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terça-feira, 11 de junho de 2024

A carreira alcoólica do Dr. Bob

 

A carreira alcoólica do Dr. Bob. 


Tomando como parâmetro a carreira alcoólica de Bill W., na data da apresentação da proposta, em 08-09-1917, o Dr. Bob. contava 38 anos de idade e seu currículo alcoólico já era respeitável o suficiente para credenciá-lo a ser um membro bastante experiente de A.A. se à época existe-se. Sua carreira alcoólica começou em 1898 aos 19 anos, após a formatura em St. Johnsbury, sua cidade natal, em Vermont. Na festa de formatura conheceu, e começou um longo namoro de 17 anos com a estudante Anne Robinson Ripley (1881 – 1949). Bob   estudou    por    quatro    anos   no    Colégio    Dartmouth,    em Dartmouth, Nova Hampshire. A escola tinha fama de provinciana, ficava entre as montanhas e na cidade não se havia nada para fazer. Os alunos passavam os longos invernos bebendo cerveja e aguardente de cidra tanto quanto pudessem suportar. Bob embarcou na vida universitária com gosto. Livre da supervisão controladora dos pais viu nisso a oportunidade de obter e aproveitar experiências novas sem a necessidade de ter que prestar contas.



A primeira descoberta de Bob relacionada com a vida universitária foi exatamente a que esperava encontrar: Que a bebida parecia ser a principal atividade extracurricular.


No começo ele bebia por prazer e sofria pouca ou nenhuma consequência desfavorável. “Eu parecia estar pronto para recomeçar na manhã seguinte melhor do que a maioria dos meus companheiros bebedores que eram amaldiçoados (ou talvez abençoados) com náuseas depois de um porre. Nunca tive uma dor de cabeça em minha vida, o que me leva acreditar que eu fui um alcoólico desde o princípio”. Graduou-se em 1902 – “summa cum laude (com louvor), aos olhos dos beberrões”, em suas próprias palavras. Agora que Bob possuía um diploma, sugeriu-se que começasse a ganhar a vida e traçasse um futuro sólido e seguro para si próprio. Ele queria tornar-se médico como seu avô materno. Por alguma razão sua mãe opunha-se fortemente a esse desejo. Assim, Bob passou os três anos seguintes em Boston, Chicago e Montreal, em uma profissão de negócios que foi curta, variada e malsucedida. Bob não estava interessado em negócios. Todo final de semana tomava uma bebedeira. O fracasso nos negócios levou-o a persuadir sua família para que o deixassem cursar medicina, que era o que gostava. Assim, em 1905, aos 26 anos, ingressou na Universidade de Michigan como estudante pré-médico. Apesar das boas intenções e dos elevados propósitos de Bob, tudo pareceu ruir assim que ele mais uma vez colocou os pés num campus universitário. “Tornei-me um dos líderes... bebendo com muito mais veemência do que havia demonstrado anteriormente” Disse mais tarde. Tudo correu bem por um tempo, depois os tremores começaram a aumentar. Isso aconteceu muitas vezes, indo de mal a pior. Sua vida na escola se transformou em longas bebedeiras, uma atrás da outra, e já não bebia por puro prazer. Tentou uma “cura geográfica”. Arrumou as malas e partiu para o Sul, a fim de recuperar-se numa fazenda de um amigo. Depois de um mês decidiu voltar e continuar os estudos. Porém, o corpo docente não pensava do mesmo jeito: achavam que a Universidade de Michigan podia sobreviver, ainda mais próspera, sem a presença de Robert Holbrook Smith. Depois de longas discussões, com promessas e firmes declarações por um lado, ameaças e advertências por outro, permitiram sua volta e que prestasse exames. O fato de ter ido bem nos exames podia ser considerado um sinal de habilidade natural e inteligência. Podia também ser considerado um sinal de determinação que alguns alcoólicos possuem para trabalhar mais arduamente, por mais tempo e melhor que todos os demais – durante certo período. Nos exames seguintes, houve mais discussões e foi expulso, porém, deram-lhe seus créditos e com eles conseguiu uma transferência em 1907 para cursar o segundo ano na Universidade de Rush, perto de Chicago, Illinois. Continuaram as bebedeiras, cada vez mais prolongadas, acordando com tremores ainda mais intensos. Nos exames finais, teve provas que deixou de fazer porque não conseguia segurar o lápis. Mais repreensões, mais promessas e mais reclamações e uma proposta: o reitor decidiu que se Bob desejasse se graduar deveria voltar mais dois trimestres, permanecendo completamente sóbrio.



Ele foi capaz de cumprir essa solicitação e, como resultado, conseguiu seu diploma de médico em 1910, aos 31 anos. De fato, seus conhecimentos e sua conduta foram considerados tão louváveis que ele foi capaz de assegurar uma residência médica altamente cobiçada no City Hospital em Akron, Ohio. Os dois anos de residência foram livres de problemas e o trabalho tomou o lugar do álcool. “Mantinham- me tão ocupado que praticamente não deixava hospital. Como consequência não me podia envolver em nenhum problema”, disse.


Em 1912, ao completar os dois anos de residência medica, abriu um consultório no prédio do Second National Bank, em Akron, onde permaneceria até a aposentadoria em 1948Talvez como resultado do horário irregular e do trabalho intenso de um novo clinico geral, Dr. Bob teve um problema estomacal grave. “Logo descobri que alguns drinques aliviavam a dor da minha gastrite, pelo menos por algumas horas”, disse ele. E assim, não demorou a retornar aos velhos hábitos da bebida e, quase imediatamente, a pagar muito caro fisicamente com a volta do verdadeiro horror e o sofrimento do alcoolismo. “eu estava entre a cruz e a espada: se não bebe-se, meu estomago me torturava, e se bebe-se, meus nervos faziam a mesma coisa”. Quando as coisas ficavam muito ruins e era incapaz de trabalhar, submetia-se a um tratamento numa das clínicas locais de desintoxicação. Isso aconteceu, no mínimo, uma dúzia de vezes.


Após três anos dessa existência de pesadelo, o jovem médico acabou em um dos hospitais locais, o qual, semelhante a outros lugares para tratamento de doentes nos arredores, atendia pacientes com doenças socialmente inaceitáveis, tais como o alcoolismo, a dependência das drogas e as doenças mentais. A equipe do hospital fez o melhor, mas ele acabou persuadindo amigos bem intencionados a contrabandear uísque para dentro do hospital. Quando o abastecimento falhava, roubava no próprio prédio, e bebia álcool medicinal.


No inicio de 1914, o juiz Smith, seu pai, enviou um médico de St. Johnsbury com instruções para levar o Dr. Bob para casa. Lá permaneceu na cama por dois meses antes de ousar sair. Estava completamente desmoralizado. Passaram-se mais dois meses até retornar a Akron e reassumir suas funções na clínica. Ele ficou tão apavorado com o acontecido que não tocou em bebida alcoólica até que foi decretada a Lei Seca. Ainda estava sóbrio no inicio do ano seguinte e, acreditando que ficaria daquela forma para sempre e, que talvez Anne Ripley também acreditasse, foi a Chicago para casar-se com ela depois de tê-la engabelado por longos 17 anos. A cerimônia aconteceu na casa da mãe dela, Sra. Joseph Pierce Ripley, “às oito horas e trinta minutos” do dia 25 de Janeiro de 1915. Os três primeiros anos da vida de casados dos Smith foram ideais, livres de qualquer infelicidade. O Dr. Bob continuava sóbrio, e qualquer dúvida remanescente que Anne podia ter foi afastada. Era na época, como sempre o foi, um casal muito devotado. A vida profissional do Dr. Bob seguia tranquila; estava adquirindo uma boa reputação como médico, trabalho do qual gostava muito, e inspirava confiança aos pacientes: “Exatamente como se espera que um médico seja”, disse Emma K. – próxima dos Smith em seus anos finais. Fizeram muitas amizades, tornaram-se membros respeitáveis da comunidade, e em 1918, tornaram-se pais de Smitty seu único filho. Porém esse mesmo ano teve um impacto diferente na vida do Dr. Bob: em outubro foi aprovada a Emenda 18ª ou Lei Seca que vigorou desde 16/01/1920, até 05/12/1933. A lei proibia a fabricação, venda, transporte, importação e exportação de bebidas alcoólicas contendo mais de 0,5º de álcool em todo território dos EUA. Sua memória eufórica foi ativada e achou que alguns drinques naqueles momentos que antecediam à entrada em vigor fariam pouca diferença, e que uma pequena provisão enquanto ainda era legal logo acabaria, e a normalidade da temperança se estabeleceria no país. O Dr. Bob começou de forma moderada a jornada da proibição. E num tempo relativamente curto, ficou fora de controle novamente, não de volta ao velho padrão, mas o progresso de sua doença foi evidente.


A emenda 18ª favorecia os médicos ao permitir o uso do álcool etílico, em quantidades quase ilimitadas, para “fins medicinais”. Muitas vezes, durante aqueles anos “secos”, Dr. Bob escolhia um nome ao acaso na lista telefônica, e preenchia uma receita médica que lhe dava direito a uma garrafinha de 100 cc de álcool medicinal.


Logo entrou em cena um novo personagem: o contrabandista de bebida alcoólica. A qualidade não era seu forte. Mesmo assim, o contrabandista da família era mais prestativo do que a loja de bebidas. Fazia entregas a qualquer hora do dia ou da noite, domingos e feriados. Não aceitava cheques nem vendia fiado. O Dr. Bob logo providenciou um. Logo “desenvolvi duas fobias distintas: o medo de não dormir, e o medo de ficar sem bebida. Se não ficasse sóbrio o bastante para ganhar dinheiro, ficaria sem bebida”, nas suas próprias palavras. Esta lógica irrefutável o conduziu a um pesadelo que durou 17 anos: ficar sóbrio para ganhar dinheiro para poder beber e ficar bêbado para poder dormir. Depois tudo de novo – e de novo!


Substituiu a bebida matinal, que era o que ele gostava, por grandes doses de sedativos, a fim de acalmar as tremedeiras que o afligiam terrivelmente. Quando sucumbia ao desejo de beber de manhã, acontecia um desastre maior. No primeiro caso, em poucas horas encontrava-se incapacitado para trabalhar. No segundo caso, perdia a habilidade usual de levar às escondidas para sua casa bebida alcoólica suficiente que o fizesse dormir. Assim, adquiriu o que hoje é conhecido como dependência cruzada: álcool e fármacos.


Ainda assim, Dr. Bob conseguia se manter trabalhando como médico. “Eu tive bom senso suficiente para nunca ir ao hospital se tivesse bebido e raramente recebi pacientes nesse estado”, disse. De fato, sua carreira até progrediu durante esses anos. Depois de seu inicio como clinico geral, em 1929 começou a se especializar como proctologista e cirurgião retal. Mas, à medida que os anos de bebedeira decorriam, o esforço para fazer seu trabalho e manter uma fachada de normalidade se tornou estafante. Gradualmente a fachada foi desmoronando.


Se Anne planejasse sair à tarde, ele conseguia um grande sortimento de bebidas e o levava às escondidas para casa, escondendo-as no depósito de carvão, dentro do tanque de lavar roupas, em cima das vigas do porão, e entre as telhas do celeiro. Utilizava também arcas e baús e até a lata de lixo. Costumava colocar bebidas em garrafas pequenas e enfiá-las no cano das meias. Seu contrabandista escondia o álcool nos degraus atrás da casa.


Quando Anne tinha cerca de quarenta anos, e não poderia ter mais filhos, adotaram Suzanne Windows (Sue) de cinco anos de idade, a mesma de Smitty, para não criá-lo como filho único.



A bebida de Dr. Bob teve um efeito inevitável na vida da família e também em sua prática profissional. À medida que as crianças cresciam, o alcoolismo do pai tornava-se cada vez mais perceptível, e os Smith foram sendo excluídos pelos amigos. Não podiam aceitar mais convites porque Dr. Bob ficaria bêbado e causaria uma cena, Anne não se atrevia a convidar alguém para vir à sua casa pela mesma razão.



Em 1933 os tempos eram extremamente difíceis para todo mundo, mas piores para os Smith: Dr. Bob quase não clinicava. Ele se escondia ou ficava em casa indisposto. Anne e Lilly, a secretária do Dr. Bob, mentiam para os pacientes dele. Conseguiram uma ampliação do prazo para pagar a hipoteca da casa. No inicio desse ano Dr. Bob e Anne entraram em contato com o Grupo de Oxford e ela o persuadiu a frequentar as reuniões, mas posteriormente ele mesmo se sentiu atraído pelos membros “por causa do aparente equilíbrio, saúde e felicidade”. Seu entusiasmo esfriou de certa forma quando descobriu que o programa tinha um aspecto espiritual. “Em nenhum momento senti que ali houvesse uma resposta para meu problema com a bebida alcoólica”, disse. No entanto, durante os dois anos e meio seguintes Dr. Bob frequentou regularmente as reuniões do Grupo de Oxford, dedicou muito tempo ao estudo de sua filosofia, e embarcou em uma busca espiritual destinada a durar pelo resto da vida.

Contudo, ficava bêbado. Foi nesse estado que assistiu à revogação da Lei Seca em 05-12- 1933, e assim passaria o ano de 1934 até o encontro com Bill W. no dia 12 de maio de 1935.

 

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