Para a
compreensão do que seja adicção optamos por uma TEORIA POLIÉDRICA DA ADICÇÃO2. Explico. A
adicção pode ser analisada sob diversos ângulos como se fossem as faces de um
diamante ou os diversos lados de
algum poliedro. Assim, quando focamos
na adicção, sob o ponto de vista dos efeitos da drogadição no corpo humano,
teremos o estudo apenas de um dos lados desse poliedro, qual seja o lado físico,
bioquímico ou médico. Entretanto, não nos parece que a
adicção tenha apenas esse viés. Ao que tudo indica, a adicção deve ser
analisada através de diversas outras facetas. Para exemplificar, podemos
analisar a adicção através dos seguintes métodos:
·
Análise médica ou análise da adicção como doença: tenta explicar a adicção como doença através dos efeitos
da drogas/álcool no corpo humano e como se desenvolve biologicamente a adicção
em algumas pessoas, e em outras não. Define-se
a adicção como doença e que precisa de tratamento. Aqui surgem
as formas de “curar” a adicção através de medicamentos, procedimentos clínicos
(desintoxicação, eletroestimulação), remédios miraculosos e que ainda não foram
autorizados pelos órgãos públicos de controle, entre outros.
· Análise social: aqui a adicção é explicada através de estudos sociais,
por exemplo: existem drogas de ricos e drogas de pobres, o uso de drogas/álcool na população
infanto-juvenil, o uso de drogas/álcool na terceira idade ou a associação do
uso de drogas/álcool com determinadas profissões. Nessa área,
surgem as teorias de que as pessoas de classes subalternas estão mais
suscetíveis a drogadição que aqueles das classes superiores ou de que existem
drogas mais sociáveis. Todo esse estudo da drogadição – e muito mais – se
baseia em critérios sociais, econômicos, etários, antropológicos ou políticos.
· Análise
histórica ou cultural: nesse método
de estudo da adicção se leva em
consideração dados e informações históricas. Aqui, discute-se a drogadição
baseada na origem das drogas e do álcool na humanidade e o desenvolvimento da
cultura de cada povo associada a esse uso.
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· Análise religiosa: estudo de que o motivo que levou a pessoa a drogadição foi à ausência de “Deus no
coração”. Para essa forma de abordagem da
adicção surgem comunidades terapêuticas, depoimentos de “cura
miraculosa” da adicção, formas rezar e pedir a abstinência, entre outros.
Não se pode negar que muitas pessoas
deixam de utilizar drogas/álcool através desse método. O fator extrafísico existe e deve ser levado
em consideração, mas será que Deus tem alguma coisa haver com isso, ou não, é
uma discussão desnecessária.
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· Análise
psicológica: utiliza-se de teorias
psicológicas para explicar a adicção, tais como: a psicanálise ou a terapia
cognitivo- comportamental. Modernamente, entende-se a adicção como sendo um comportamento apreendido. É comum que
outras ciências tentem aplicar seus métodos aos adictos e ao processo de
adicção. Para se estudar o processo de adicção em sua estrutura básica,
buscam-se soluções “importadas” de diversas ciências.
·
Análise temporal ou cronológica: é o estudo da drogadição e do adicto durante a evolução progressiva
do uso. Por exemplo, o período de mero uso recreacional e esporádico de
drogas/álcool, posteriormente, o uso abuso crescente e abusivo e, por último, a
eclosão do vício de drogas/álcool.
· Análise moral: é a definição de adicção como sendo a manifestação de
defeitos de caráter de modo que, apenas, aqueles que têm caráter fraco é que tornam adictos.
Essa forma de analisar a adicção
é a que predomina, em ampla maioria,
na sociedade brasileira.
· Análise
conscienciológica: a adicção deriva do núcleo duro
do orgulho, da teimosia e da arrogância. Esses três elementos formam o centro
de onde emana todo o processo de adicção. Esse núcleo é de onde emanam todos os
atos de drogadição, de exagero, de autossuficiência e de excesso que
caracterizam o processo de adicção.
Esse estudo NÃO optou em dar uma nova visão sobre o processo de adicção. Por outro lado, a proposta que será apresentada consiste em entender, desenvolver e compreender as diversas
formas de como podemos resolver o problema da adicção. Nesse sentido, surge o estudo do modo de romper com o processo
de adicção. Então, não
é mais a adicção que interessa, mas o modo de como será possível superar tal
processo. Assim, não interessa “o que é”, “porquê” ou “como” se desenvolveu a
adicção. Por sua vez, o objeto a ser analisado será a sobriedade e o processo
de se obter a abstinência. Para tanto, vamos nos aprofundar na ANÁLISE ESTRUTURAL ou MODELO ABSTINENTE-
ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE (Modelo A-A-S)3 que tem por escopo o
O Modelo A-A-S deve analisar “o
que” e “o como” é possível manter a abstinência. É um estudo da evolução
consciencial da pessoa que está inserida no processo abstêmio. Assim, a adicção pode continuar sendo
estudada
pelo MODELO DOENTE-DOENÇA-DEPENDÊNCIA
(Modelo
D-D-D), entretanto, a abstinência passa a ser analisada pelo modelo ABSTINENTE-ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE (Modelo A-A-
S).
A estrutura
ABSTINENTE-ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE pode ser estudada, após o estabelecimento de
seus conceitos gerais, da prevenção de recaída, das síndromes, dos períodos de
abstinência, dos efeitos abstêmios, dos
princípios abstêmios e da participação de terceiros no processo abstêmio. O
objetivo da análise estrutural ou Modelo A-A-S é a substituição de paradigmas,
ou seja, procura-se substituir o atual modelo de adicção por um modelo futuro
de sobriedade.
O modelo de sobriedade almejado
pelo novum abstêmio e pelos seus
familiares/cuidadores deve ser o objeto central da análise estrutural. Então, os
motivos pelos quais a dependência eclodiu na vida do adicto importam menos do que o modo pelo qual a
sobriedade pode ser alcançada na vida do abstêmio.
De fato, isso altera o paradigma
atual já que a sobriedade passa a ser um dos objetivos do processo abstêmio, mas não o único.
O modelo de
abstinência a ser alcançado é que deve ser o propósito do estudo e da análise estrutural
da abstinência. A grande mudança teórica que
se faz é a substituição da ideia de doença pela ideia de abstinência.
O que as famílias, terapeutas4, cuidadores e, principalmente, os abstêmios almejam não é informação sobre seu estado atual, mas sobre a forma de como podem superar a crise que se instalou. Para isso, o conhecimento empírico é de fundamental relevância já que o modo de romper com o processo de adicção se baseia, profundamente, em tais informações. A alteração paradigmática dos modelos pode ser sintetizada pelo seguinte quadro comparativo
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|
PARADIGMAS COMPARADOS |
||||
|
P A S S
A D
O |
MODELO D-D-D DOENTE DOENÇA DEPENDÊNCIA |
|
DOENÇA COMPULSÃO OBSESSÃO USO ABUSIVO DESEJO
DESCONTROLE MEIO
SOCIAL
|
DEPENDÊNCIA DROGAS COMPRAS SEXO INTERNET RELIGIÃO JOGOS ALIMENTOS TRABALHO |
|
|
|
VÍNCULO |
|
|
|
F U T U
R O |
|
|||
|
MODELO A-A-S ABSTINENTE ABSTINÊNCIA SOBRIEDADE |
ABSTINENTE MEMBRO DE A.A. ou N.A. RECUPERANDO ABSTÊMIO MENOR ABSTÊMIO MAIOR
PÓS-ABSTÊMIO |
ABSTINÊNCIA BOM SENSO
MODERAÇÃO LUCIDEZ JUÍZO CRÍTICO CONTROLE ESPIRITUALIDADE |
VIDA ABSTÊMIA SAÚDE RESPONSABILIDADE |
|
Quadro: Comparação entre Modelo D-D-D (passado) e Modelo A-A-S (futuro).
Então, enquanto
a recaída é o retorno
ao paradigma anterior,
à abstinência passa a ser o objeto de estudo do paradigma futuro e
desejado. Agora, com o foco do problema deslocado para a solução, ou seja, para
a abstinência e sobriedade, podemos começar a
estudar os motivos pelos quais é tão difícil migrar do Modelo
D-D-D para o Modelo A-A-S.
A questão central não é apenas
atingir o Modelo A-A-S, mas como fazer para alcançar esse novo modelo e romper
com o modelo anterior. As famílias, os dependentes e os cuidadores buscam
incansavelmente o fim da adicção, bem como o rompimento do ciclo
doente-doença-dependente e sobrepujamento desse circuito de desgraças e
iniquidades. A boa notícia é que a experiência demonstra que o processo de adicção
possui vários caminhos que possibilitam sua substituição e mitigação. O
objetivo não é estudar a drogadição em si, mas aprender com aqueles que estão
há longos períodos em abstinência. O estudo da evolução
da consciência daqueles que estão em abstinência, dos seus modos de vida, das
suas ambições, das suas aflições, das dificuldades e das suas experiências é o
que interessa ao novo Modelo ABSTINENTE- ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE.
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A
experiência demonstra que existem certos critérios comuns a todos os abstêmios.
Em geral, a abstinência exige o rompimento com ideias (critérios) meramente
emocionais baseados em decisões impulsivas, leviandades e irresponsabilidades.
Tais características não são condizentes com o processo de abstinência de longo
prazo e devem ser substituídas (substituição de paradigma) por critérios
éticos, racionais e espirituais.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. Distribuído pela Editora Simplíssimo. ISBN: 978-85-924432-2-1.
2 Adaptação do fenômeno poliédrico apresentado pelo italiano Alberto Asquini (1889-1972).
3 Modelo “A.A.S.” é abreviação de: Modelo “ABSTINENTE- ABSTINÊNCIA-SOBRIEDADE”.
4 Terapeutas, cuidadores e profissionais ligados ao processo de abstinência devem ser denominados (RE)EDUCADORES ABSTÊMIOS.





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