, a de usuário abusivo e a de mero usuário.

Por fim, além das gradações (estudo dos degraus da escada abstêmia), existem delays e pontos abstêmios. Como será visto adiante, os delays são os intervalos que precisam ser preenchidos para se alcançar a gradação superior (v.g., desintoxicação). Os pontos abstêmios, por sua vez, são as intersecções que ocorrem nos momentos de maior relevância na jornada da abstinência, podendo ser ponto abstêmio técnico (v.g., ponto “R”), ponto abstêmio consciencial (v.g., ponto “E” ou ponto “X”) ou ponto abstêmio cronológico (v.g., ponto “R+2” ou “R+3” ou ponto “Z”). Em suma, a escada abstêmia possui gradações (degraus), delays (intervalos) e pontos abstêmios (momentos relevantes).



A desintoxicação, do ponto de vista abstemiológico, dentro do itinerário abstêmio, representa somente um dos diversos delays. Contudo, é o delay que separa a pessoa intoxicada pelo uso de drogas/álcool da tão almejada abstinência.

 

Delay do período de desintoxicação

 

O estudo da desintoxicação pode ser compreendido como inserido em uma área mista, ou seja, ora está na adictologia, ora está na abstemiologia. Por outro lado, o estudo da prevenção de recaída deveria ser deslocado da adictologia para a abstemiologia, porque não é coerente estudar prevenção de recaída através da visão do processo de adicção. De fato, seria muito mais técnico analisar a prevenção de recaída pelo foco da abstemiologia.

 

O delay da desintoxicação, no viés abstemiológico, representa a diferença de tempo entre a intoxicação física e a desintoxicação física. Utiliza-se a expressão desintoxicação física porque a desintoxicação psicológica pode demorar muito tempo para ocorrer e, em alguns casos, pode não acontecer. A desintoxicação física é a eliminação da droga/álcool do corpo humano através de um tratamento que visa livrar o organismo dos efeitos gerados por essas toxinas. Por sua vez, a desintoxicação psicológica representa algo muito mais sutil, uma vez que constitui a eliminação da vontade de usar drogas/álcool. Assim, eliminar a intoxicação provocada pela ingestão de droga/álcool (desintoxicação física) difere da eliminação da vontade de usar drogas/álcool (desintoxicação psicológica).

O delay da desintoxicação física depende de cada situação em concreto e das recomendações médicas/clínicas. Em outras palavras, quem dita o intervalo de tempo necessário para a desintoxicação física são os médicos. Em regra, a desintoxicação física deve ser acompanhada por profissionais médicos devidamente habilitados e conforme os protocolos clínicos ou diretrizes terapêuticas. Todavia, na prática, nem sempre é isso que ocorre. Infelizmente, a fase de desintoxicação é realizada sem acompanhamento técnico e, muitas vezes, sem utilização de técnicas ou medicamentos adequados. Isso é perigoso, porque pode resultar no agravamento de comorbidades ou até mesmo em ausência de diagnóstico adequado.4

 

Desintoxicação relativa ou absoluta

A desintoxicação no sentido de neutralização da intoxicação produzida pelo consumo de drogas/álcool pode ser relativa (parcial) ou absoluta (total). A desintoxicação total pode ocorrer na parte física do corpo humano. Entretanto, a desintoxicação mental ou cognitiva sempre será parcial.

É comum que abstêmios de longa data ainda tenham fissuras ao visualizarem outra pessoa ingerindo drogas/álcool ou ao sentirem o odor característico da sua droga de eleição. Assim, embora a medicina consiga fazer a eliminação de drogas/álcool do corpo humano, a questão psicológica subjacente permanecerá latente, ou seja, a adicção terá seus efeitos reduzidos, mas nunca completamente inibidos5. Portanto, a desintoxicação física é possível, mas a desintoxicação consciencial é muito mais complexa. Por óbvio, quanto mais tempo a pessoa estiver inserida no universo adicto, e quanto maior for a sua tolerância6, mais difícil será sua desintoxicação.



Duplo efeito imediato da internação

O duplo efeito imediato da internação é iniciar a desintoxicação orgânica do adicto e, simultaneamente, a cessação da periculosidade que o uso prolongado de drogas/álcool causava. Ao usar drogas/álcool, o adicto coloca-se em situação de extrema periculosidade e fica suscetível a inúmeras formas de violência, como violência física, surtos psicóticos, prisão ou morte.

Deste modo, a internação com seu duplo efeito é fundamental para permitir um pequeno lampejo de lucidez abstêmia (v.g., insight de 1º grau) capaz de fazer com que o abstêmio assuma a responsabilidade por seus atos. O internamento não é a solução, mas pode fazer parte da solução. Como dito antes, a desintoxicação física e a cessação da periculosidade são dois efeitos imediatos gerados pela internação. Contudo, existem efeitos mediatos nos quais a internação pode auxiliar, como, por exemplo: socialização, estabilização de comorbidades, facilitação de diagnóstico, reequilíbrio dos neurotransmissores, reorganização cognitiva e restabelecimento do asseio.

Por fim, cabe ressaltar que existem,  atualmente, no Brasil,  três formas de internamentos: compulsório, involuntário e voluntário.7



 

 1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS       ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

2 O processo de recaída representa um ponto de deflexão no itinerário abstêmio, posto que altera a ordem natural da jornada da abstinência de modo a reconduzir a pessoa ao universo da drogadição e, nas piores situações, constitui um retorno à adicção.

3 Via de regra, isso ocorre através do processo de recaída. Destaque-se que existem pessoas em permanente DESVIO ABSTÊMIO e, inclusive nesses casos, teremos um processo de recaída.

4 Em que pese o fato de muitas comunidades terapêuticas (CTs) não disporem de médicos em seus quadros funcionais, atualmente existem vários convênios (informais) firmados entre as CTs e o poder público, para que os pacientes (internos) sejam conduzidos até postos de saúde e recebam atendimento médico. Inclusive, o assistente social JOSÉ PLÍNIO DO AMARAL ALMEIDA advoga a tese de que podem existir CTs híbridas, ou seja, comunidades terapêuticas que possuam em seus quadros funcionais psicólogos, médicos ou enfermeiros e, mesmo assim, não optem por converter sua natureza jurídica para clínicas de tratamento propriamente ditas. De fato, legalmente, nada obsta que as CTs contratem profissionais habilitados e optem, por não preencherem outros requisitos técnicos, a manterem-se na condição de comunidades.

5 Inclusive, acompanham o abstêmio, durante toda sua jornada, dois efeitos interessantes: o efeito repristinatório e o efeito lag. O efeito repristinatório indica que a adicção possui um efeito intrínseco ao seu estado irracional, que consiste em fazer com que a pessoa possa voltar ao processo de adicção no exato momento de reuso das drogas/álcool. Esse retorno à adicção ocorre durante a reintoxicação física (última etapa da recaída). Ao que tudo indica, o efeito de repristinar ao estado adicto acompanhará o abstêmio durante toda sua vida. Por óbvio, quanto maior for o tempo de abstinência, menor será a intensidade do efeito repristinatório. De outra banda, o efeito lag (efeito latency at game) corresponde ao período de latência do processo de adicção que permanece no abstêmio durante todo o processo de abstinência. Em outras palavras, o processo de adicção tem seu fim no ponto “F” (que corresponde ao óbito ou abstinência), porém esse marco final da adicção é apenas aparente, porque existe um elemento de latência inerente à adicção e que permanece por todo o processo abstêmio.

6 A “tolerância” é a necessidade de aumentar a quantidade do uso de drogas/álcool para que seja possível sentir o mesmo efeito anterior. Os adictos possuem uma “tolerância” muito elevada, já que precisam aumentar gradativamente a quantidade de drogas/álcool para que possam sentir os efeitos que elas produzem. Contudo, no auge da adicção e nos casos mais graves, ocorre uma “sensibilização”, visto que basta a ingestão de uma pequena dose de droga/álcool para que o adicto sinta fortes efeitos. Isso ocorre porque o organismo do adicto fica extremamente debilitado com o passar dos anos de drogadição e com o agravamento das comorbidades.




(Péricles Ziemmermann)

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