ABSTÊMIOS POR TRAUMA1
Os fenômenos abstêmios atípicos
representam várias formas de caminhos abstêmios transversos. Como vimos antes, entre tais fenômenos existem os
abstêmios do efeito wundermittel ou efeito Popeye, abstêmios
do modelo superman e abstêmios do modelo
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1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8
one step. Contudo, além desses três modelos de abstêmios transversos, existe
outro: o abstêmio por trauma.
As pessoas que se dedicam a estudar a
adicção costumam apresentar a análise de certos percentuais estatísticos interessantes que, de certa forma, sinalizam a existência de um componente genético presente no desenvolvimento da drogadição. Existem
vários dados técnicos, e os modelos mais comuns são: “40% das pessoas
filhas(os) de alcoólatras tendem a
desenvolver a adicção”, ou “60% das pessoas que viveram uma infância na presença de dependentes de
drogas/álcool tendem a desenvolver o mesmo problema”2. Esses
dados estatísticos variam conforme a pesquisa3.
Não obstante, no campo da abstinência,
vamos analisar esses mesmos dados, mas sob
outra ótica. Exemplificando para esclarecer: se, apenas por suposição, 40% dos filhos(as) de alcoólatras desenvolvem
adicção, isso significa que 60% dos filhos(as) de alcoólatras não desenvolvem
a adicção4. Percebeu o raciocínio?
Para a abstemiologia, o que importa é
o dado não expresso categoricamente
e que permaneceu oculto, ou seja, o percentual
de pessoas que não desenvolve a
adicção, apesar de seu pai, mãe ou irmão serem adictos.
Dessa
forma, existem várias
pessoas (o percentual é altíssimo) que nunca desenvolveram a adicção, apesar de
terem convivido com entes queridos adictos em suas famílias. Muitas dessas pessoas sentem verdadeira aversão
ao uso de drogas/álcool. Isso ocorre porque conviveram com pessoas adictas
e presenciaram (sofreram) tantos traumas que sequer admitem a mera possibilidade de usar drogas/álcool.
Esse grupo de abstêmios (extremamente
numeroso) não surge após “suas
próprias adicções”, mas surge devido à adicção de seus familiares. É como se a adicção de um
2
A
taxa usada nesse exemplo depreende-se da leitura da matéria Pais alcoólatras: efeitos sobre a criança, publicada no jornal O Popular, em 25 out. 2016. Texto de
Virgínia Elizabeth Suassuna Martins Costa. Maiores
detalhes estão nas referências dessa obra.
3
Em
outra pesquisa (alcoolismo/UFRJ) encontramos a relação de taxa 80% e 20%, ou
seja, filhos de pais alcoólatras têm 04
vezes mais chance de desenvolverem a dependência.
4
Para ALVES (2003, p. 103-104): “Apesar
destas limitações, podemos
retirar algumas conclusões significativas: os filhos de pais alcoólicos reprovam
duas vezes mais do que os filhos de pais não alcoólicos; os filhos de pais alcoólicos apresentam mais problemas de comportamento na
sala de aula do que os filhos de
pais não alcoólicos; as crianças
filhas de pais alcoólicos, cujos pais têm um maior grau de dependência, apresentam mais problemas
de comportamento na sala de aula do que as crianças
filhas de pais alcoólicos com menor grau de dependência (em especial os
rapazes); os alcoólicos tendem a
ter famílias com níveis extremos de coesão (pertencem a "famílias
desligadas", no teste de Oison e
col); os alcoólicos pertencem, em grande percentagem, a “famílias intermédias”,
enquanto os não alcoólicos pertencem a “famílias
equilibradas”, no teste de Oison e col.”
familiar pudesse gerar a
abstinência de outro membro do mesmo núcleo familiar5. Essas pessoas são denominadas abstêmios por trauma de terceiros, já que não eram/foram responsáveis diretamente pela drogadição, mas somente vítimas
dela.
Impende asseverar, ainda, outra situação de abstêmio
por trauma. Conheço,
e certamente o nobre leitor
também conhece, inúmeras pessoas que estão em abstinência após terem
sofrido ou causado algum grave
acidente. Por exemplo:
• A
pessoa sofreu um acidente de carro porque estava dirigindo embriagada. O resultado
desse acidente foi tão
grave que ela nunca mais ingeriu
bebida alcoólica.
• A
pessoa estava usando drogas/álcool e presenciou uma cena (local de morte) em que o responsável pela tragédia foi outra pessoa embriagada. Essa cena foi tão traumatizante que fez surgir a necessidade de nunca mais ingerir drogas/álcool.
Nesses casos, e em muitos outros, surge
uma vontade de manter-se em abstinência devido ao trauma causado ou presenciado. Daí, teremos abstêmios por trauma próprio, que também são pessoas em
abstinência, mas que eram/foram de
alguma forma responsáveis diretamente pela própria drogadição. Esses abstêmios surgem
após o desenvolvimento de “suas próprias adicções”6. Em outras palavras, esses abstêmios surgem
dos traumas gerados pelo seu
“próprio” processo de adicção.
Em suma, existem abstêmios que surgem após grandes traumas. Esses abstêmios se dividem em dois grandes grupos: abstêmios por trauma de terceiros ou abstêmios por trauma próprio.
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5 Cito o caso real de uma mulher (meia-idade, casada) que tem “pavor”
do consumo de drogas/álcool porque seu pai (já falecido) era
alcoólatra. Tenho certeza de que o leitor também conhece inúmeras situações
semelhantes.
6 É necessário destacar que o abstêmio por trauma próprio
pode ser abstêmio
que fez apenas o mero uso de drogas/álcool. Contudo, na
sua grande maioria, esses abstêmios eram usuários
abusivos e, em casos mais raros,
eram adictos que interromperam o processo de adicção devido ao trauma.
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