PEQUENO
TRATADO SOBRE O AMBIENTE DOMÉSTICO E SUAS INFLUÊNCIAS NO APARELHO PSÍQUICO DAS
CRIANÇAS
Marcelo Braga –
formando em Psicologia, analista junguiano, pós-graduando em Psicologia
Analítica e especialista em Abstemiologia. Tel: (21) 989046340
Não pretendo focar nos transtornos
psíquicos, porque os mesmos são conteúdos técnico/científicos que envolvem
muitas nuances. Vamos focar nas questões de formação da personalidade, família,
as necessidades das famílias, conflitos, conflitos da alma, mundo inconsciente
e aspectos educacionais.
Em primeiro plano seria interessante
desmitificar o senso comum de “mulheres guerreiras” – a sociedade acaba dizendo
veladamente: “Já que essas mulheres são guerreiras, elas não precisam de nada,
de nenhum apoio, de nenhuma assistência; são dotadas de poderes
estratosféricos, foram abençoadas por Deus, têm um poder extraordinário para
cuidar dessas crianças, gerenciar a casa, marido, trabalho etc.” Essas mulheres
são mulheres como outras quaisquer – e precisam fazer o papel de “mulher
guerreira” quando a sociedade não faz a sua parte. Mulheres valentes que
cuidam de seus filhos como quaisquer outras mães, são também valentes as mães
de crianças neuroatípicas...
A Psicologia é uma ciência que tem uma visão
poliédrica (de observação dos fenômenos) entre suas várias abordagens, nas
questões do desenvolvimento humano, comportamento humano e modelos
educacionais.
Carl Jung não era filósofo nem metafísico,
sim um cientista empírico. O escopo e a razão de sua Psicologia ser mais
profunda é por sua dupla natureza: médica e pedagógica.
A Psicologia Analítica, diferente de alguns
enfoques de outras “psicologias”, faz um profundo mergulho no estudo do
inconsciente e descobre ali, seguindo um modelo de observações empíricas (baseado
na experiência e na observação, metódicas ou não) o consciente, como uma ínfima
parte de nosso aparelho psíquico total (Self). Nesse mergulho profundo,
considera nosso inconsciente em duas faces: pessoal e coletivo.
As características pessoais do inconsciente referem-se
a todo o material inconsciente adquirido durante a vida de um indivíduo. Esse
material inclui: o esquecido, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado
e sentido e os complexos adquiridos.
As características coletivas do inconsciente
referem-se a um conjunto de imagens latentes, chamadas arquétipos, que são
transmitidas de geração em geração. Estruturas ou padrões de comportamento que
fazem parte da natureza humana universal cuja função é estimular o
comportamento pessoal, predispondo a pessoa a reagir ao mundo de uma forma
orgânica e instintiva. O inconsciente coletivo é uma camada mais profunda da
psique, que não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais. Por
exemplo, o medo de determinados animais ou do escuro é um medo herdado de
experiências vivenciadas por nossos antepassados.
Para Jung, a criança vive ainda em um mundo
pré-racional e sobretudo pré-científico, naquele mundo em que se encontrava a
humanidade que nos precedeu. É daquele mundo que provém as nossas raízes, e a
partir dessas raízes evolui cada criança.
A Psicologia de Carl Jung também teve seu
olhar voltado para compreender, orientar e acolher pacientes com questões
relacionadas às crianças em suas fases de desenvolvimento, com um foco direcionado
à atitude psíquica dos pais, às questões genéticas, estruturas comportamentais
herdadas e à atmosfera do ambiente onde se dá a criação dos pequenos.
Não causa espanto perceber que, a maioria
das perturbações nervosas verificadas na infância, deva sua origem a algo de
perturbado na atmosfera psíquica dos pais. No entanto percebe que a
responsabilidade dos pais se estende até onde eles têm o poder de ordenar a
própria vida de tal maneira que ela não represente nenhum dano para os filhos.
Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os
pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por
isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em
determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de
seus filhos.
Dificuldades no relacionamento dos pais
entre si se refletem infalivelmente na psique da criança, podendo produzir nela
perturbações até mesmo doentias.
Não é importante que os pais nunca cometam
erros – isso seria impossível para seres humanos – mas que os reconheçam como
erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência.
Pelo pressuposto do inconsciente coletivo,
seria possível estabelecer a tese de que os verdadeiros geradores das crianças
não são seus pais, mas muito mais seus avós e bisavós, enfim toda a sua árvore
genealógica. É essa ascendência genealógica que determina a individualidade da
criança de maneira mais eficiente do que propriamente os pais imediatos.
Cada indivíduo constitui uma combinação nova
e única de elementos psíquicos. Cada caso é individual, não pode ser derivado
de formas genéricas e pressupostas. Cada indivíduo é um novo experimento da
vida em sua mudança contínua e uma tentativa de nova solução e nova adaptação.
Nos primeiros anos de vida quase não se
verifica consciência alguma, apesar de que já muito cedo seja evidente a
existência de processos psíquicos. Mas esses processos não estão relacionados a
nenhum “eu”, não tem um centro e por isso carecem de continuidade, sem a qual é
impossível a consciência. Provém daí o fato da criança também não ter memória
no sentido usual, apesar da plasticidade e receptividade para as impressões, de
que está dotado seu órgão psíquico.
Durante os primeiros anos de vida percebe-se
claramente na criança como a consciência se vai formando por um agrupamento
gradual de fragmentos. Esse processo não cessa no decurso da vida inteira.
Pela educação e formação das crianças
procuramos auxiliar este processo de desenvolvimento. A escola é apena um meio
que procura apoiar de modo apropriado o processo de formação da consciência.
Também seria interessante um olhar além dos
transtornos neurológicos, para uma condição mais comum do que se imagina: o Puer Aeternus, um conceito da Psicologia Analítica
sobre a “Eterna Criança”. Por ser um tema deveras extenso, trago para
finalizar, esse pequeno texto:
Uma ruptura em um
equilíbrio crítico da natureza humana é exatamente o que aconteceu. Vivemos na
época do pai ausente, e muitos sofrem muito como resultado. Espera-se que os
jovens deixem o conforto do lar, superem o complexo materno e esculpam uma vida
que vale a pena ser vivida sem o apoio psicológico de um pai. É de admirar que
o problema do puer aeternus seja tão proeminente em nossos dias?
Mas os efeitos de
um pai ausente são agravados pelo impacto que essa situação tem sobre a mãe.
Pois produz uma situação em que, em primeiro lugar, a mãe tende a se tornar
mais autoritária na paternidade para compensar a falta de uma figura masculina
na vida da criança. E, segundo, um fracasso por parte do pai em fornecer amor e
apoio à mãe cria nela uma fome emocional que ela tenta saciar através do
relacionamento com o filho. Essa situação cria a tempestade perfeita em que a
mãe se torna o que os junguianos chamam de “mãe devoradora”. Ela superprotege e
sufoca seu filho e se envolve em todos os aspectos de sua vida. Geralmente,
essa mãe, apesar de ter as melhores intenções, manipula inconscientemente seu
filho para permanecer dependente dele até a idade adulta.
Uma criança criada
dessa maneira e, portanto, que nunca teve a oportunidade de se aventurar por
conta própria, de se defender, de fracassar e consertar seus próprios erros, ou
de tomar decisões por si mesma, se transformará em um adulto aleijado em sua capacidade
de suportar e superar os inevitáveis desafios e lutas da vida.
Fontes:
·
Neurocientista Paulo
Liberalesso
·
Google
·
“O Desenvolvimento da
Personalidade” Obra Completa de Carl Gustav Jung – volume 17
·
Introdução à obra de
Frances G. Wickes “Análise da Alma Infantil”
·
A Importância da
Psicologia Analítica para a Educação – conferência de Carl Jung pronunciada no
Congresso Internacional para Educação em
Territet-Montreux, 1923.
·
Psicologia Analítica e
Educação – três Conferências, proferidas no Congresso Internacional de Educação
em Londres, 1924.
·
https://www.pensarcontemporaneo.com/carl-jung-e-a-psicologia-do-homem-crianca
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