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sábado, 19 de outubro de 2024

PEQUENO TRATADO SOBRE O AMBIENTE DOMÉSTICO E SUAS INFLUÊNCIAS NO APARELHO PSÍQUICO DAS CRIANÇAS

 

PEQUENO TRATADO SOBRE O AMBIENTE DOMÉSTICO E SUAS INFLUÊNCIAS NO APARELHO PSÍQUICO DAS CRIANÇAS

 

Marcelo Braga – formando em Psicologia, analista junguiano, pós-graduando em Psicologia Analítica e especialista em Abstemiologia. Tel: (21) 989046340

 

   Não pretendo focar nos transtornos psíquicos, porque os mesmos são conteúdos técnico/científicos que envolvem muitas nuances. Vamos focar nas questões de formação da personalidade, família, as necessidades das famílias, conflitos, conflitos da alma, mundo inconsciente e aspectos educacionais.

   Em primeiro plano seria interessante desmitificar o senso comum de “mulheres guerreiras” – a sociedade acaba dizendo veladamente: “Já que essas mulheres são guerreiras, elas não precisam de nada, de nenhum apoio, de nenhuma assistência; são dotadas de poderes estratosféricos, foram abençoadas por Deus, têm um poder extraordinário para cuidar dessas crianças, gerenciar a casa, marido, trabalho etc.” Essas mulheres são mulheres como outras quaisquer – e precisam fazer o papel de “mulher guerreira” quando a sociedade não faz a sua parte. Mulheres valentes que cuidam de seus filhos como quaisquer outras mães, são também valentes as mães de crianças neuroatípicas...

   A Psicologia é uma ciência que tem uma visão poliédrica (de observação dos fenômenos) entre suas várias abordagens, nas questões do desenvolvimento humano, comportamento humano e modelos educacionais.

   Carl Jung não era filósofo nem metafísico, sim um cientista empírico. O escopo e a razão de sua Psicologia ser mais profunda é por sua dupla natureza: médica e pedagógica.

   A Psicologia Analítica, diferente de alguns enfoques de outras “psicologias”, faz um profundo mergulho no estudo do inconsciente e descobre ali, seguindo um modelo de observações empíricas (baseado na experiência e na observação, metódicas ou não) o consciente, como uma ínfima parte de nosso aparelho psíquico total (Self). Nesse mergulho profundo, considera nosso inconsciente em duas faces: pessoal e coletivo.

   As características pessoais do inconsciente referem-se a todo o material inconsciente adquirido durante a vida de um indivíduo. Esse material inclui: o esquecido, o reprimido, o subliminarmente percebido, pensado e sentido e os complexos adquiridos.

   As características coletivas do inconsciente referem-se a um conjunto de imagens latentes, chamadas arquétipos, que são transmitidas de geração em geração. Estruturas ou padrões de comportamento que fazem parte da natureza humana universal cuja função é estimular o comportamento pessoal, predispondo a pessoa a reagir ao mundo de uma forma orgânica e instintiva. O inconsciente coletivo é uma camada mais profunda da psique, que não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais. Por exemplo, o medo de determinados animais ou do escuro é um medo herdado de experiências vivenciadas por nossos antepassados.

   Para Jung, a criança vive ainda em um mundo pré-racional e sobretudo pré-científico, naquele mundo em que se encontrava a humanidade que nos precedeu. É daquele mundo que provém as nossas raízes, e a partir dessas raízes evolui cada criança.

   A Psicologia de Carl Jung também teve seu olhar voltado para compreender, orientar e acolher pacientes com questões relacionadas às crianças em suas fases de desenvolvimento, com um foco direcionado à atitude psíquica dos pais, às questões genéticas, estruturas comportamentais herdadas e à atmosfera do ambiente onde se dá a criação dos pequenos.

   Não causa espanto perceber que, a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância, deva sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais. No entanto percebe que a responsabilidade dos pais se estende até onde eles têm o poder de ordenar a própria vida de tal maneira que ela não represente nenhum dano para os filhos. Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos.

   Dificuldades no relacionamento dos pais entre si se refletem infalivelmente na psique da criança, podendo produzir nela perturbações até mesmo doentias.

   Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para seres humanos – mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência.

   Pelo pressuposto do inconsciente coletivo, seria possível estabelecer a tese de que os verdadeiros geradores das crianças não são seus pais, mas muito mais seus avós e bisavós, enfim toda a sua árvore genealógica. É essa ascendência genealógica que determina a individualidade da criança de maneira mais eficiente do que propriamente os pais imediatos.

   Cada indivíduo constitui uma combinação nova e única de elementos psíquicos. Cada caso é individual, não pode ser derivado de formas genéricas e pressupostas. Cada indivíduo é um novo experimento da vida em sua mudança contínua e uma tentativa de nova solução e nova adaptação.

   Nos primeiros anos de vida quase não se verifica consciência alguma, apesar de que já muito cedo seja evidente a existência de processos psíquicos. Mas esses processos não estão relacionados a nenhum “eu”, não tem um centro e por isso carecem de continuidade, sem a qual é impossível a consciência. Provém daí o fato da criança também não ter memória no sentido usual, apesar da plasticidade e receptividade para as impressões, de que está dotado seu órgão psíquico.

   Durante os primeiros anos de vida percebe-se claramente na criança como a consciência se vai formando por um agrupamento gradual de fragmentos. Esse processo não cessa no decurso da vida inteira.

   Pela educação e formação das crianças procuramos auxiliar este processo de desenvolvimento. A escola é apena um meio que procura apoiar de modo apropriado o processo de formação da consciência.

   Também seria interessante um olhar além dos transtornos neurológicos, para uma condição mais comum do que se imagina: o Puer Aeternus, um conceito da Psicologia Analítica sobre a “Eterna Criança”. Por ser um tema deveras extenso, trago para finalizar, esse pequeno texto:

Uma ruptura em um equilíbrio crítico da natureza humana é exatamente o que aconteceu. Vivemos na época do pai ausente, e muitos sofrem muito como resultado. Espera-se que os jovens deixem o conforto do lar, superem o complexo materno e esculpam uma vida que vale a pena ser vivida sem o apoio psicológico de um pai. É de admirar que o problema do puer aeternus seja tão proeminente em nossos dias?

Mas os efeitos de um pai ausente são agravados pelo impacto que essa situação tem sobre a mãe. Pois produz uma situação em que, em primeiro lugar, a mãe tende a se tornar mais autoritária na paternidade para compensar a falta de uma figura masculina na vida da criança. E, segundo, um fracasso por parte do pai em fornecer amor e apoio à mãe cria nela uma fome emocional que ela tenta saciar através do relacionamento com o filho. Essa situação cria a tempestade perfeita em que a mãe se torna o que os junguianos chamam de “mãe devoradora”. Ela superprotege e sufoca seu filho e se envolve em todos os aspectos de sua vida. Geralmente, essa mãe, apesar de ter as melhores intenções, manipula inconscientemente seu filho para permanecer dependente dele até a idade adulta.

Uma criança criada dessa maneira e, portanto, que nunca teve a oportunidade de se aventurar por conta própria, de se defender, de fracassar e consertar seus próprios erros, ou de tomar decisões por si mesma, se transformará em um adulto aleijado em sua capacidade de suportar e superar os inevitáveis ​​desafios e lutas da vida.

 

 

Fontes:

·         Neurocientista Paulo Liberalesso

·         Google

·         “O Desenvolvimento da Personalidade” Obra Completa de Carl Gustav Jung – volume 17

·         Introdução à obra de Frances G. Wickes “Análise da Alma Infantil”

·         A Importância da Psicologia Analítica para a Educação – conferência de Carl Jung pronunciada no Congresso Internacional para  Educação em Territet-Montreux, 1923.

·         Psicologia Analítica e Educação – três Conferências, proferidas no Congresso Internacional de Educação em Londres, 1924.

·         https://www.pensarcontemporaneo.com/carl-jung-e-a-psicologia-do-homem-crianca

 

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