FELIZES MOMENTOS
29.02.2016.
A PUNÇÃO LOMBAR - seria para mim o pior... tirar líquido de minha espinha: 10 ml! Nada. Tranquilamente.
POLIRRADICULOPATIA nos membros inferiores (diga-se de passagem, nas duas pernas, a esquerda e a direita...).
Exame de sangue quase perfeito: pequena falta de B 12.
Exame físico: acordado, orientado no tempo e no espaço.
Corado, acianótico e anictérico. Eupneico em ar ambiente.
Indolor à palpação, sem massas ou visceromegalias, peristáltico.
Entre outras normalidades contendo termos mais discretos por serem siglas que somente eles sabem o que são...
Exame neurológico:
Funções mentais superiores: vigil, obedece aos comandos, atento e cooperativo. Nota 1000!
Nervos cranianos: isocoria fotorreagente, MOE sem alterações, força reduzida em mímica facial, mobilização da língua sem alterações, movimentação de palato e úvula sem alterações.
Motor: medidas de forças iguais nas duas pernas com nota máxima na abertura dos dedos e extensão da perna e com nota 4- (máxima era de 5) na elevação da coxa.
Sensibilidade: posição segmentar sem alterações. Hipoestasia tátil e álgica em território de nervo safeno e em grupamentos distais. Sensibildade vibratória preservada com pequeno gradiente distal/proximal.
Reflexos: Nota máxima para quase todos. Patelar nota 1 (máximo de 2) e o Aquileu, coitado: nota zero!
Equilíbrio: prejudicado.
Coordenação: Eumetria e eudiadococinesia.
Marcha: miopática. Se rigidez na nuca.
Propedêutica: - Líquor: citometria: 2 células 100% MN, glicose 77, proteína 48 d/dl. Bacterioscopia neatva.
HIV, VDRL, HTLV, TPHA, HEPATITE B e C: NEGATIVOS.
Propostas:
- acompanhamento ambulatorial no serviço de neurologia do HOSPITAL FEDERAL DOS SERVIDORES com o Dr. Gabriel.
- manutenção da vitamina B 12
- encaminhamento para a fisioterapia.
Enquanto passavam alguns dias à espera dos exames, a incerteza de que voltaria a andar ou não (desde meados de dezembro de 2015 na cadeira de rodas sem força alguma nas pernas). Fevereiro já se aproximava do fim.
Muita cama, nada de internet, três livros lidos (um da Lygia Fagundes bem louco...); diverti-me bastante com ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ de Saramago em sua retórica única e frases comuns de meus colonizadores como: "Filhos da grande puta que vos pariu!" e ainda mais com A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA de Moacyr Sclair, que narra a história de Salomão numa ótica bastante humana.
Meu xará, dois anos mais novo que eu, tendo sido internado duas horas depois de mim, cujo nome prefiro preservar, no leito 14. Dono de empresa de viagens de passeios bíblicos pelo Egito, Jerusalém e Atenas. Mestre em teologia na Universidade Hebraica sem saber falar hebraico. Apresentei-me a ele como sendo muçulmano - para evitar ali algum tipo de proselitismo... e assim conversávamos mais sobre o Flamengo, suas dores, febres, exames, seus choros, seu testemunho, enquanto por ele se revesavam de segunda à sexta sua ex-mulher e nos finais de semana sua atual namorada... até parecidas as duas. Ah, o tubo que tiveram que inserir nele para facilitar a evacuação... jurou-me que não ficaria viciado com aquela prática...
No leito 12, dois dias depois, AL, como é chamado em Santo Antonio no Texas o norte-americano com suspeita de Guillan Barrè. De origem germânica e sobrenome CABALLERO. Como eu, de origem germânica e sobrenome BRAGA, qual o problema?! Com esse me diverti bastante. Um norte-americano vindo visitar sua namorada brasileira, 20 anos mais velho que eu, pela primeira vez internado na vida. E uma pessoa agradável e feliz. Reclamava apenas dos dias e horas que se passam dentro de um hospital, dos eletrochoques e agulhadas. No mais, nem calor, nem frio, comida boa, tudo muito bom - "Melhor que no Texas - lá me custaria uns 12 mil reais dia tal internação, aqui é de graça!" Reaprendi o Bê a Bâ do ingrês arcaico (ele não falava quase nada em português) e seguimos dias rindo, tentando manter um diálogo. Conversamos sobre tudo: sonhos, carros, capitalismo, socialismo (ele chama Trump de crazy Trump), Brasil, USA, seus parentes, novaiorquinos, etc... e quando tive que explicar que PAY DAY no Brasil continha o som e um verbo conjugado no passado...
Eu, no leito 13... acho que muitos não queriam esse leito... mas eu gostei, tanto pelo número quanto pela sorte que ele sempre me deu... ainda bem que não havia leito 45...
Do fumódromo eu acompanhava todos os dias a chegada e saída dos cruzeiros que aportavam ao cais. O baruho das obras e seus guindastes de prédios ao redor para as Olimpíadas. As incansáveis decolagens e pousos do Tom Jobim e num tráfego ainda mais acelerado, do Santos Dumont. A movimentação da ponte Rio-Niterói (como sonhava todos os dias atravessá-la novamente de volta para casa). Os temporais que se arrumavam nas serras de Ana Bailune e Beth Joy. Os passantes da grande rampa que unia os 11 andares do prédio. Papos e mais papos com fumantes seguranças, pessoal da limpeza (o baixinho que tomou esporro de seu chefe por estar sempre ali conversando comigo), internados que se movimentavam até lá, acompahantes, pessoal do almoxarife, visitantes, auxiliares de enfermagem, enfermeiras, médicos fumantes, Herbert, o fugitivo (todos os dias tentavam fugir de seu 5° andar e os seguranças o retornavam ao leito), 19 anos, em seus primeiros dias, ainda sob o efeito de drogas e depois sob o efeito de abstinência. Foi se acalmando e passou a fugir apenas para 7° andar, onde eu estava para bater papo sobre sua comunidade e me filar cigarros. Aliás, ele deve ser operado amanhã.
Um dia antes de iniciar meu tratamento venal de duas horas diárias para baixar minha imunidade e controlar a loucura dos anti-corpos que estavam a atacar os nervos de minhas pernas, consegui dar uns passos sem me escorar em nada. Em duas seções de fisioterapia e uma alimentação muito completa e diversificada - e o melhor: sem restrições: sal, açúcar, vinagre, azeite. Frutas, sucos, pastas, queijos, carnes, leite e umas Coca latas que adentravam na moita para mim de noitinha...
Cinco dias depois do tratamento venal, tive alta, saí andando como um robô, tendo volta marcada para revisão em MAIO naquele respeitado e equipado hospital federal, onde tudo funciona, nada falta. Atendimento sério de ótimos profissionais em diversas áreas da medicina onde eu tive a sorte de ir parar. HOPE!
Bem, hoje é segunda, tirei quase 15 dias de férias. Hora de trabalhar em minha internet.
DEDICO ESSA CRÔNICA
À Sandra Amorim por indiretamente ter me levado a esse hospital.
À minha querida Isabel nas idas e vindas diárias onde segurou todas as pontas: nossa casa, casa de seus pais, nossa filha, eu, nossas vendas pela internet e nossa lojinha.
Aos amigos que ajudaram no início, no meio e no fim.
E ao Poder Superior que nós, agnósticos, acreditamos existir.
MARCELO BRAGA
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