ESTUDO PARCIAL
DO LIVRO:
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto
Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
ABSTINÊNCIA ORIGINÁRIA OU ABSTINÊNCIA DERIVADA1
A grande maioria das pessoas nasce com
abstinência de drogas/álcool, ou seja,
em regra, a pessoa nasce abstêmia. Contudo, durante o desenvolvimento humano, as pessoas tendem a perder sua ABSTINÊNCIA ORIGINÁRIA ao fazerem uso de drogas/álcool. Esse, inclusive, é o modelo que predomina atualmente na sociedade ocidental
e, sobretudo, na sociedade brasileira. Assim, o mero usuário, o usuário abusivo e o adicto são pessoas
que NÃO possuem mais suas abstinências originárias. Todavia, algumas
pessoas decidem INTERROMPER o
uso de drogas/álcool de maneira definitiva e, com isso, retomam sua abstinência. Essa nova abstinência que surge
após a perda da abstinência originária é denominada ABSTINÊNCIA
DERIVADA.
Como dito antes, existem duas abstinências: a originária, natural
ou primária,
que surge no nascimento de cada ser humano, e a derivada ou secundária, que surge após a drogadição, se consolidando através
do desenvolvimento do processo abstêmio.
A natureza do ser humano é abstêmia, e não adicta.
Ninguém nasce fadado a desenvolver o
processo de adicção. Nascemos com natureza abstêmia e direcionados a viver uma vida em abstinência. Isso
indica que a abstinência é originária
e natural ao ser humano. É esse o raciocínio utilizado
para definir, como se verá adiante, o Homo abstemius purus.
![]()
Assim sendo, via de regra, a pessoa que nasce abstêmia pode ser denominada Homo abstemius purus. Existem
casos específicos em que algumas pessoas não conseguem nascer abstêmias. Cito o exemplo
de filhos
1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto
Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles.
ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
(neonatos) de mulheres que usaram drogas/álcool durante a
gravidez. Nesses casos, temos o
nascimento de uma criança sem abstinência primária. Isso é lamentável, mas muito comum. Quando
mencionamos sobre neonatos
que nascem sem abstinência primária, as pessoas, em geral, imaginam crianças filhas de usuárias de drogas ilícitas ou drogas “pesadas”.
Entretanto, sugiro ao nobre leitor
que imagine o número de crianças que nascem de mães fumantes ou consumidoras de álcool durante a
gravidez. Essas crianças também nascem sem abstinência primária. Apesar disso tudo, felizmente, isso é a exceção e não a regra. Na
prática, a grande maioria das crianças nasce com abstinência primária.
Quanto
às pessoas que usam drogas/álcool, para a abstemiologia, utilizamos uma classificação bem singela, de modo a
compreendê-las como sendo mero usuário, usuário abusivo e adicto. Todas essas pessoas usam drogas/álcool
e se distinguem apenas em relação à quantidade, intensidade e tempo de uso.
Quanto ao adicto em si, compreendemos
que é simplesmente uma pessoa que
tem/sofre de adicção. Por sua vez, a natureza da adicção é noogênica, ou seja, há ausência de sentido interno no
indivíduo, e tal sentido só pode ser alcançado de modo espiritual.
O oposto de adicção não é
abstinência, é espiritualidade. Não
existe adicto espiritualizado porque
espiritualidade e adicção estão em lados opostos2.
As técnicas dos 12 (doze) passos, do evite e do procure, os insights de
primeiro e de segundo graus, os grupos anônimos, os princípios abstêmios, as formas de abstinência e das recaídas,
enfim, tudo que se relaciona ao processo abstêmio,
têm como base fundamental, como centro orgânico
e inexorável, a busca pelo autoconhecimento. O
objetivo “abstinência”, quando derivado de um anterior
processo de adicção,
só será alcançado pelo aprofundamento do autoconhecimento. Assim,
uma vez perdida a abstinência originária, ela poderá ser recuperada através da autognose.
O princípio da dúplice natureza abstêmia nos
revela que a abstinência possui duas
naturezas: a primeira informa que a abstinência é originária ou natural
do ser humano; a segunda
afirma que a abstinência se fundamenta no
![]()
2 Lembramos que “espiritualidade não significa religião”.
Critérios espirituais na abstemiologia se baseiam em assistência, exemplarismo e prestação de auxílio aos outros abstêmios.
autoconhecimento, ou seja, em critérios autognósticos. Em
outras palavras, a natureza da
abstinência é natural (abstinência originária) e, uma vez perdida, poderá ser recuperada pelo desenvolvimento do autoconhecimento (abstinência derivada).
Sinalizo a existência de um detalhe
técnico: não entendo que a abstinência derivada
tenha o mesmo conteúdo material da abstinência originária. Quem nasce abstêmio e vive uma vida sem usar drogas/álcool possui uma abstinência muito diferente daqueles
que já usaram drogas/álcool, mas INTERROMPERAM
a drogadição. Por isso, a abstinência originária, uma vez perdida, NÃO pode ser readquirida. Contudo, como
dito, pode-se adquirir outra abstinência que terá um conteúdo material muito diferente.
Assinalo outra questão técnica: utilizo
a expressão INTERROMPER o uso de drogas/álcool
para aqueles que pararam efetivamente de usar droga/álcool, ou seja, são pessoas que desejam permanecer
longos períodos em abstinência. Por outro lado, a expressão SUSPENDER
se refere às pessoas que não desejam
parar de maneira
efetiva o consumo
de drogas/álcool, ou seja, pessoas que ficam sem usar drogas/álcool
por curtíssimos períodos. Assim, o abstêmio
é quem INTERROMPE o uso de drogas/álcool. Noutra toada, temos o mero usuário, o usuário abusivo
e o adicto como sendo pessoas que simplesmente SUSPENDEM
o uso de drogas/álcool por certo lapso temporal.
Existem muitos exemplos de pessoas que conservam a ABSTINÊNCIA ORIGINÁRIA durante toda sua vida, como filhos(as) de pais usuários de drogas/álcool que podem possuir uma verdadeira aversão ao consumo de tais substâncias; filhos(as) de pais religiosos; filhos(as) de pais atletas; ou pessoas que decidiram morar/viver em outros países onde o consumo de drogas/álcool é muito combatido e reduzido (Oriente Médio, por exemplo). Na outra ponta, temos como exemplos de ABSTÊMIOS DERIVADOS pessoas que desenvolveram a adicção e conseguiram INTERROMPER o uso; pessoas que tiveram problemas sociais e optaram por INTERROMPER o uso; ou pessoas que usaram drogas/álcool, mas simplesmente não “gostaram” dos efeitos gerados e optaram pelo caminho da abstinência.
![]()
Nenhum comentário:
Postar um comentário