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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 30/35 - Peculiaridades do Ponto "F"

 

PECULIARIDADES DO PONTO “F”¹


O ditado popular de que a adicção termina em “cadeia, clínica ou caixão” é verdadeira? Essa “crença” deve ser aceita como verdade? Existe outra solução? A seguir discutiremos esses temas.

 

Popularmente, é comum a informação de que o uso de drogas/álcool termina de três formas: cadeia, clínica2 ou caixão. Esse é o famoso “CCC” (ou três Cs) do fim da adicção. Todavia, fazendo um estudo um pouco mais atento, podemos observar que isso não representa toda a verdade. Por quê? Vejamos.

 

A questão central é saber “como” a adicção vai terminar. A resposta é muito simples: a adicção termina quando cessar definitivamente o uso de drogas/álcool. A cessação do uso de drogas/álcool vai “parar” também a adicção. Então quais são as formas de “parar”3 de usar drogas/álcool?


Entendemos que o fim da adicção pode ser voluntário ou involuntário, ou seja, a adicção é algo que já nasceu com data certa para terminar. Assim sendo, podemos dizer que a adicção vai terminar, quer o adicto queira ou não.

 

O fim da adicção entendido como sendo involuntário pode ocorrer de diversas formas. Por exemplo:

1.   Morte involuntária do adicto: a título de exemplo, morte prematura da pessoa por overdose acidental, violência contra o adicto (homicídio, lesão corporal gravíssima), violência do adicto contra outra pessoa (alguém atuando em legítima defesa causa a morte do adicto), acidente de trânsito culposo, morte pela traficância, violência doméstica, morte em confrontos com a polícia etc.

 

2.  Abstinência forçada: a pessoa adicta é forçada a ficar em abstinência por motivos diversos, tais como:

2.1     Debilidade mental que torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.: esquizofrenia grave, invalidez mental permanente, depressão grave etc.

2.2   Debilidade física permanente que torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.: AVC, câncer no pulmão ou fígado, diabetes avançada etc.

2.3   Internamento permanente. Ex.: manicômio judiciário ou grandes períodos de prisão que acabam gerando a desintoxicação e abstinência.

Assim, o fim da adicção de forma involuntária resultará na morte ou na abstinência forçada (debilidade mental, debilidade física ou internamento permanente).

 

Em outro diapasão, o fim da adicção também pode ocorrer de maneira voluntária.

Mas como? Através de:

1.    Morte voluntária: por exemplo, suicídio direto, suicídio indireto (acidente de trânsito doloso), overdose volitiva, permanência perpétua na vida adicta (adicto que permanece adicto até o final de sua vida e ingeriu drogas/álcool até morrer pela falência de seus órgãos ou comorbidades correlatas).


2.  Abstinência “voluntária”: por exemplo, a pessoa deixou a adicção para trás e não usa drogas/álcool. Essa interrupção pode se iniciar por meio de internamentos, sozinho, com ajuda de grupos anônimos (A.A. ou N.A.) ou com ajuda de terceiros etc.

 

A crítica abstemiológica que se faz ao dito popular de que a “adicção termina em clínica, caixão ou cadeia” é que a cadeia e a clínica NÃO são formas de interromper a adicção. O que interrompe a adicção não é ficar preso, mas é parar de usar drogas/álcool. Da mesma forma, o que interrompe a adicção não é a “clínica”, mas é parar de usar drogas/álcool. A abstinência gerada pela prisão ou pela clínica é o que interrompe a adicção.

 

Entretanto, por óbvio, o caixão, representando a morte, de fato interrompe o processo adicto. Contudo, impende asseverar que a morte não interrompe a adicção por superar o modelo adicto, mas porque não existirá mais a pessoa que era adicta. A morte (caixão) elimina a “pessoa da adicção”, e não a “adicção da pessoa”.

 

Assim, temos o seguinte quadro:

 

·      CADEIA pode ser um meio involuntário de interromper a adicção, desde que a pessoa não continue usando drogas/álcool enquanto estiver preso e nem após sua saída da prisão. Então, o que interrompe a adicção não é a “cadeia”, mas é a abstinência gerada pelo fato de a pessoa adicta ter sido presa.

 

·      CLÍNICA – pode ser um meio de interromper a adicção, desde que a pessoa não continue usando drogas/álcool quando sair da clínica. Então, o que interrompe a adicção não é a clínica, mas é a abstinência gerada pelo fato de a pessoa ter sido internada.

 

·      CAIXÃO – é efetivamente um meio de interromper a adicção, seja pela morte voluntária ou involuntária. A morte interrompe o processo de adicção, mas não pelo fim do uso das drogas/álcool, e sim pelo fim da pessoa que usava drogas/álcool.

 

Então, pelo raciocínio exposto, a adicção termina somente de duas formas: morte ou abstinência. Ao que tudo indica, seja pela morte ou pela abstinência, de um jeito ou doutro a adicção vai terminar.

 

Agora vem um ponto muito importante. Como a morte não representa o fim do uso de drogas/álcool, mas sim o fim da pessoa que usava drogas/álcool, pergunto: como uma pessoa “viva” que é adicta pode ficar sem usar drogas/álcool? Somente de uma forma: pela abstinência. Não existe outra maneira, não há outro caminho. Se a pessoa que era adicta quiser permanecer “viva” e “sem o uso de drogas/álcool”, só existe um caminho: a abstinência. Por sua vez, como foi visto anteriormente, a abstinência pode ser alcançada de duas formas: ou a pessoa fica abstêmia de forma voluntária ou a pessoa será abstêmia de forma forçada/involuntária.

 

Concluindo a questão, a adicção não termina em “cadeia, clínica ou caixão”, que são, em geral, apenas formas de se obter a abstinência forçada. Existe outra solução para o fim da adicção: a abstinência voluntária.

 

Resumidamente, o ponto “F” é simultaneamente:

·      Boda dourada, porque representa o vínculo ou compromisso do abstêmio com o novo processo de abstinência que surge.

·      Dia “D”, porque sinaliza o primeiro dia de desintoxicação, ou seja, o surgimento do abstêmio mínimo ou ínfimo.

·      “Marco zero”, já que é o primeiro dia do processo de abstinência, bem como o fim do processo de adicção e, consequentemente, da drogadição. Marca o surgimento do Homo abstemius coacto.

·      Primeiro sinal da lucidez abstêmia e, comumente, se relatam diversos

insights referentes a essa data.

·      Originado de duas formas: simples interrupção do processo de adicção ou recaída “de ouro”.


1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

 

2 Aqui se incluem diversos atores utilizados como mecanismos de internamentos: clínicas, comunidades, SPAs, retiros espirituais, entre outros.

3 Convém informar que existem duas formas de cassação do uso de drogas/álcool: mera suspensão interrupção definitiva. A mera suspensão ocorre quando o abstêmio “parou” de usar drogas/álcool, mas ainda não tomou todas as medidas necessárias para obter êxito nesse objetivo. A interrupção definitiva, por sua vez, representa os abstêmios que mantêm longos períodos de abstinência e, quiçá, uma vida inteira nessa condição. Em outras palavras, a mera suspensão é uma pequena parada do uso de drogas/álcool sem propósitos mais ambiciosos e, de outra forma, a interrupção definitiva é colocação de um ponto final na adicção, sinalizando que o abstêmio fez as mudanças necessárias a fim de obter longos períodos de abstinência.


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