Para entender a teoria da adjetivação da abstinência precisamos, principalmente, reconhecer que diversas atividades, fatos cotidianos, crenças ou pensamentos precisam ser adjetivados para que possam pertencer ao universo abstêmio. A adjetivação desses termos muda significativamente a amplitude e a dimensão de seus valores. Por exemplo, o LAZER de uma pessoa que não tenha passado pelo processo de adicção é muito diferente do lazer de alguém que tenha rompido com o ciclo adicto. Isso ocorre porque o abstêmio terá uma forma de LAZER muito mais restrita2 já que deverá evitar certas pessoas, hábitos e lugares da sua época da ativa. Essa diferenciação entre o LAZER da pessoa comum e o LAZER da pessoa abstêmia exige, necessariamente, uma adjetivação, ou seja, o LAZER comum é diferente do LAZER ABSTÊMIO.
O mesmo raciocínio ocorre com vários outros eventos cotidianos, assim
temos:
v
atividade física ≠ atividade física abstêmia
v
saúde ≠ saúde abstêmia
v educação ≠ educação abstêmia
v foco/objetivo ≠ objetivo abstêmio
v
relacionamentos ≠ relacionamentos abstêmios
v trabalho/profissão ≠ profissão abstêmia
v cultura
≠ cultura abstêmia
v responsabilidade ≠ responsabilidade abstêmia
Continuando, o mesmo exemplo
anterior, no caso do LAZER ABSTÊMIO. Como dito antes, o lazer comum é muito diferente
do lazer abstêmio. Enquanto no lazer comum as
pessoas podem passear livremente, frequentarem festas e, até mesmo, ingerirem
bebidas alcoólicas, no lazer abstêmio esses fatos não ocorrerão. O
lazer abstêmio consiste em um lazer qualificado
ou diferenciado. O lazer abstêmio também é diversão, mas uma diversão
muito mais consciente. O lazer abstêmio também representa diversão,
passeios, entretenimento e brincadeiras, mas sem o uso de drogas/álcool e com a aplicação de, pelo menos,
a técnica do “evite pessoas,
O mínimo
para obter o lazer abstêmio é somar ao lazer comum à técnica do “evite e do procure”.
Contudo, para haver mais segurança, seria interessante que
o abstêmio somasse outras técnicas e fizesse do seu lazer abstêmio
algo mais protetivo.
Ao
desenvolver todos
esses
aspectos, surgem
as
ideias
de
qualificadores e quantificadores abstêmios.
QUANTIFICADORES E QUALIFICADORES ABSTÊMIOS4
É importante que os profissionais, os familiares, os reeducadores abstêmios5 e os próprios abstêmios readéquem seus
conceitos. Os conceitos que são
utilizados no cotidiano comum ou no processo de adicção devem ser reorganizados, reestruturados e readequados a novas definições
e paradigmas. Nesse diapasão, surge a necessidade de quantificar e qualificar a abstinência.
O melhor
quantificador abstêmio que
existe
é
o
tempo. Esse elemento cronológico traz um caráter
dinâmico
ao
processo
de abstinência fazendo com que a jornada
abstêmia não permaneça estática e imutável.
A mudança na vida da pessoa que se submete
ao
caminho abstêmio
ocorrerá de maneira
progressiva de modo que quanto
mais tempo ela permanecer abstêmia,
maior será a sua metamorfose6.
Por isso,
em regra, a abstinência tende a ser evolutiva já que auxilia no desenvolvimento ético, social, intelectual, psicológico,
biológico e espiritual
do abstêmio. Isso se materializa nas diversas nomenclaturas e
definições dadas ao abstêmio
de acordo com seu tempo de abstinência: abstêmio ínfimo, abstêmio menor, abstêmio
maior, abstêmio maior real e mega-abstêmio.
Entretanto,
o tempo abstêmio não corresponde ao
mesmo entendimento dado ao tempo comum. É que o tempo comum corresponde, apenas, ao transcurso de um lapso cronológico. Enquanto
que, no tempo abstêmio, esse
Seguindo esse mesmo raciocínio, as qualificadoras abstêmias correspondem à adjetivação de certos termos técnicos que precisam ser ligeiramente remodelados. Nesse sentido, para exemplificar,
cito
um pequeno rol de expressões que devem ser reconceituadas para que
possam, de fato, qualificar a abstinência:
v Limite abstêmio é diferente
de limites físicos
ou emocionais.
v
Responsabilidade
abstêmia é diferente da mera
responsabilidade.
v
Lucidez abstêmia
é diferente de lucidez.
v
Idade abstêmia
é diferente de idade física ou emocional.
v
Disciplina abstêmia é diferente
de disciplina.
v Processo abstêmio é diferente
de tratamento da adicção.
v Espiritualidade abstêmia é diferente de espiritualidade e de religião.
v (RE)Educador abstêmio é um profissional diferente dos profissionais ligados ao processo de adicção.
v Princípios abstêmios são diferentes de outros princípios.
v Evolução consciencial abstêmia não corresponde à evolução consciencial comum.
v Assistência abstêmia
é diferente da mera assistência.
v Dignidade humana abstêmia é uma qualificação da dignidade humana.
v
Direito humano abstêmio é um direito humano qualificado.
v Tempo abstêmio é diferente
do tempo comum.
v Desenvolvimento abstêmio difere
do mero desenvolvimento.
Todos esses
elementos – e muitos outros já que esta lista é
meramente exemplificativa – devem ser
remodelados para melhor compreenderem o real
significado abstemiológico que os reveste.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
2 Prefiro a terminologia “diferenciada” ao invés de “restrita”.
3 Essa é a técnica que sinaliza o seguinte raciocínio: evite pessoas, hábitos e lugares da época da adicção e procure pessoas, hábitos e lugares da nova vida abstêmia.
4 Esses temas também estão apresentados no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Princípios abstemiológicos. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 165 p.; 14 X 21 cm. ISBN 978-85-924432-1-4. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
5 O terapeuta JOSÉ PLÍNIO DO AMARAL ALMEIDA sugere o termo “abstemiológos” quando estivermos nos referindo a pessoas que trabalham ou estudam o fenômeno abstêmio.
6 Aqui, a metamorfose é a transmutação da pessoa adicta em pessoa abstêmia, ou seja, uma verdadeira ALQUIMIA ABSTÊMIA.
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