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domingo, 6 de outubro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 6/35 - ABSTINÊNCIA DIABÓLICA

 

ABSTINÊNCIA DIABÓLICA1

 

Nesse momento, cumpre destacar a relevância sobre a etimologia das palavras simbólico e diabólico. Ambas as palavras possuem o radical grego “bolós”, que significa movimentar, mover, levar ou mexer. O radical “sin” significa trazer para perto ou aproximar, enquanto que o radical “dia” tem o significado de levar para longe, afastar ou sair. Dessa forma, a palavra “simbólica” representa intenção de “trazer para perto” e, em contrapartida, a palavra “diabólica” (dia-bólos) reflete a ideia de “levar para longe”. Em síntese, a abstinência diabólica consiste no ato de afastar-se do caminho abstêmio, embora, aparentemente, a pessoa não esteja fazendo isso.

Essa abstinência se manifesta, em regra, nas fases iniciais do processo de abstinência e ocorre, por exemplo, quando a pessoa comparece a todas as reuniões diárias de grupos anônimos, faz diversos tratamentos simultâneos, realiza acompanhamentos psicológicos e psiquiátricos, estuda sobre seu processo de adicção e, mesmo assim, acaba recaindo em poucos meses. Aparentemente, o abstêmio estava fazendo tudo correto, tudo conforme determinam as regras de experiência, mas então por que ele recaiu?

Para entender essa recaída, vou exemplificar de outra forma: quando alguém quer aprender um idioma ou praticar exercícios físicos e, para isso, se matricula no curso ou na academia, significa que ele já sabe o idioma, ou que ele já é um atleta? A resposta parece ser negativa, já que isso não representa nem sequer o “primeiro passo” em direção ao seu objetivo, visto que é necessário comparecer às aulas, fazer o dever de


1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS       ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

 


casa, estudar, realizar provas e, somente após muitos anos, o resultado será obtido.

Seguindo essa linha de raciocínio, quanto ao exemplo anterior, podemos afirmar que o abstêmio não recaiu, apesar de fazer tudo que estava ao seu alcance para ficar em abstinência. Ele recaiu porque não fez sequer o “primeiro passo”, ou seja, não admitiu sua impotência perante o uso de drogas/álcool e, muito menos, que tinha perdido o domínio sobre sua própria vida.

Por isso, essa falsa abstinência gera a sensação de que o processo abstêmio não funciona. Contudo, o que não funciona é esse modelo de abstinência distanciado da realidade (dia-bólos), em que a pessoa não admite sua impotência perante o consumo de drogas/álcool. De fato, não existe processo de abstinência sem mudança interna, sem aceitação de sua impotência perante as drogas/álcool.


(Péricles Ziemmermann)

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