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sábado, 14 de dezembro de 2024

Vacinas de Abstinência 32/33 - Teoria do Deslocamento Vetorial da Desintoxicação


Imagine o seguinte cenário: um abstêmio com 18 anos de abstinência recaiu (reintoxicação física). Em seguida, ele é submetido a um internamento com outras pessoas. O problema é que as pessoas lá internadas possuem 15 anos de adicção. Em síntese, durante o internamento tenta-se ajudar, simultaneamente, alguém com 15 anos de adicção e alguém com 18 anos de abstinência no mesmo ambiente e com as mesmas técnicas. Você realmente acredita que ambos devem ser submetidos à mesma forma de tratamento? Como é possível que uma pessoa com longo período de abstinência receba a mesma forma de tratamento de alguém com longo período de adicção? Para resolver esse dilema existe a TEORIA DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO.

 

Esse tema de estudo abstemiológico reflete uma forma de pensar na desintoxicação para o abstêmio que já possuía longos anos de abstinência e que, infelizmente, recaiu (reintoxicação física). É um tema avançado de abstemiologia porque exige a compreensão e aplicação simultânea de diversas definições abstemiológicas. Tentarei ser o mais didático possível, porém caso o leitor tenha dúvidas sobre alguns conceitos recomendo que busque esclarecimentos em postagens do nosso site já que todos os termos técnicos aqui utilizados estão devidamente explicados em outros estudos.

 

Exemplificando: imagine uma pessoa que está em abstinência por mais tempo do que esteve em drogadição (Ponto “Z”)2. Assim, por exemplo, a pessoa teve 15 anos de drogadição (mero usuário, usuário abusivo e adicto),mas está em abstinência 18 anos. Esse abstêmio é classificado como sendo MEGA-ABSTÊMIO. Agora, esse mega-abstêmio, por diversos fatores que não vêm ao caso, recaiu (reintoxicou-se fisicamente), mas os efeitos gerados pelo processo de recaída foram moderados. Nesse caso, terá que se submeter a uma nova desintoxicação. Então, o abstêmio que recai e precisa desintoxicar- se volta ao início do processo de abstinência? Em termos técnicos, o abstêmio que recai sempre retorna ao Ponto “F”3 da escada abstêmia? Vamos responder essas questões no decorrer dos próximos parágrafos.

 

Para entender como o DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO funciona precisamos conjugar a TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO e a TEORIA DO NÍVEL DOS EFEITOS DA RECAÍDA com diversos outros termos abstemiológicos que servem para delimitar a escada abstemiológica ou escada abstêmia. Assim, o abstêmio após se reintoxicar fisicamente precisa fazer uma análise que compreende, simultaneamente, o seu do tempo de abstinência (lapso temporal abstêmio), efeitos gerados pelo processo de recaída (moderados, graves ou gravíssimos), cálculo do lastro abstêmio e, em seguida, fazer a realocação do vetor da abstinência.

 

Resolvendo o problema apresentado no exemplo anterior: a pessoa do exemplo anterior possuía 18 anos de abstinência. Reintoxicou-se fisicamente, mas o processo de recaída teve efeitos moderados, ou seja, o numero de segurança pode ser apenas “01”. Assim, podemos formular o LASTRO ABSTÊMIO da seguinte forma:

 

·         PERÍODO DE ABSTINÊNCIA ANTERIOR À RECAÍDA: “18” anos

 

·        
NÚMERO DE SEGURANÇA: “01” porque a recaída teve efeitos moderados (caso a recaída tivesse gerado efeitos graves ou gravíssimos o número de segurança seria, respectivamente, 02 ou 03)

 

·         NÚMERO DE RECAÍDAS: “01” porque foi a primeira vez que isso aconteceu em “18” anos de abstinência

 

·         Fórmula: LASTRO ABSTÊMIO=PERÍODO DE ABSTINÊNCIA ANTERIOR À RECAÍDA/(NÚMERO DE RECAÍDAS+NÚMERO

DE SEGURANÇA), ou seja, 18/(01+01)=09. Isso indica que o LASTRO ABSTÊMIO corresponde a 09 (nove) anos de abstinência.

 

Continuando com o mesmo exemplo anterior, sabemos que o abstêmio que recaiu era classificado como sendo MEGA-ABSTÊMIO já que estava em abstinência por mais tempo do que esteve em drogadição. Todavia, essa recaída (reintoxicação física) reclassifica o abstêmio para ABSTEMAIOR já que o seu novo LASTRO ABSTÊMIO será de 09 (nove) anos, ou seja, muito menos do que os 15 anos de drogadição. Assim, essa única recaída (reintoxicação física) causou uma nova reclassificação do abstêmio e o DESLOCOU para um ponto anterior na escada abstemiológica.

 

Nos exatos termos do exemplo citado, ocorreu o deslocamento do abstêmio dentro da escada abstemiológica colocando-o num patamar inferior. A partir desse novo patamar é que será realizada a desintoxicação, ou seja, houve um DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO.

 

Como dito antes, o vetor da desintoxicação não retornou ao Ponto “F” da escada abstemiológica porque o abstêmio que recaiu NÃO estava vindo da adicção em si, mas, pelo contrário, o abstêmio vinha de 18 anos em abstinência. A desintoxicação em si, é uma questão clínica (médica) e poderá ocorrer da mesma forma para qualquer pessoa intoxicada: quer seja abstêmio, quer seja adicto. O problema abstemiológico que temos surge quando se tenta adotar o mesmo tratamento ou aplicar a mesma técnica para quem passou pela desintoxicação vindo de 15 anos de adicção e quem vem de 18 anos em abstinência.


Para resolver essa questão entendo que houve um DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO de modo que podem existir dois pontos de desintoxicação na escada abstemiológica:

 

(I)   O Ponto “F” que corresponde à desintoxicação de quem vinha de um passado mergulhado na adicção, ou seja, o Ponto “F” é a desintoxicação da pessoa em processo de adicção.

 

(II)    O Ponto “DETOX” que corresponde à desintoxicação (nesse caso, detoxificação) de quem vinha de um passado abstêmio, ou seja, o Ponto “DETOX” é a desintoxicação da pessoa em processo de abstinência.

 

Entendo que o abstêmio com longos anos de abstinência, caso recaia (reintoxicação física) sofrerá tecnicamente uma desintoxicação, mas abstemiologicamente apenas uma DETOXIFICAÇÃO. Embora, em ambos os casos, tanto a desintoxicação quanto a detoxificação representam, em apertada síntese, a eliminação de xenobióticos no organismo4.

 

Essa sutil diferença se baseia no fato de que a desintoxicação em termos abstratos – e não médicos ou clínicos – exige uma biopsicossocioespiritual transformação do ser. A desintoxicação serve para retirar a droga/álcool do organismo e, simultaneamente, dar possibilidade para que a pessoa entenda a necessidade de iniciar sua abstinência. A função da desintoxicação, para a abstemiologia, é dar a possibilidade de que a pessoa adquira o mínimo de lucidez para iniciar e manter sua abstinência. A desintoxicação da pessoa adicta é uma tentativa dada para ela alcançar a LUCIDEZ ABSTÊMIA. Raramente a lucidez abstêmia se manifesta em pessoas intoxicadas pelo longo período de uso de drogas/álcool. Em regra, precisa haver uma desintoxicação, por menor que seja.

 

Em outra toada, temos o abstêmio com longos anos de abstinência e que recaiu (reintoxicou-se fisicamente). Nesse caso, o abstêmio já possui LUCIDEZ ABSTÊMIA e pode decidir livremente se deseja permanecer em abstinência ou abandonar seu processo abstêmio e retornar ao universo da adicção. Para essa pessoa NÃO se exige uma biopsicossocioespiritual transformação de modo que basta uma DETOXIFICAÇÃO.

 

Em resumo, podemos compreender a TEORIA DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO como:

 

(a)    Aplicação prática da TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO;

 

(b)      Análise do lastro abstêmio de forma que o abstêmio pode ser submetido a novo internamento ou regime de desintoxicação mais severo. Isso depende do tamanho do lapso abstêmio, do número de recaídas e do nível dos efeitos produzidos pelas recaídas;

 

(c)     Necessidade de reclassificar o abstêmio que recaiu (reintoxicou-se fisicamente);

 

(d)   Forma de determinar o Ponto “DETOX”;

 

 

(e)    Mecanismo de diferenciação entre as pessoas que vêm do passado adicto e precisam se desintoxicar (Ponto “F”) e as pessoas que vêm do passado abstêmio e precisam se detoxificar (Ponto “DETOX”);

 

(f)       Forma de (auto)diagnosticar a necessidade, ou não, de uma biopsicossocioespiritual transformação;

 

(g)    Demonstração clara e inequívoca da necessidade de aplicar técnicas e mecanismos de tratamento diferentes para pessoas que recaiam após longos anos de abstinência que não podem ser utilizadas as mesmas técnicas daqueles que vêm de longos anos de drogadição.




1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

2 Ponto Ziemmermann ou Ponto “Z”: momento em que se iguala todo o somatório do tempo correspondente ao período de drogadição ao período de abstinência. É o dia da boda de diamante. Surgimento do MEGA-ABSTÊMIO e início do desenvolvimento do 13º passo ou passo cosmoético.

3 Ponto “F”: Representa o fim da adicção. É momento anterior ao Ponto “R”, porque ainda não existe a desintoxicação. Pode consistir em óbito ou abstinência. Se for abstinência, poderá ser oriunda da simples interrupção do uso de drogas/álcool (com ou sem internamento) ou recaída “de ouro”. É, simultaneamente, o dia da boda de ouro, o dia “D” e o “marco zero”. É a primeira manifestação de lucidez abstêmia. É comum a ocorrência de insights no ponto “F”. É o início do período de abstêmio mínimo ou ínfimo.

QUENTAL, Ana Raquel de Pinho Sousa. ANÁLISE TOXICOLÓGICA DA COCAÍNA  E          DOS                      SEUS         METABÓLITOS                  EM    CONTEXTO    FORENSE.

Universidade Fernando Pessoa: Porto, 2015. Trabalho apresentado à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Ciências                                        Farmacêuticas.   Disponível                                         em:

<https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/5170/1/PPG_23796.pdf>. Acesso em 25 julho 2019.



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