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sábado, 26 de outubro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 24/35 - PATHWAY OF ABSTINENCE MODELO AXIOLÓGICO

 


PATHWAY OF ABSTINENCE MODELO AXIOLÓGICO1

Sabe-se que o adicto possui um conjunto de crenças muito peculiar. Na verdade, toda a forma de pensar, sentir e agir do adicto está contaminada por ideias que o conduziram ao processo de adicção. Essa forma de pensar, sentir e agir é denominada, pela abstemiologia, como sistema ideológico adicto (S.I.A. negativo). Contudo, durante a abstinência, inexoravelmente, esse sistema ideológico deverá ser alterado para dar sustentação ao processo abstêmio. Assim, indaga-se: quais são os sistemas ideológicos abstêmios? Todos os abstêmios possuem a mesma forma de pensar, sentir e agir? As respostas a essas questões explicam a mudança de valores correspondente ao modelo axiológico do processo de abstinência no qual o abstêmio está inserido.

Existem algumas máximas que sintetizam muito claramente os diversos sistemas ideológicos abstêmios (S.I.A. positivo), como, por exemplo:

(a)   “Eu bebo com o meu dinheiro e ninguém tem nada a ver com isso” ‒ frase típica do sistema ideológico adicto (S.I.A. negativo).

(b)   “Eu preciso parar de beber” ‒ frase típica das pessoas que estão em fases iniciais da abstinência (abstêmio mínimo ou abstemenor, normalmente; sistema ideológico neutro ‒ S.I.N.).

(c)   “Eu não preciso beber” ‒ frase típica de abstêmios mais experientes (abstemaior, normalmente; sistema ideológico abstêmio ‒ S.I.A. positivo).

(d)  “Eu sinto prazer em não beber” ‒ frase típica de pessoas que estão em abstinência há muito tempo (abstemaior real ou mega-abstêmio, normalmente; sistema ideológico abstêmio duplo positivo ‒ S.I.A. duplo positivo).

Através da interpretação de cada uma dessas máximas é possível perceber o tamanho da diferença ideológica que existe em cada pessoa. Peço, singelamente, que o leitor releia as frases anteriores com atenção para perceber a sutil diferença que existe na forma de pensar, sentir e agir de cada uma das formas de raciocínio. A mudança de pensamento expressada em cada uma das máximas anteriores reflete, a bem da verdade, a incorporação de novos valores que foram lentamente adquiridos pelo abstêmio através do seu processo de abstinência. O conjunto de valores de um fenômeno representa, em apertada síntese, uma axiologia. Nos estudos abstemiológicos, isso forma o modelo axiológico do processo de abstinência.

O modelo axiológico do caminho da abstinência nos indica que os abstêmios passam por 05 fases em que podemos observar notórias diferenças entre cada sujeito (abstêmio). Existem, empiricamente, no mínimo, 05 modelos axiológicos que condensam as formas de pensar, sentir e agir de cada abstêmio. Seguindo esse raciocínio, teremos, no caminho da abstinência através do modelo axiológico, as seguintes etapas:

·      Reconhecimento do sistema ideológico adicto (S.I.A. negativo).

·      Necessidade de criação do sistema ideológico neutro (S.I.N.).

·      Surgimento de um sistema ideológico abstêmio (S.I.A. positivo ou S.I.A.+).

·      Imersão e desenvolvimento do sistema ideológico abstêmio positivo.

·      Surgimento do sistema ideológico abstêmio duplo positivo (S.I.A.++).

O reconhecimento do sistema ideológico adicto (S.I.A. negativo) refere-se a dois momentos bem específicos: primeiro a pessoa reconhece que é adicta e, depois, reconhece que está inserida num processo de adicção. Esse é o 1º (primeiro) passo dos grupos anônimos. Normalmente isso ocorre por intermédio de insights de 1º grau2, mas pode ocorrer, também, pelo aumento da lucidez abstêmia. É muito difícil a pessoa reconhecer que possui adicção e que é adicta. Esse passo é muito complicado.

Após o reconhecimento da existência do S.I.A. negativo, surge a necessidade de anular essas formas de pensar, sentir e agir que deram fundamentação à adicção. Dizemos que o abstêmio terá que neutralizar sua ideologia adicta e, para tanto, criará uma nova forma de pensar, sentir e agir que formará seu sistema ideológico neutro (S.I.N.). Na realidade, o S.I.N. serve somente para frear, parar ou estancar o desenvolvimento da adicção. Nesse momento, o abstêmio deverá usar, entre outras, a técnica do “evite pessoas, hábitos e lugares da ativa” para que não possa ser reinserido no universo da adicção.

Em seguida, depois de neutralizar o sistema ideológico que serviu de sustentação à adicção, o abstêmio formará um novo sistema ideológico. A nova forma de pensar, sentir e agir do abstêmio possibilitará o surgimento de um sistema ideológico abstêmio (S.I.A. positivo OU S.I.A.+). Esse é o sistema em que a abstinência se desenvolve. O processo de abstinência será lentamente aperfeiçoado e moldado pelo novo sistema ideológico positivo. Aqui ocorrerão fenômenos como: aumento do repertório abstêmio, readequação entre a idade física e a idade emocional, reestruturação familiar, estabelecimento de relacionamentos afetivos saudáveis, superação do etiquetamento, reconhecimento de sobriedade, entre outros. Isso tudo dependerá da imersão e desenvolvimento do sistema ideológico abstêmio positivo.

O conjunto dos últimos elementos valorativos da abstinência se manifestará no sistema ideológico abstêmio duplo positivo (S.I.A. duplo positivo ou S.I.A.++). Esse sistema ideológico só ocorrerá cronologicamente após o ponto “Z” da escada abstêmia. Essa forma de pensar, sentir e agir é a sustentação da abstinência do mega-abstêmio, ou seja, da pessoa que está em abstinência por mais tempo do que esteve em drogadição. Aqui temos fenômenos como exemplarismo, 13º passo (ou passo cosmoético), assistência e amadurecimento da abstinência.


1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS       ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

2 A irmandade dos alcoólatras anônimos (A.A.) possui um livro somente sobre isso. São relatos de centenas de pessoas do mundo inteiro sobre o tema. O livro é intitulado “VIEMOS A ACREDITAR”. Tal estudo também é conhecido como “livro vermelho do A.A.”, porque a capa original era desta cor.


(Péricles Ziemmermann)

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