Imagine o seguinte cenário: um abstêmio
com 18 anos de abstinência recaiu (reintoxicação física). Em seguida, ele é
submetido a um internamento com outras pessoas. O problema é que as pessoas lá
internadas possuem 15 anos de adicção. Em síntese, durante o internamento
tenta-se ajudar, simultaneamente, alguém com 15 anos de adicção e alguém com 18
anos de abstinência no mesmo ambiente e com as mesmas técnicas. Você realmente
acredita que ambos devem ser submetidos à mesma forma de tratamento? Como é
possível que uma pessoa com longo período de abstinência receba a mesma forma
de tratamento de alguém com longo período de adicção? Para resolver esse dilema
existe a TEORIA DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO.
Esse tema de estudo abstemiológico
reflete uma forma de pensar na desintoxicação para o abstêmio que já possuía
longos anos de abstinência e que, infelizmente, recaiu (reintoxicação física).
É um tema avançado de abstemiologia porque exige
a compreensão e aplicação simultânea de diversas definições abstemiológicas. Tentarei ser o mais didático
possível, porém caso o leitor tenha dúvidas sobre alguns
conceitos recomendo que busque esclarecimentos em postagens do nosso site já
que todos os termos técnicos aqui utilizados estão devidamente explicados em
outros estudos.
Exemplificando: imagine uma pessoa que está em abstinência por mais tempo do que esteve em drogadição (Ponto “Z”)2. Assim, por exemplo, a pessoa teve 15 anos de drogadição (mero usuário, usuário abusivo e adicto),mas está em abstinência há 18 anos. Esse abstêmio é classificado como sendo MEGA-ABSTÊMIO. Agora, esse mega-abstêmio, por diversos fatores que não vêm ao caso, recaiu (reintoxicou-se fisicamente), mas os efeitos gerados pelo processo de recaída foram moderados. Nesse caso, terá que se submeter a uma nova desintoxicação. Então, o abstêmio que recai e precisa desintoxicar- se volta ao início do processo de abstinência? Em termos técnicos, o abstêmio que recai sempre retorna ao Ponto “F”3 da escada abstêmia? Vamos responder essas questões no decorrer dos próximos parágrafos.
Para entender como o DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO funciona precisamos conjugar a TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO e a TEORIA DO NÍVEL DOS EFEITOS DA RECAÍDA com diversos outros termos abstemiológicos que servem para delimitar a escada abstemiológica ou escada abstêmia. Assim, o abstêmio após se reintoxicar fisicamente precisa fazer uma análise que compreende, simultaneamente, o seu do tempo de abstinência (lapso temporal abstêmio), efeitos gerados pelo processo de recaída (moderados, graves ou gravíssimos), cálculo do lastro abstêmio e, em seguida, fazer a realocação do vetor da abstinência.
Resolvendo o problema apresentado no
exemplo anterior: a pessoa do exemplo anterior possuía 18 anos de abstinência.
Reintoxicou-se fisicamente, mas o processo de recaída teve efeitos moderados,
ou seja, o numero de segurança pode ser apenas “01”. Assim, podemos formular o
LASTRO ABSTÊMIO da seguinte forma:
·
PERÍODO DE ABSTINÊNCIA ANTERIOR À RECAÍDA:
“18” anos
·
NÚMERO DE SEGURANÇA: “01” porque a recaída teve efeitos moderados (caso a
recaída tivesse gerado efeitos graves ou gravíssimos o número de segurança seria,
respectivamente, 02 ou 03)
·
NÚMERO DE RECAÍDAS: “01” porque foi a primeira
vez que isso aconteceu em “18” anos de
abstinência
·
Fórmula: LASTRO ABSTÊMIO=PERÍODO DE ABSTINÊNCIA
ANTERIOR À RECAÍDA/(NÚMERO DE RECAÍDAS+NÚMERO
DE SEGURANÇA), ou seja, 18/(01+01)=09. Isso indica que o
LASTRO ABSTÊMIO corresponde a 09 (nove) anos de abstinência.
Continuando com o mesmo exemplo
anterior, sabemos que o abstêmio que recaiu era classificado como sendo
MEGA-ABSTÊMIO já que estava em abstinência por mais tempo do que esteve em
drogadição. Todavia, essa recaída (reintoxicação física) reclassifica o abstêmio para
ABSTEMAIOR já que o seu novo
LASTRO ABSTÊMIO será de 09 (nove) anos,
ou seja, muito menos do que os 15 anos de drogadição. Assim, essa única recaída
(reintoxicação física) causou uma nova reclassificação do abstêmio e o DESLOCOU
para um ponto anterior na escada abstemiológica.
Nos exatos termos do exemplo citado,
ocorreu o deslocamento do abstêmio dentro da escada abstemiológica colocando-o
num patamar inferior. A partir desse
novo patamar é que será realizada a desintoxicação, ou seja, houve um DESLOCAMENTO
VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO.
Como dito antes, o vetor da
desintoxicação não retornou ao Ponto “F” da escada abstemiológica porque o
abstêmio que recaiu NÃO estava vindo da adicção em si, mas, pelo contrário, o
abstêmio vinha de 18 anos em abstinência. A desintoxicação em si, é uma questão
clínica (médica) e poderá ocorrer da mesma forma para qualquer pessoa
intoxicada: quer seja abstêmio, quer seja adicto. O problema abstemiológico que
temos surge quando se tenta adotar o mesmo tratamento ou aplicar a mesma
técnica para quem passou pela
desintoxicação vindo de 15 anos de adicção e quem vem de 18 anos em abstinência.
Para resolver essa questão entendo que
houve um DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO de modo que podem existir dois
pontos de desintoxicação na escada abstemiológica:
(I) O
Ponto “F” que corresponde à desintoxicação de quem vinha de um passado
mergulhado na adicção, ou seja, o Ponto “F” é a desintoxicação da pessoa em
processo de adicção.
(II) O
Ponto “DETOX” que corresponde à desintoxicação (nesse caso, detoxificação) de
quem vinha de um passado abstêmio, ou seja, o Ponto “DETOX” é a desintoxicação
da pessoa em processo de abstinência.
Entendo que o abstêmio com longos anos
de abstinência, caso recaia (reintoxicação física) sofrerá tecnicamente uma
desintoxicação, mas abstemiologicamente apenas uma DETOXIFICAÇÃO. Embora, em
ambos os casos, tanto a desintoxicação quanto a detoxificação representam, em apertada síntese, a eliminação de
xenobióticos no organismo4.
Essa sutil diferença se baseia no fato de que a desintoxicação em termos abstratos – e não médicos ou clínicos – exige uma biopsicossocioespiritual transformação do ser. A desintoxicação serve para retirar a droga/álcool do organismo e, simultaneamente, dar possibilidade para que a pessoa entenda a necessidade de iniciar sua abstinência. A função da desintoxicação, para a abstemiologia, é dar a possibilidade de que a pessoa adquira o mínimo de lucidez para iniciar e manter sua abstinência. A desintoxicação da pessoa adicta é uma tentativa dada para ela alcançar a LUCIDEZ ABSTÊMIA. Raramente a lucidez abstêmia se manifesta em pessoas intoxicadas pelo longo período de uso de drogas/álcool. Em regra, precisa haver uma desintoxicação, por menor que seja.
Em outra toada, temos o abstêmio com
longos anos de abstinência e que recaiu (reintoxicou-se fisicamente). Nesse caso, o abstêmio já possui LUCIDEZ ABSTÊMIA e pode decidir livremente se deseja
permanecer em abstinência ou abandonar seu processo abstêmio e retornar ao
universo da adicção. Para essa pessoa
NÃO se exige uma biopsicossocioespiritual transformação de modo que basta uma
DETOXIFICAÇÃO.
Em resumo, podemos compreender a TEORIA
DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO como:
(a) Aplicação prática
da TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO;
(b)
Análise do lastro abstêmio de forma
que o abstêmio pode ser submetido a novo internamento ou regime de
desintoxicação mais severo. Isso depende do tamanho do lapso abstêmio, do
número de recaídas e do nível dos efeitos produzidos pelas recaídas;
(c)
Necessidade de reclassificar o
abstêmio que recaiu (reintoxicou-se fisicamente);
(d) Forma de determinar o Ponto “DETOX”;
(e)
Mecanismo de diferenciação entre as
pessoas que vêm do passado adicto e precisam se desintoxicar (Ponto “F”) e as
pessoas que vêm do passado abstêmio e precisam se detoxificar (Ponto “DETOX”);
(f)
Forma de (auto)diagnosticar a
necessidade, ou não, de uma biopsicossocioespiritual transformação;
(g) Demonstração clara e inequívoca da necessidade de aplicar técnicas e mecanismos de tratamento diferentes para pessoas que recaiam após longos anos de abstinência já que não podem ser utilizadas as mesmas técnicas daqueles que vêm de longos anos de drogadição.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
2 Ponto Ziemmermann ou Ponto “Z”: momento em que se iguala todo o somatório do tempo correspondente ao período de drogadição ao período de abstinência. É o dia da boda de diamante. Surgimento do MEGA-ABSTÊMIO e início do desenvolvimento do 13º passo ou passo cosmoético.
3 Ponto “F”: Representa o fim da adicção. É momento anterior ao Ponto “R”, porque ainda não existe a desintoxicação. Pode consistir em óbito ou abstinência. Se for abstinência, poderá ser oriunda da simples interrupção do uso de drogas/álcool (com ou sem internamento) ou recaída “de ouro”. É, simultaneamente, o dia da boda de ouro, o dia “D” e o “marco zero”. É a primeira manifestação de lucidez abstêmia. É comum a ocorrência de insights no ponto “F”. É o início do período de abstêmio mínimo ou ínfimo.
4 QUENTAL, Ana Raquel de Pinho Sousa. ANÁLISE TOXICOLÓGICA DA COCAÍNA E DOS SEUS METABÓLITOS EM CONTEXTO FORENSE.
Universidade Fernando Pessoa: Porto, 2015. Trabalho apresentado à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para obtenção do grau de Mestre em Ciências Farmacêuticas. Disponível em:
<https://bdigital.ufp.pt/bitstream/10284/5170/1/PPG_23796.pdf>. Acesso em 25 julho 2019.

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