10.04.2022.
Transitei despreocupadamente, deveras até libertino (e foi bom até certo ponto) em minhas estradas, arrastando minhas pedras de absoluta estimação.
Depreciei ainda mais o que já estava liquefeito em meu padrão de sofrimento. Munido de minhas histórias e vivências (e a forma que as interpretava), caía constantemente num eterno retorno - travava uma possível evolução como ser humano; bastante humano por sinal... com uma mórbida satisfação em raspar com as unhas a casquinha das feridas (patológicas?) traumáticas.
Ostentei a distância que, a capacidade de adquirir conhecimento e desenvolver emoções, me colocava em relação à maioria das pessoas que eu conhecia.
Essa distância colocou-me em algum tipo de desespero mesclado com uma condição de potência, onde me portava esnobe e repousado em atitudes egocêntricas e sarcásticas. Valoriza-me diante das comparações feitas com os tidos, inferiores.
Até que me dominou um período (uns cinco anos) de desconstrução, de descongelamento (gradual) e nunca planejado (conscientemente). Nem imaginava aonde iria chegar (não mesmo). Eu estava indo para dentro de mim (e reitero: não sabia disso). Uma confluência de situações nunca antes pensadas, mas vividas em minha nova rotina estranha e esquisita.
Não fui em busca de florestas ou desertos para voltar com uma suposta luminosidade provocada por visões celestiais ou experiências transcendentais. Nem mesmo voltei pacificado com a humanidade ou com caos provocado por ela...
Tudo é muito novo ainda, mas já respeito esse momento. Parece-me que estou entrando em um mundo 'normal', de vivências 'normais', onde a regra passa a ter lugar, o respeito por mim mesmo acondiciona-me em um colo confortável. Um tipo de perdão incondicionado a supostos pedidos de desculpas; um tipo de perdão particular que me livra dos eternos retornos e me permite seguir adiante e, ainda mais adiante de onde havia parado nos cinco anos anteriores de uma total perda de rumo. E é isso que mais explode hoje: estava no caminho certo por letras tortas nas linhas tortas de páginas e folhas tortas, numa escrita inteligível, de textos irregulares e páginas e folhas de antemão amareladas e injustificáveis.
Marcelo Braga
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