ABSTINÊNCIA DIABÓLICA1
Nesse momento, cumpre destacar a relevância sobre a
etimologia das palavras simbólico e diabólico. Ambas as palavras possuem o
radical grego “bolós”, que significa movimentar, mover, levar ou mexer. O
radical “sin” significa trazer para perto ou aproximar, enquanto que o radical
“dia” tem o significado de levar para longe,
afastar ou sair. Dessa forma, a
palavra “simbólica” representa intenção de “trazer para perto” e, em contrapartida, a palavra “diabólica” (dia-bólos) reflete
a ideia de “levar para longe”. Em síntese,
a abstinência diabólica
consiste no ato de afastar-se do caminho abstêmio, embora,
aparentemente, a pessoa não esteja fazendo isso.
Essa abstinência se manifesta, em
regra, nas fases iniciais do processo de abstinência e ocorre, por exemplo,
quando a pessoa comparece a todas as reuniões diárias
de grupos anônimos, faz diversos tratamentos simultâneos, realiza
acompanhamentos psicológicos e psiquiátricos, estuda sobre seu processo de
adicção e, mesmo assim, acaba recaindo em poucos meses. Aparentemente, o abstêmio estava fazendo tudo correto, tudo
conforme determinam as regras de experiência, mas então por que ele recaiu?
Para entender essa recaída, vou
exemplificar de outra forma: quando alguém quer aprender um idioma ou praticar
exercícios físicos e, para isso, se matricula no curso ou na academia,
significa que ele já sabe o idioma, ou que ele já é um atleta? A resposta
parece ser negativa, já que isso não representa nem sequer o “primeiro passo”
em direção ao seu objetivo, visto que é necessário comparecer às aulas, fazer o dever de
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1 ZIEMMERMANN, Péricles.
PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
Seguindo essa linha de raciocínio,
quanto ao exemplo anterior, podemos afirmar que o abstêmio não recaiu, apesar
de fazer tudo que estava ao seu alcance para ficar em abstinência. Ele recaiu
porque não fez sequer o “primeiro passo”, ou seja, não admitiu sua impotência
perante o uso de drogas/álcool e, muito menos, que tinha perdido o domínio
sobre sua própria vida.
Por isso, essa falsa abstinência gera a sensação de que o processo abstêmio não funciona. Contudo, o que não funciona é esse modelo de abstinência distanciado da realidade (dia-bólos), em que a pessoa não admite sua impotência perante o consumo de drogas/álcool. De fato, não existe processo de abstinência sem mudança interna, sem aceitação de sua impotência perante as drogas/álcool.
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