> Texto extraído na íntegra da Revista Vivência N° 46 – Especial 50 anos – março / abril de 1997.
> Desde o início de A.A. no Rio de Janeiro, vários companheiros passaram a traduzir a literatura original de AA.
Alguns destes livretos constam dos arquivos do ESG: Apadrinhamento, Os Doze Passos, As Doze Tradições, Abordagem. Eram trechos extraídos do livro Alcoólicos Anônimos.
A partir do início dos anos sessenta, Alcoólicos Anônimos, com aproximadamente vinte Grupos espalhados por vários Estados do Brasil, inicia uma fase nova. Era o começo da estrutura de serviços.
Em 1964 os estatutos foram modificados, adequando-se às Tradições e criando um Conselho Administrativo e logo em seguida encaminhado aos Grupos para aprovação por carta. A partir do ano seguinte as atenções dos AAs brasileiros voltaram-se à tradução e publicação da literatura oficial no Brasil, com o aval do G.S.O. (General Service Office), órgão que substituiu a Fundação do Alcoólico em 1954. Mas isso ainda não foi possível. As traduções dos textos aprovados pela Conferência eram encaminhadas ao G.S.O para análise, impressão e retorno para uso nos Grupos. Foi o caso de Eis AA, Você Deve Procurar AA?, 44 Perguntas e Respostas, A Opinião de um Médico, Carta a uma Mulher Alcoólica, Conceitos Básicos Sobre AA e As Doze Tradições. Assim que a impressão ficava pronta, certa quantidade era enviada para o Brasil. Nos anos seguintes, contávamos com várias traduções impressas, dentre elas A.A. é Para Mim?, A Doença do Alcoolismo e Apadrinhamento.
Numa das cartas recebidas do G.S.O na época, a então funcionária da Sede, Waneta New,
encarregada da correspondência com membros de língua espanhola, solicita aos companheiros
o orçamento para a impressão de mil unidades do Livro Grande em português, aqui no Brasil, informando que talvez o Comitê Internacional poderia custeá-lo, o que não prosperou (1).
Quando se fala sobre o início das publicações de A.A. no Brasil, não poderíamos deixar de dar atenção especial à publicação do livro Alcoólicos Anônimos em português.
Um companheiro de São Paulo chamado Donald L. que se dispôs a traduzir o livro Alcoólicos Anônimos, comunicou-se com o G.S.O. O Comitê Internacional respondeu sua carta em outubro de 1966 sugerindo-lhe a tradução dos onze primeiros capítulos, após a formação de um comitê de tradução, e informando-lhe que a impressão deveria ser feita, após análise, em Nova Iorque. O G.S.O. não permitiu a impressão no Brasil.
Ao que parece a concessão só veio em fins de 1968, quando Gilberto, um AA brasileiro residente nos Estados Unidos, voltou à São Paulo, conheceu Donald L. e conseguiu intermediar as relações entre ele e A.A. World Services Inc., órgão responsável pela literatura oficial de
A.A. (2). Tal concessão e o financiamento de dois mil dólares só foram dados mediante o compromisso de atingir algumas metas estabelecidas. Organizar um Centro de Distribuição de Literatura de A.A para o Brasil com um comitê responsável por um modesto escritório; publicar a primeira metade do livro (os onze primeiros capítulos, sem os depoimentos americanos) contendo uma clara advertência acerca da propriedade dos direitos autorais; distribuí-lo ao preço equivalente a dois dólares e devolver o empréstimo concedido, sendo oitenta e dois centavos de dólar por unidade, trimestralmente, destinando o restante do lucro para a publicação dos outros itens da literatura foram algumas das condições estipuladas pelo
A.A.W.S. Durante os cinco próximos anos a concessão seria válida.
No início de 1971, o Centro de Distribuição de Literatura de A.A. para o Brasil (CLAAB) havia vendido os dois mil exemplares da primeira edição e o lucro verificado, deduzidas as despesas da sede, foi transformado nos folhetos A.A. em Sua Comunidade, Você Deve Procurar o AA? e 44 Perguntas e Respostas, editados no ano anterior. Por essa razão, liquidado o primeiro empréstimo, um segundo (N.T.: de três mil dólares), foi feito para possibilitar a segunda edição, agora sem quaisquer regras que regessem o pagamento, cuja liquidação final se deu em 1979.
A publicação do livro Alcoólicos Anônimos abriu caminho para a comunicação oficial entre os Grupos existentes na época. O verdadeiro cadastro de grupos iniciou-se com a anotação dos endereços dos Grupos que solicitavam o livro. Aos poucos os Grupos foram se comunicando com o CLAAB, que anotava os endereços, dias e horários das reuniões, fornecendo-os aos interessados.
A REB - Revista Eclesiástica Brasileira, órgão oficial de comunicação entre a prelazia brasileira e as paróquias, publicou uma elogiosa crítica ao livro, recomendando-o como instrumento útil na recuperação de alcoólicos. Nesta mesma época, graças a amigos de A.A. tivemos acesso ao saguão da PUC, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde se realizava o IV Congresso Latino-Americano de Psiquiatria. Foi montado um stand com a pouca literatura de que dispúnhamos e os companheiros falaram diretamente com dois mil médicos, explicando-lhes o conteúdo do livro e oferecendo, gratuitamente, exemplares dos folhetos disponíveis. Registrou-se um recorde: duzentos e vinte exemplares vendidos em quatro dias (até aquela data nossa venda não havia passado os vinte exemplares por mês). <= Fim da transcrição.
O livro “Alcoólicos Anônimos” foi publicado no Brasil em novembro de 1969, encadernado em brochura da mesma tonalidade da cor azul da capa da segunda edição (1956), do livro original em inglês que nos EUA/Canadá é conhecido como “Big Book”, ou, “Livro Grande”. Pela característica da cor da capa, passou a ser conhecido no Brasil como “Livro Azul”.
O acordo para a publicação do livro previa a tradução dos Prefácios à primeira e segunda edição, “A opinião do Médico”, os onze capítulos do texto básico, “O pesadelo do Dr. Bob” e o texto integral das Doze Tradições. Este conteúdo equivale a aproximadamente 30% do livro original. Os outros 70% são histórias e relatos das experiências vivenciadas pelos primeiros membros da Irmandade – algumas mantidas e outras substituídas nas sucessivas edições. Uma coletânea destas histórias foi autorizada para ser reproduzida no Brasil e recolhida no livro “Despertar Espiritual” – Junaab, código 121, publicado em 2011.
O cumprimento correto do acordo para a publicação do Livro Azul no Brasil por parte do órgão criado em 1969 especificamente para responsabilizar por isso, o Centro de Distribuição de Literatura de A.A. - CLAAB, possibilitou que outros acordos de licenças para tradução e publicação da literatura de A.A. fossem feitos com A.A.W.S. – Serviços Mundiais de A.A. em Nova York.
Assim, entre outros e até completar o acervo que a Junaab disponibiliza atualmente, podem-se destacar as primeiras edições de:
1969: Alcoólicos Anônimos, ou, Livro Azul – Junaab, código 102
1971: Os Doze Passos – em brochura na cor vermelha (substituído pelo código 105). 1973: As Doze Tradições – em brochura na cor verde (substituído pelo código 105). 1976: O Grupo de A.A Junaab, código 205
1977: Viver Sóbrio – conhecido como o livro de capa amarela – Junaab, código 103 1983: Doze Conceitos para o Serviço Mundial – Junaab, código 107
Manual de Serviço de A.A. – Junaab, código 108
A.A. Atinge a Maioridade – Junaab, código 101
1985: Revista Vivência (por subscrição ou compra direta)
1988: Na opinião de Bill – Junaab, código 112
1992: Reflexões Diárias – Junaab, código 111
1995: Os Doze Passos e As Doze Tradições– Junaab, código 105
Para ver o Catálogo digital das publicações da Junaab, acesse:
http://www.alcoolicosanonimos.org.br/publicacoes/literatura/catalogo-digital.html
N.T. (1): O primeiro pedido para publicar do livro Alcoólicos Anônimos em português para o Brasil está registrado num artigo postado na primeira página do boletim Box 4-5-9, edição de novembro de 1956 com o título: Bazilian Seek Translation Help, ou algo como, “Brasileiros Pedem Ajuda Para Tradução”, cujo texto diz: “Luiz M., secretário do Grupo Central do Brasil do Rio de Janeiro sugere que a tradução do Livro Grande (Livro Azul) para o português seria muito útil para os membros brasileiros e suas famílias. Enquanto a Junta de Serviços Gerais não autoriza uma edição standard do livro, é possível que se possa fazer uma edição mimeografada para ser distribuída dentro de A.A. no Brasil”. (N.T.: Isto nunca se concretizou)
http://www.aa.org/lang/en/en_pdfs/en_box459_nov56.pdf
N.T. (2): Este episódio foi relatado por Eloy T., companheiro de A.A. e amigo de Donald L.- citado na matéria, em um artigo de sua autoria, “O Livro Azul no Brasil”, da seguinte maneira:
“... Gilberto, um brasileiro funcionário da ONU em Nova Iorque que vinha em férias para o Rio, passou pelo GSO para saber se havia algo para Grupos do Brasil, sendo então solicitado a investigar as razões dos pedidos de diferentes Grupos com relação ao texto base de A.A. (N.T.: estes Grupos eram o Grupo Central do Brasil e o Grupo Senador Dantas, os dois do Rio de Janeiro - RJ.).
De volta a Nova Iorque, Gilberto, informou ao pessoal do GSO que aqueles grupos vinham, fazia tempo, guerreando por razões de somenos importância, informando mais, que naquele momento não havia unidade no A.A. do Rio a recomendar tarefa de tamanha importância.
Todavia, acrescentou Gilberto, a companheira Dorothy (3) lhe informara que, em São Paulo, um norte-americano, chamado Donald já tinha parte do livro traduzido para uso no seu Grupo e que o considerava em condições de empreender essa missão.
O Gerente do GSO, então, escreveu a Donald perguntando-lhe se aceitava o encargo de traduzir e publicar o livro. Se aceitasse, deveria formar um Comitê para gerir essa atividade, um LDC (Literature Distribution Center). Donald respondeu que aceitava a responsabilidade que lhe ofereciam, porém que os Grupos do Brasil não tinham recursos financeiros para a publicação. O GSO resolveu financiar o empreendimento...”
N.T. (3): Dorothy N., (1914-1990), ingressou em A.A. em 1961 no Grupo IV Centenário do Rio de Janeiro. Em março de 1965, durante uma visita de rotina à Cidade de São Paulo para vistoriar a filial de sua agencia de empregos, a ACES, a pedido de um padre americano, Richard Sullivan, visitou Donald L. no Hospital Samaritano que lá se encontrava internado em decorrência do seu alcoolismo e a quem o padre havia emprestado um exemplar da segunda edição em inglês do livro Alcoólicos Anônimos (Livro Azul). Durante os poucos dias que ficou na Capital amadrinhou e convenceu Donald para abrir um Grupo de A.A. Juntos, co-fundaram o Grupo Sapiens no dia nove de abril de 1965, o primeiro Grupo de A.A. em língua portuguesa no Estado de São Paulo. O Grupo, que já não existe mais, reunia-se em uma sala do Colégio religioso Sedes Sapientiae – hoje um departamento da Pontifícia Universidade Católica, PUC, cedida pela sua diretora, Madre Cristina - de quem Dorothy era amiga, na Rua Caio Prado, 102, na Consolação.







Nenhum comentário:
Postar um comentário