PATHWAY OF ABSTINENCE -
MODELO DESVIANTE1
Existem pessoas que estão em abstinência, mas somente isso. Essas pessoas eram adictas e, atualmente, não fazem uso de drogas/álcool. No entanto, praticam atos totalmente incoerentes com quem deseja permanecer longos períodos em abstinência. São abstêmios que optaram por percorrer caminhos transversos. Em regra, esses abstêmios tendem a retornar, cedo ou tarde, ao processo de adicção. Todavia, existem casos em que os abstêmios desviantes conseguiram a manter abstinência por longos anos.
É comum a utilização de algumas máximas
que sintetizam claramente o caminho da abstinência no MODELO DESVIANTE, tais como:
(a)
“Ele só tampou a boca da garrafa!”.
Essa máxima é muito utilizada por familiares
ao comentarem sobre seu ente querido. Os familiares afirmam que o abstêmio está fazendo as mesmas coisas (hábitos) “que ele fazia” quando estava
envolvido no processo de adicção.
(b) “Ele está em abstinência, mas está pior do que quando bebia”. Essa frase também é muito comum. Os familiares afirmam que seu ente querido está muito irritado, incomodado e desagradável. Isso pode mascarar sintomas de fissura ou a existência de comorbidades.
(c)
“Prefiro meu marido quando ele está
bêbado”. Outra reclamação muito recorrente
dos familiares. Ao comparar o processo de abstinência com o processo de adicção, os familiares afirmam que no
anterior processo de adicção a vida era mais
simples e havia menos incômodos. Isso, na realidade, esconde uma enorme codependência.
O importante é entender que tudo isso
faz parte do caminho da abstinência, porém no
modelo desviante. Os exemplos
anteriores mostram que o abstêmio e sua família estão tendo dificuldades em
lidar com o processo de abstinência.
O caminho
da abstinência no modelo desviante
possui certas características.
Vejamos:
· Mera suspensão
do uso de drogas/álcool.
· Desintoxicação física,
em regra, temporária.
· Ausência do Passo Zero e presença
da irresponsabilidade abstêmia.
· Reconhecimento do sistema ideológico adicto, mas sem compromisso de enfrentamento.
· Surgimento
de algumas características do sistema
ideológico neutro (S.I.N. parcial).
· Permanência em sistemas ideológicos de mero usuário
(S.I.U. positivo), usuário abusivo (S.I.U. negativo) ou, em
casos mais graves, adicto (S.I.A. negativo).
· Retorno
ao processo de adicção ou permanência em abstinência desviante com forte tendência
ao retorno à drogadição.
A mera
suspensão do uso de drogas/álcool indica
que o abstêmio não cessou definitivamente
o uso de drogas/álcool. Anteriormente afirmamos que a cessação do uso de drogas/álcool pode ocorrer de duas
formas: suspensão ou interrupção. A suspensão do uso de drogas/álcool é temporária. Por sua vez, a interrupção do uso de drogas/álcool
será definitiva. No modelo desviante
da jornada abstêmia, muitas vezes encontramos abstêmios que apenas suspenderam o uso de drogas/álcool por alguns anos, de modo que preservam os mesmos
hábitos da ativa, os mesmos relacionamentos da
época da adicção (pessoas) e não evitam lugares em que haja o consumo exagerado de drogas/álcool. Isso será, sempre, fonte
de fissuras, que se manifestam na
forma de irritabilidade, discussão ou brigas domésticas.
No modelo desviante
da jornada abstêmia
teremos, em regra,
uma desintoxicação
A ausência do
passo zero e presença da irresponsabilidade abstêmia é uma
característica muito peculiar do modelo desviante. Esses abstêmios não
simpatizam com a ideia de
exemplarismo, voluntariado e nem assistência. Sequer desejam estabelecer laços afetivos
mais duradouros com outros colegas abstêmios.
O reconhecimento do sistema ideológico adicto, mas sem compromisso de enfrentamento,
é uma característica muito peculiar do modelo desviante. Esse aspecto ensina que o abstêmio sabe que possui
adicção e que estava inserido, outrora, num processo
de adicção. Entretanto, não há, por parte do abstêmio, vontade de mudar sua forma de pensar, sentir e agir. Existe muita rigidez
conceitual.
O abstêmio do modelo desviante
possui “algumas” características do sistema ideológico neutro (S.I.N. parcial), porém o sistema
ideológico adicto não será
neutralizado completamente. O abstêmio prefere
ficar acomodado na atual situação
e não tenta fazer alterações
biopsicossocioespirituais mais profundas. Sua vida abstêmia permanece muito semelhante à vida adicta,
mas, por óbvio, sem o uso de drogas/álcool. Não há flexibilização
conceitual, nem aumento significativo de repertório abstêmio.
Para agravar o quadro do abstêmio no modelo desviante, temos pessoas que permanecem em sistemas ideológicos de mero
usuário (S.I.U. positivo), usuário abusivo
(S.I.U. negativo) ou, em casos mais graves, adicto (S.I.A. negativo). Esses abstêmios não usam drogas/álcool, mas
ainda pensam que podem voltar a usar. Nesse caso,
o abstêmio não reconhece que é adicto e tampouco que estava inserido num processo de adicção. Esse aspecto é um dos
mais graves do modelo desviante e, caso esteja presente,
sinaliza que o abstêmio voltará, certamente, para o
universo da adicção.
O atributo do “retorno
ao processo de adicção ou permanência em abstinência desviante com forte tendência ao retorno à drogadição” explica
que o abstêmio desviante tem péssimo
prognóstico. A gravidade cognitiva do desvio abstêmio pode ser de tal magnitude
que a pessoa ficará pouquíssimo tempo afastada do uso de drogas/álcool.
Em que pese a existência de todas essas mazelas, existem abstêmios com longos períodos de abstinência que possuem essas características. Esse é o caso comum do abstêmio superman e do abstêmio one step.
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
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