PECULIARIDADES DO PONTO “F”¹
O ditado popular de que a adicção
termina em “cadeia, clínica ou caixão” é verdadeira? Essa “crença” deve ser aceita
como verdade? Existe
outra solução? A seguir
discutiremos esses temas.
Popularmente, é comum a informação de
que o uso de drogas/álcool termina de três formas: cadeia, clínica2 ou
caixão. Esse é o famoso “CCC” (ou três Cs) do fim da adicção. Todavia, fazendo
um estudo um pouco mais atento,
podemos observar que isso não representa toda a verdade. Por
quê? Vejamos.
A questão central é saber “como” a adicção vai terminar. A resposta é muito
simples: a adicção termina quando cessar definitivamente o uso de
drogas/álcool. A cessação do uso de drogas/álcool vai “parar” também a adicção.
Então quais são as formas de “parar”3 de usar drogas/álcool?
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Entendemos que o fim da adicção pode
ser voluntário ou involuntário, ou seja, a adicção é algo
que já nasceu com data certa para terminar. Assim sendo, podemos dizer que a
adicção vai terminar, quer o adicto queira ou não.
O fim da adicção entendido como sendo involuntário pode ocorrer de diversas
formas. Por exemplo:
1.
Morte
involuntária do adicto: a título de exemplo, morte
prematura da pessoa por overdose
acidental, violência contra
o adicto (homicídio, lesão corporal
gravíssima), violência do adicto contra outra pessoa (alguém atuando em
legítima defesa causa a morte do adicto), acidente de trânsito culposo, morte
pela traficância, violência doméstica, morte em confrontos com a polícia etc.
2. Abstinência forçada:
a pessoa adicta é forçada a
ficar em abstinência por motivos
diversos, tais como:
2.1 Debilidade
mental que torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.:
esquizofrenia grave, invalidez mental permanente, depressão grave etc.
2.2
Debilidade física permanente que
torne inviável (impossível) permanecer usando drogas/álcool. Ex.: AVC, câncer
no pulmão ou fígado, diabetes avançada etc.
2.3
Internamento permanente. Ex.:
manicômio judiciário ou grandes períodos de prisão que acabam gerando a
desintoxicação e abstinência.
Assim, o fim da adicção de forma involuntária resultará na morte ou na abstinência forçada
(debilidade mental, debilidade física ou internamento permanente).
Em outro
diapasão, o fim da adicção
também pode ocorrer
de maneira voluntária.
Mas como? Através de:
1. Morte voluntária:
por exemplo, suicídio direto, suicídio indireto (acidente de trânsito doloso), overdose volitiva, permanência perpétua
na vida adicta (adicto que permanece adicto até o final de sua vida e ingeriu
drogas/álcool até morrer pela falência de seus órgãos ou comorbidades
correlatas).
2. Abstinência “voluntária”: por exemplo,
a pessoa deixou
a adicção para trás e não
usa drogas/álcool. Essa interrupção pode se iniciar por meio de internamentos,
sozinho, com ajuda de grupos anônimos (A.A. ou N.A.) ou com ajuda de terceiros
etc.
A crítica abstemiológica que se faz ao
dito popular de que a “adicção termina em clínica, caixão ou cadeia” é que a cadeia e a clínica NÃO são formas de interromper a adicção. O que interrompe a
adicção não é ficar preso, mas é
parar de usar drogas/álcool. Da mesma forma, o que interrompe a adicção não é a “clínica”, mas é parar de usar
drogas/álcool. A abstinência gerada pela prisão ou pela clínica é o que
interrompe a adicção.
Entretanto, por óbvio, o caixão, representando a morte, de fato
interrompe o processo adicto.
Contudo, impende asseverar que a morte não interrompe a adicção por superar o
modelo adicto, mas porque não existirá mais a pessoa que era adicta. A morte (caixão) elimina a “pessoa da adicção”,
e não a “adicção da pessoa”.
Assim, temos
o seguinte quadro:
· CADEIA – pode ser um meio
involuntário de interromper a adicção, desde que a pessoa não continue usando
drogas/álcool enquanto estiver preso
e nem após sua saída da prisão. Então, o que interrompe
a adicção não é a “cadeia”, mas é a abstinência gerada pelo fato de a pessoa
adicta ter sido presa.
· CLÍNICA – pode ser um meio de interromper a adicção, desde que a pessoa
não continue usando drogas/álcool quando sair da clínica. Então, o que
interrompe a adicção não é a clínica, mas é a abstinência gerada pelo fato de a
pessoa ter sido internada.
· CAIXÃO
– é efetivamente um meio de interromper a adicção, seja pela morte voluntária
ou involuntária. A morte interrompe o processo de adicção, mas não pelo fim do
uso das drogas/álcool, e sim pelo fim da pessoa que usava drogas/álcool.
Então, pelo raciocínio exposto, a adicção
termina somente de duas formas: morte ou
Agora vem um ponto muito importante.
Como a morte não representa o fim do
uso de drogas/álcool, mas sim o fim da pessoa que usava drogas/álcool,
pergunto: como uma pessoa “viva” que é adicta pode ficar sem usar
drogas/álcool? Somente de uma forma: pela abstinência.
Não existe outra maneira, não há outro caminho. Se a pessoa que era adicta
quiser permanecer “viva” e “sem o uso de drogas/álcool”, só existe um caminho:
a abstinência. Por sua vez, como foi
visto anteriormente, a abstinência pode
ser alcançada de duas formas: ou a pessoa fica abstêmia de forma voluntária ou a pessoa será abstêmia de
forma forçada/involuntária.
Concluindo a questão,
a adicção não termina em “cadeia, clínica
ou caixão”, que são,
em geral, apenas formas de se obter a abstinência
forçada. Existe outra solução para o fim da adicção: a abstinência voluntária.
Resumidamente, o ponto
“F” é simultaneamente:
· Boda dourada, porque
representa o vínculo ou compromisso do abstêmio com o novo processo de
abstinência que surge.
· Dia “D”, porque sinaliza o
primeiro dia de desintoxicação, ou seja, o surgimento do abstêmio mínimo ou
ínfimo.
· “Marco zero”, já que é o primeiro dia do processo de
abstinência, bem como o fim do processo de adicção e, consequentemente, da
drogadição. Marca o surgimento do Homo
abstemius coacto.
· Primeiro sinal
da lucidez abstêmia e, comumente, se relatam diversos
insights referentes a essa
data.
· Originado de duas formas: simples interrupção do
processo de adicção ou recaída “de ouro”.
1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
2 Aqui se incluem diversos atores utilizados como mecanismos de internamentos: clínicas, comunidades, SPAs, retiros espirituais, entre outros.
3 Convém informar que existem duas formas de cassação do uso de drogas/álcool: mera suspensão e interrupção definitiva. A mera suspensão ocorre quando o abstêmio “parou” de usar drogas/álcool, mas ainda não tomou todas as medidas necessárias para obter êxito nesse objetivo. A interrupção definitiva, por sua vez, representa os abstêmios que mantêm longos períodos de abstinência e, quiçá, uma vida inteira nessa condição. Em outras palavras, a mera suspensão é uma pequena parada do uso de drogas/álcool sem propósitos mais ambiciosos e, de outra forma, a interrupção definitiva é a
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