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sexta-feira, 2 de agosto de 2024

EFEITO ABSTÊMIO DA RECUPERAÇÃO DA QUÁDRUPLA CAPACIDADE


TEMAS ABSTEMIOLÓGICOS

 


 

A abstinência é capaz de gerar diversos efeitos na vida de cada pessoa. Entre essas consequências positivas produzidas pela abstinência, existe o efeito da recuperação da quádrupla capacidade. 



Acompanhe o seguinte raciocínio: durante a drogadição a pessoa vai deteriorando gradativamente suas capacidades de relacionar-se com outros, de prestar assistência e de gerir a própria vida. Além disso, convém destacar a existência de deteriorações nas esferas moral, biológica, psicológica e cognitiva. O afunilamento da drogadição durante o processo de adicção é capaz de reduzir a pessoa a uma completa ausência de dignidade. Porém, esse panorama pode ser revertido através do processo de abstinência e durante os longos anos de vida abstêmia (lastro abstêmio).



O processo de abstinência, principalmente na sua fase inicial, parece ter o escopo de fazer com que o abstêmio recupere algumas capacidades que foram perdidas – ou atrofiadas – durante sua adicção. As capacidades cognitivas que foram mais afetadas e que devem ser recuperadas gradualmente pelo abstêmio são: a afetividade,

socialização,

espiritualidade e

autoadministração (autogerência) da própria vida



Parece que estas QUATRO ÁREAS são extremamente debilitadas pelo período de drogadição. Quanto mais longo for o período de adicção, mais débeis estarão essas áreas e mais difícil será recuperar a QUÁDRUPLA CAPACIDADE



Outro detalhe interessante, e não menos importante, é que recuperar a quádrupla capacidade não significa que a pessoa pode realizar qualquer ato ou praticar qualquer atitude. Recuperar a capacidade significa reconhecer suas novas limitações e viver, apesar delas. Recuperar o juízo social, pessoal e afetivo representa um dos níveis de evolução do próprio processo de abstinência. Assim, no decorrer de toda a vida abstêmia, os abstêmios estarão constantemente reavaliando suas capacidades e redirecionando o sentido de suas vidas para permanecerem nos trilhos da sobriedade.



Aproveito a oportunidade para enfatizar a necessidade da prestação de assistência aos outros colegas mais inexperientes[1] na vida abstêmia, bem como aos familiares deles[2]. Inclusive, cabe destacar que os familiares, estatisticamente, são as pessoas que buscam mais informações sobre o problema da adicção e como solucioná-lo. Os familiares, via de regra, desejam saber mais sobre o processo de abstinência do que os próprios abstêmios. Por isso, a maioria das vendas de livros sobre abstinência, dos estudos abstemiológicos e das campanhas de publicidade sobre formas de manter-se abstêmio são direcionadas aos familiares e não, necessariamente, aos abstêmios (outrora adictos). De mais a mais, já presenciei reuniões abstemiológicas em que o número de familiares que compareceram na terapia era muito superior ao número de pessoas que desejavam permanecer em abstinência, ou seja, havia muito mais familiares presentes do que seus entes queridos que precisavam manter-se abstêmios. 



A par disso tudo, concluo esse breve estudo afirmando que, infelizmente, a maioria dos abstêmios que recuperou a QUÁDRUPLA CAPACIDADE ignora a necessidade de ajudar outros companheiros. A falta da prestação de assistência dos abstêmios mais experientes aos abstêmios mais novatos indica que muito do universo da adicção continua enraizado (internalizado) no abstêmio. Aliás, o egocentrismo é o problema principal (busílis) da adicção e a melhor forma de minimizar essa distorção cognitiva, centrada no “eu”, é prestando assistência, certo?


Péricles Ziemmermann


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