Instagram: marcelo.braga73

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Vacinas de Abstinência 1/33 - TEORIA POLIÉDRICA DA ADICÇÃO

 




Para a compreensão do que seja adicção optamos por uma TEORIA POLIÉDRICA DA ADICÇÃO2. Explico. A adicção pode ser analisada sob diversos ângulos como se fossem as faces de um diamante ou os diversos lados de algum poliedro. Assim, quando focamos na adicção, sob o ponto de vista dos efeitos da drogadição no corpo humano, teremos o estudo apenas de um dos lados desse poliedro, qual seja o lado físico, bioquímico ou médico. Entretanto, não nos parece que a adicção tenha apenas esse viés. Ao que tudo indica, a adicção deve ser analisada através de diversas outras facetas. Para exemplificar, podemos analisar a adicção através dos seguintes métodos:

·     Análise médica ou análise da adicção como doença: tenta explicar a adicção como doença através dos efeitos da drogas/álcool no corpo humano e como se desenvolve biologicamente a adicção em algumas pessoas, e em outras não. Define-se a adicção como doença e que precisa de tratamento. Aqui surgem as formas de “curar” a adicção através de medicamentos, procedimentos clínicos (desintoxicação, eletroestimulação), remédios miraculosos e que ainda não foram autorizados pelos órgãos públicos de controle, entre outros.

·     Análise social: aqui a adicção é explicada através de estudos sociais, por exemplo: existem drogas de ricos e drogas de pobres, o uso de drogas/álcool na população infanto-juvenil, o uso de drogas/álcool na terceira idade ou a associação do uso de drogas/álcool com determinadas profissões. Nessa área, surgem as teorias de que as pessoas de classes subalternas estão mais suscetíveis a drogadição que aqueles das classes superiores ou de que existem drogas mais sociáveis. Todo esse estudo da drogadição – e muito mais – se baseia em critérios sociais, econômicos, etários, antropológicos ou políticos.

·     Análise histórica ou cultural: nesse método de estudo da adicção se leva em consideração dados e informações históricas. Aqui, discute-se a drogadição baseada na origem das drogas e do álcool na humanidade e o desenvolvimento da cultura de cada povo associada a esse uso.


·     Análise religiosa: estudo de que o motivo que levou a pessoa a drogadição foi à ausência de “Deus no coração”. Para essa forma de abordagem da adicção surgem comunidades terapêuticas, depoimentos de “cura miraculosa” da adicção, formas rezar e pedir a abstinência, entre outros. Não se pode negar que muitas pessoas deixam de utilizar drogas/álcool através desse método. O fator extrafísico existe e deve ser levado em consideração, mas será que Deus tem alguma coisa haver com isso, ou não, é uma discussão desnecessária.

·     Análise psicológica: utiliza-se de teorias psicológicas para explicar a adicção, tais como: a psicanálise ou a terapia cognitivo- comportamental. Modernamente, entende-se a adicção como sendo um comportamento apreendido. É comum que outras ciências tentem aplicar seus métodos aos adictos e ao processo de adicção. Para se estudar o processo de adicção em sua estrutura básica, buscam-se soluções “importadas” de diversas ciências.

·     Análise temporal ou cronológica: é o estudo da drogadição e do adicto durante a evolução progressiva do uso. Por exemplo, o período de mero uso recreacional e esporádico de drogas/álcool, posteriormente, o uso abuso crescente e abusivo e, por último, a eclosão do vício de drogas/álcool.

·     Análise moral: é a definição de adicção como sendo a manifestação de defeitos de caráter de modo que, apenas, aqueles que têm caráter fraco é que tornam adictos. Essa forma de analisar a adicção é a que predomina, em ampla maioria, na sociedade brasileira.

·     Análise conscienciológica: a adicção deriva do núcleo duro do orgulho, da teimosia e da arrogância. Esses três elementos formam o centro de onde emana todo o processo de adicção. Esse núcleo é de onde emanam todos os atos de drogadição, de exagero, de autossuficiência e de excesso que caracterizam o processo de adicção.

Esse estudo NÃO optou em dar uma nova visão sobre o processo de adicção. Por outro lado, a proposta que será apresentada consiste em entender, desenvolver e compreender as diversas formas de como podemos resolver o problema da adicção. Nesse sentido, surge o estudo do modo de romper com o processo de adicção. Então, não é mais a adicção que interessa, mas o modo de como será possível superar tal processo. Assim, não interessa “o que é”, “porquê” ou “como” se desenvolveu a adicção. Por sua vez, o objeto a ser analisado será a sobriedade e o processo de se obter a abstinência. Para tanto, vamos nos aprofundar  na  ANÁLISE  ESTRUTURAL  ou  MODELO  ABSTINENTE-

ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE (Modelo A-A-S)3  que tem por escopo processo de abstinência. Assim, o corte para estudo epistemológico se faz em outro ciclo, no ciclo da abstinência. É a análise do modo de interromper o círculo de drogadição e de recaídas que interessa e NÃO o processo adicção.


O Modelo A-A-S deve analisar “o que” e “o como” é possível manter a abstinência. É um estudo da evolução consciencial da pessoa que está inserida no processo abstêmio. Assim, a adicção pode continuar sendo estudada    pelo    MODELO    DOENTE-DOENÇA-DEPENDÊNCIA

(Modelo D-D-D), entretanto, a abstinência passa a ser analisada pelo modelo  ABSTINENTE-ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE  (Modelo  A-A- S).

A estrutura ABSTINENTE-ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE pode ser estudada, após o estabelecimento de seus conceitos gerais, da prevenção de recaída, das síndromes, dos períodos de abstinência, dos efeitos abstêmios, dos princípios abstêmios e da participação de terceiros no processo abstêmio. O objetivo da análise estrutural ou Modelo A-A-S é a substituição de paradigmas, ou seja, procura-se substituir o atual modelo de adicção por um modelo futuro de sobriedade.

O modelo de sobriedade almejado pelo novum abstêmio e pelos seus familiares/cuidadores deve ser o objeto central da análise estrutural. Então, os motivos pelos quais a dependência eclodiu na vida do adicto importam menos do que o modo pelo qual a sobriedade pode ser alcançada na vida do abstêmio. De fato, isso altera o paradigma atual já que a sobriedade passa a ser um dos objetivos do processo abstêmio, mas não o único.

O modelo de abstinência a ser alcançado é que deve ser o propósito do estudo e da análise estrutural da abstinência. A grande mudança teórica que se faz é a substituição da ideia de doença pela ideia de abstinência.

O que as famílias, terapeutas4, cuidadores e, principalmente, os abstêmios almejam não é informação sobre seu estado atual, mas sobre a forma de como podem superar a crise que se instalou. Para isso, o conhecimento empírico é de fundamental relevância que o modo de romper com o processo de adicção se baseia, profundamente, em tais informações. A alteração paradigmática dos modelos pode ser sintetizada pelo seguinte quadro comparativo



 

PARADIGMAS COMPARADOS

 

P A S S A D O

 

 

MODELO D-D-D

 

DOENTE DOENÇA DEPENDÊNCIA

DOENTE ADICTO VICIADO PACIENTE DROGADO DEPENDENTE USUÁRIO

DOENÇA COMPULSÃO OBSESSÃO USO ABUSIVO DESEJO DESCONTROLE MEIO SOCIAL

ORIGEM ÉTNICA MAU-CARÁTER

DEPENDÊNCIA DROGAS COMPRAS SEXO INTERNET RELIGIÃO JOGOS ALIMENTOS TRABALHO

 

PESSOA

 

VÍNCULO

 

 

F U T U R O

 

MODELO A-A-S

 

ABSTINENTE ABSTINÊNCIA SOBRIEDADE

 

 

 

ABSTINENTE MEMBRO DE A.A. ou N.A.

RECUPERANDO ABSTÊMIO MENOR ABSTÊMIO MAIOR PÓS-ABSTÊMIO

ABSTINÊNCIA BOM SENSO MODERAÇÃO LUCIDEZ

JUÍZO CRÍTICO CONTROLE ESPIRITUALIDADE

OBJETO

 

VIDA ABSTÊMIA SAÚDE RESPONSABILIDADE

Quadro: Comparação entre Modelo D-D-D (passado) e Modelo A-A-S (futuro).

 

Então, enquanto a recaída é o retorno ao paradigma anterior, à abstinência passa a ser o objeto de estudo do paradigma futuro e desejado. Agora, com o foco do problema deslocado para a solução, ou seja, para a abstinência e sobriedade, podemos começar a estudar os motivos pelos quais é tão difícil migrar do Modelo D-D-D para o Modelo A-A-S.

A questão central não é apenas atingir o Modelo A-A-S, mas como fazer para alcançar esse novo modelo e romper com o modelo anterior. As famílias, os dependentes e os cuidadores buscam incansavelmente o fim da adicção, bem como o rompimento do ciclo doente-doença-dependente e sobrepujamento desse circuito de desgraças e iniquidades. A boa notícia é que a experiência demonstra que o processo de adicção possui vários caminhos que possibilitam sua substituição e mitigação. O objetivo não é estudar a drogadição em si, mas aprender com aqueles que estão há longos períodos em abstinência. O estudo da evolução da consciência daqueles que estão em abstinência, dos seus modos de vida, das suas ambições, das suas aflições, das dificuldades e das suas experiências é o que interessa ao novo Modelo ABSTINENTE- ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE.

 

A experiência demonstra que existem certos critérios comuns a todos os abstêmios. Em geral, a abstinência exige o rompimento com ideias (critérios) meramente emocionais baseados em decisões impulsivas, leviandades e irresponsabilidades. Tais características não são condizentes com o processo de abstinência de longo prazo e devem ser substituídas (substituição de paradigma) por critérios éticos, racionais e espirituais.


1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas.  ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. Distribuído pela Editora Simplíssimo. ISBN: 978-85-924432-2-1.

2 Adaptação do fenômeno poliédrico apresentado pelo italiano Alberto Asquini (1889-1972).

3 Modelo “A.A.S.” é abreviação de: Modelo “ABSTINENTE- ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE”.

4 Terapeutas, cuidadores e profissionais ligados ao processo de abstinência devem ser denominados (RE)EDUCADORES ABSTÊMIOS.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

BUNKER DE ALVÍSSARAS SUSPEITAS

  12.02.2011. Nada que fale além do murmúrio das pedras que estalam no calor que as dilatam entre terrinhas e espinhos que crescem no escald...