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sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Itinerários Abstemiológicos 4/35 - Abstêmios por Trauma

 

ABSTÊMIOS POR TRAUMA1

 


Os fenômenos abstêmios atípicos representam várias formas de caminhos abstêmios transversos. Como vimos antes, entre tais fenômenos existem os abstêmios do efeito wundermittel ou efeito Popeye, abstêmios do modelo superman e abstêmios do modelo


1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

 

ZIEMMERMANN,   Péricles.   TEORIAS    ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

 

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

 

one step. Contudo, além desses três modelos de abstêmios transversos, existe outro: o abstêmio por trauma.

As pessoas que se dedicam a estudar a adicção costumam apresentar a análise de certos percentuais estatísticos interessantes que, de certa forma, sinalizam a existência de um componente genético presente no desenvolvimento da drogadição. Existem vários dados técnicos, e os modelos mais comuns são: “40% das pessoas filhas(os) de alcoólatras tendem a desenvolver a adicção”, ou “60% das pessoas que viveram uma infância na presença de dependentes de drogas/álcool tendem a desenvolver o mesmo problema”2. Esses dados estatísticos variam conforme a pesquisa3.

Não obstante, no campo da abstinência, vamos analisar esses mesmos dados, mas sob outra ótica. Exemplificando para esclarecer: se, apenas por suposição, 40% dos filhos(as) de alcoólatras desenvolvem adicção, isso significa que 60% dos filhos(as) de alcoólatras não desenvolvem a adicção4. Percebeu o raciocínio? Para a abstemiologia, o que importa é o dado não expresso categoricamente e que permaneceu oculto, ou seja, o percentual de pessoas que não desenvolve a adicção, apesar de seu pai, mãe ou irmão serem adictos.

Dessa forma, existem várias pessoas (o percentual é altíssimo) que nunca desenvolveram a adicção, apesar de terem convivido com entes queridos adictos em suas famílias. Muitas dessas pessoas sentem verdadeira aversão ao uso de drogas/álcool. Isso ocorre porque conviveram com pessoas adictas e presenciaram (sofreram) tantos traumas que sequer admitem a mera possibilidade de usar drogas/álcool.

Esse grupo de abstêmios (extremamente numeroso) não surge após “suas próprias adicções”, mas surge devido à adicção de seus familiares. É como se a adicção de um

 


2 A taxa usada nesse exemplo depreende-se da leitura da matéria Pais alcoólatras: efeitos sobre a criança, publicada no jornal O Popular, em 25 out. 2016. Texto de Virgínia Elizabeth Suassuna Martins Costa. Maiores detalhes estão nas referências dessa obra.

3 Em outra pesquisa (alcoolismo/UFRJ) encontramos a relação de taxa 80% e 20%, ou seja, filhos de pais alcoólatras têm 04 vezes mais chance de desenvolverem a dependência.

4 Para ALVES (2003, p. 103-104): “Apesar destas limitações, podemos retirar algumas conclusões significativas: os filhos de pais alcoólicos reprovam duas vezes mais do que os filhos de pais não alcoólicos; os filhos de pais alcoólicos apresentam mais problemas de comportamento na sala de aula do que os filhos de pais não alcoólicos; as crianças filhas de pais alcoólicos, cujos pais têm um maior grau de dependência, apresentam mais problemas de comportamento na sala de aula do que as crianças filhas de pais alcoólicos com menor grau de dependência (em especial os rapazes); os alcoólicos tendem a ter famílias com níveis extremos de coesão (pertencem a "famílias desligadas", no teste de Oison e col); os alcoólicos pertencem, em grande percentagem, a “famílias intermédias”, enquanto os não alcoólicos pertencem a “famílias equilibradas”, no teste de Oison e col.”

 


familiar pudesse gerar a abstinência de outro membro do mesmo núcleo familiar5. Essas pessoas são denominadas abstêmios por trauma de terceiros, que não eram/foram responsáveis diretamente pela drogadição, mas somente vítimas dela.

Impende asseverar, ainda, outra situação de abstêmio por trauma. Conheço, e certamente o nobre leitor também conhece, inúmeras pessoas que estão em abstinência após terem sofrido ou causado algum grave acidente. Por exemplo:

 

    A pessoa sofreu um acidente de carro porque estava dirigindo embriagada. O resultado desse acidente foi tão grave que ela nunca mais ingeriu bebida alcoólica.

   A pessoa estava usando drogas/álcool e presenciou uma cena (local de morte) em que o responsável pela tragédia foi outra pessoa embriagada. Essa cena foi tão traumatizante que fez surgir a necessidade de nunca mais ingerir drogas/álcool.

 

Nesses casos, e em muitos outros, surge uma vontade de manter-se em abstinência devido ao trauma causado ou presenciado. Daí, teremos abstêmios por trauma próprio, que também são pessoas em abstinência, mas que eram/foram de alguma forma responsáveis diretamente pela própria drogadição. Esses abstêmios surgem após o desenvolvimento de “suas próprias adicções”6. Em outras palavras, esses abstêmios surgem dos traumas gerados pelo seu “próprio” processo de adicção.

Em suma, existem abstêmios que surgem após grandes traumas. Esses abstêmios se dividem em dois grandes grupos: abstêmios por trauma de terceiros ou abstêmios por trauma próprio.


5 Cito o caso real de uma mulher (meia-idade, casada) que tem “pavor” do consumo de drogas/álcool porque seu pai (já falecido) era alcoólatra. Tenho certeza de que o leitor também conhece inúmeras situações semelhantes.

6 É necessário destacar que o abstêmio por trauma próprio pode ser abstêmio que fez apenas o mero uso de drogas/álcool. Contudo, na sua grande maioria, esses abstêmios eram usuários abusivos e, em casos mais raros, eram adictos que interromperam o processo de adicção devido ao trauma.



 

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