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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 16/35 - DESVIRTUAMENTO DA ABSTINÊNCIA

 


DESVIRTUAMENTO DA ABSTINÊNCIA1

 

 

A abstemiologia se funda no estudo dos abstêmios, do processo de abstinência e da abstinência. Já vimos que os desvios abstêmios e o nexo de displicência podem afastar a pessoa do processo de abstinência hipotético ideal. Agora, veremos que a própria abstinência pode ser desvirtuada. Existe uma sutil diferença entre desviar o processo de abstinência do caminho hipotético ideal e desvirtuar a própria abstinência. Nesse tópico abordaremos as formas de abstinência desvirtuadas, ou seja, as formas de deturpar, distorcer, adulterar, alterar, corromper ou deformar a própria abstinência.

O desvirtuamento da abstinência pode ocorrer como forma de pressão, barganha ou manipulação para obtenção de favores ou vantagens. Nos próximos parágrafos vamos exemplificar para esclarecer esse tema.

Sabe-se que o abstêmio precisa praticar algumas reparações para evitar o enclausuramento da culpa2. Assim sendo, por exemplo, não praticar a técnica da reparação com determinada pessoa porque essa pessoa era da época da ativa, e precisa- se evitar o contato com pessoas adictas, revela pura procrastinação de reparações. Isso é uso indevido de técnicas para fugir das responsabilidades.

Outro caso muito comum ocorre quando o abstêmio diz: “preciso ter isso (novo

veículo, celular, emprego, objeto, curso) porque o que eu tinha antes era usado durante (ou para) minha adicção”. A tentativa de manipular a família para obter benesses é algo banal nos casos de desvirtuamento da abstinência. Isso é uma forma de manipulação da abstinência para obter ganhos pessoais.

Outra situação frequente ocorre, por exemplo, quando o abstêmio afirma: “preciso sair com o carro porque existem pessoas da época da ativa na vizinhança e não quero encontrar com elas”. Contudo, o que o abstêmio realmente deseja fazer, nesse caso, é usar o veículo para outras finalidades. Esse raciocínio distorcido é usado para muitas outras situações em que o abstêmio deseja fazer a barganha da abstinência3.

Nestes 03 (três) exemplos anteriores, a abstinência está sendo manipulada para evitar reparação, manipular familiares ou obter vantagens indevidas. O abstêmio que pratica tais atos não está em abstinência real, está apenas utilizando a abstenção do uso de drogas/álcool para manipular e controlar os outros. Tais atos são muito comuns, principalmente no início do processo de abstinência, quando os defeitos de caráter que se avolumaram na época da ativa ainda estão sendo superados. Aquele que perceber tais atitudes por parte do abstêmio tem o dever moral de apontá-las, para que elas sejam identificadas e superadas.

A seguir, veremos vários modelos de desvirtuamento da abstinência, tais como: abstinência seccionada ou inadequada, abstinência caducada, abstinência diabólica, abstinência leviana, abstinência dissimulada.


1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

 

2 Nos grupos anônimos, esse é o 12º passo. Para a abstemiologia, a assistência e as reparações (diretas ou indiretas) servem como escopo para evitar o desenvolvimento da culpa pelos atos causados durante o processo de adicção. Lembrando que a culpa faz parte do triângulo da auto-obsessão, juntamente com a raiva e o medo.



(Péricles Ziemmermann)


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