A recaída não é um mero fato, mas o
resultado de um processo2.
Portanto, a recaída entendida como
a reintoxicação física é apenas a última fase do processo de recaída3. Para entender como se desenvolve o
processo de recaída, precisamos decompô-lo da
seguinte forma:
Quadro: Desdobramento fático
da recaída.
Desse modo, é possível
entender a linha de desdobramento fático da recaída
PIRÂMIDE DA RECAÍDA
ANALISANDO A PIRÂMIDE
DA RECAÍDA
A recaída é um processo
que culmina com a reintoxicação do abstêmio, mas que
se inicia muito antes desse ato.
Reintoxicação física: é a última
etapa do processo de recaída, culminado com o uso efetivo de
drogas/álcool. É a recaída real.
Reintoxicação emocional: são os fatos
antecipadores imediatamente anteriores ao uso de drogas/álcool, tais como
comprar ou pedir drogas/álcool. É a “recaída emocional”.
Fatos auxiliadores antecedentes: são as
artimanhas para o uso. Por exemplo, discussões desnecessárias, mentiras, ardil,
fuga, obtenção de meios, aumento da irritabilidade ou isolamento.
Fatos cognitivos estratégicos: ocorrem internamente, apenas na mente da pessoa, como desorganização
mental e cogitações de uso.
Fatos cognitivos permissivos: constituem-se pela manutenção de reservas, teimosia, ausência de flexibilização conceitual. É uma espécie de orgulho, mas, como é um orgulho exagerado, é comum dizer que é orgulho inflado.
Então, a recaída entendida como
reintoxicação física se inicia muito antes, mas quando se inicia a recaída? Nos
fatos cognitivos permissivos: acompanham a pessoa desde a interrupção do uso de
drogas/álcool e não são eliminados pelo seu juízo de criticidade, já que há ausência de lucidez abstêmia
e falta de aplicação da técnica
do triângulo da recuperação (honestidade – boa vontade – mente aberta).
FENÔMENO DA RECAÍDA SEM FISSURA
Parece que é comum a existência de recaída sem fissuras, ou
seja, a recaída não exige necessariamente a existência de uma fissura que será
saciada através do reuso de drogas/álcool. Ao entender que existem dois
processos de recaídas independentes (FÍSICA e EMOCIONAL), podemos perceber que
a recaída não exige uma pré-fissura.
A fissura, inclusive, não faz parte da recaída, visto que ocorre antes mesmo da
recaída. É possível recair sem fissura e, por sua vez, é possível ter fissura e
não recair. A fissura não faz parte nem mesmo da recaída emocional.
A
recaída emocional, como visto antes,
é um processo que se desenvolve antes da
recaída física. A fissura, entretanto, depende de acionamento de gatilhos. São
dois assuntos diferentes e com resultados diferentes, de modo que a recaída
leva a pessoa ao REUSO, enquanto a fissura pode conduzir ou não à RECAÍDA.
Assim, temos que a relação que ocorre é entre GATILHO-FISSURA e RECAÍDA
EMOCIONAL - RECAÍDA FÍSICA. Deste modo, a fissura não significa recaída
emocional e, muito menos, recaída física.
|
FASES DA FISSURA |
FASES DA RECAÍDA |
|
Ausência
de aplicação de técnicas para evitar acionamento dos gatilhos |
Reintoxicação física
ou real |
|
Gatilhos acionados |
Reintoxicação emocional |
|
Fase assintomática |
Fatos auxiliadores antecedentes |
|
Fase sintomática |
Fatos cognitivos estratégicos |
|
Ausência
de aplicação de técnicas para evitar fissura |
Fatos cognitivos permissivos |
Quadro: Comparação entre fases da fissura e fases da recaída.
Ao que tudo indica, a recaída
também possui seu caráter pedagógico, já que demonstra de forma escancarada ao
abstêmio que seu modo de lidar com o processo de abstinência não está dando
certo. A recaída é a punição que a vida aplica ao abstêmio desleixado. A irresponsabilidade e o descaso
com o processo de
abstinência serão punidos com a recaída. Aqui é necessário entender a seguinte
diferença: a internação não é punição, já que tem o condão de desintoxicar e
fazer cessar a periculosidade a que a pessoa estava
submetida. Por outro
lado, a recaída é legitimamente a punição que a vida aplica ao abstêmio
negligente. A irresponsabilidade abstêmia se manifesta na forma punitiva como
uma recaída. Assim, a punição pelo descaso com o processo abstêmio será
punida com a recaída, mas jamais com a internação.
Entretanto, a recaída não é apenas
algo desastroso, visto que também possui alguns
efeitos positivos; por exemplo,
mostra ao abstêmio sua arrogância, quebra seu
orgulho, avisa aos outros abstêmios para tomarem cuidado com a possibilidade do restabelecimento do processo de
adicção, demonstra que não houve superação de alguns paradigmas adictos e sinaliza que precisa haver alterações conceituais. Esses efeitos positivos da recaída – e também alguns dos efeitos negativos
– possuem, sem dúvida, um caráter pedagógico.
1 Tema apresentado no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
2 A recaída utilizada como um fato específico refere-se apenas à reintoxicação física, ou seja, o momento em que a pessoa refaz o uso de drogas/álcool. Por vezes, utiliza-se a expressão “recaída” para pessoas que (re)fizeram o uso de drogas/álcool, porém existe a recaída emocional, por exemplo, e nesses casos não houve uso de drogas/álcool. Analisar a recaída como sendo um processo nos parece ser mais realista e condizente com o cotidiano abstêmio. Por outro lado, analisar a recaída como sendo um fato parece ser mais coerente com o universo da adicção.
3 Esses temas também estão apresentados no Livro e Ebook:
ZIEMMERMANN, Péricles. Princípios abstemiológicos. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 165 p.; 14 X 21 cm. ISBN 978-85-924432-1-4. Distribuído pela Editora Simplíssimo.
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