Abstemiopatias 6/12 - DIFERENÇA ENTRE CODEPENDENTE E COABSTÊMIO
DIFERENÇA ENTRE CODEPENDENTE E COABSTÊMIO
“Logo que, numa inovação,
nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados” (FRIEDRICH NIETZSCHE,
1844‒1900).
A adicção tem como uma de suas características
estabelecer um transtorno cognitivo e emocional generalizado entre diversas
pessoas que pertencem ao mesmo núcleo afetivo. Da mesma forma que o adicto
adoeceu, os seus familiares que presenciaram todo o processo doentio do uso
abusivo de drogas/álcool também
ficaram ‒ ou ficarão ‒ com graves sequelas emocionais. Nesse sentido, a codependência é
uma patologia firmada nas emoções, sentimentos, pensamentos, condutas e
relacionamentos doentios entre familiares, cônjuges, amigos e seus entes
queridos adictos. A codependência, em regra, NÃO é cooperação para o consumo de
drogas/álcool. Apesar disso, o codependente é alguém que adoeceu devido ao envolvimento direto e íntimo com
uma pessoa imersa no processo de adicção. O codependente, tanto quanto
o adicto, precisa de ajuda e de tratamento adequado.
Após a superação dos entraves finais e
derradeiros do processo de adicção, com a subsequente interrupção do consumo de
drogas/álcool começará o tão almejado processo de abstinência. Em outros
termos, após a interrupção
do consumo de drogas/álcool iniciará o período de
sobriedade. Então, a partir desse momento, não estaremos mais diante de um
usuário de drogas/álcool, mas perante um abstêmio. Pensando dessa
maneira, após o abstêmio
iniciar sua jornada de abstinência e alcançar sua
sobriedade, os familiares também superarão, em grande parte, as sequelas
emocionais adquiridas anteriormente durante a fase de adicção, principalmente
se tiverem apoio e tratamento adequado. Seguindo essa linha de pensamento,
entendemos que haverá mudança da CODEPENDÊNCIA
para a COEVOLUÇÃO
ou COABSTINÊNCIA. É possível compreender que essa
“pequena” alteração semântica sintetiza, na realidade, uma profunda mudança paradigmática.
O raciocínio
é simples: durante o processo de adicção, ou logo após, estaremos diante do
fenômeno da CODEPENDÊNCIA. Entretanto, no
decorrer do processo de abstinência não há que se falar em codependente nem
codependência, mas em COABSTÊMIO e COABSTINÊNCIA.
Em que pese haver opiniões aguerridas no sentido de
tratar todos envolvidos no processo de adicção como sendo codependentes mesmo após o transcurso de muitos anos de
abstinência, NÃO concordamos em
manter essa denominação na fase abstêmia. Assim,
temos que a CODEPENDÊNCIA se estabelece na adicção, mas a COABSTINÊNCIA é o que
ocorre durante a abstinência.
É ilógico denominar um familiar como
codependente quando a própria pessoa que causou o fenômeno (antigo adicto) já
possui muitos anos de abstinência. Além disso, ainda existe a questão
pejorativa e o vulgo popular que
atribui características preconceituosas a tal expressão. Inclusive, o uso dessa
locução (codependência ou codependente) faz com que inúmeras pessoas se afastem
e deixem de participar do processo abstêmio de seu ente querido uma vez que não
desejam sofrer o estigmatizante etiquetamento social (Labeling
Approach Theory). Por isso, entendemos que quando
determinada pessoa se submete ao processo de abstinência, inexoravelmente, seus
familiares –
pessoas do núcleo afetivo – converter-se-ão em COABSTÊMIOS, caso tenham as características necessária para isso.
Existe um rol de termos que devem ser
aplicados no que se refere ao familiar do abstêmio. Não é possível utilizar
termos referentes à adicção1 quando
estivermos perante familiares com longos anos de abstinência como,
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1 Termos familiares na adicção: Codependente, Familiar adicto,
Observador, Desorganização familiar, Família disfuncional, Convivência de
situações destrutivas, Ausência de apoio técnico especializado, Amor, Negação
familiar, Crise familiar, Intoxicações familiares, Inter-relacionamentos
patológicos, Família limitada e restrita (muitas vezes mononuclear) e
Desinformação.
por exemplo, no caso do fenômeno da abstinência
paralela. Em futuros estudos analisaremos cada um desses termos2.
Coabstinência
é o fenômeno no qual estão inseridas as pessoas,
denominadas de coabstêmios, que desejam servir de modelo paradigmático de abstinência. Na coabstinência
a pessoa serve de exemplo abstêmio e, através disso,
tentar incentivar e difundir ideias abstemiológicas no meio social. Embora
existam muitos coabstêmios
que surgiram após um processo intenso de dependência,
como no caso dos padrinhos ou madrinhas de grupos anônimos, é importante
destacar que nem sempre os coabstêmios desenvolveram alguma dependência.
Em suma, a
codependência se estabelece na adicção, mas a COABSTINÊNCIA é o que ocorre
durante a abstinência. Por causa disso, NÃO concordamos em denominar os
familiares ou as pessoas que pertencem ao mesmo núcleo familiar do abstêmio
como codependentes.
Bons estudos!
(Escritor: Péricles
Ziemmermann)
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REFERÊNCIAS
Sugerimos, humildemente, a leitura do texto disponível no site da abstemiologia:
“ABSTINÊNCIA PARALELA”.
ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto
Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8
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2 Termos familiares na abstinência: Coabstêmio ou coevolucionando,
Familiar assistido, Cuidador, Reestruturação familiar, Recuperação da
funcionalidade familiar, Convivência de situações salutares e edificantes,
Apresentação aos mecanismos adequados, Amor-exigente, Aceitação familiar e Terapia
de família.
ZIEMMERMANN,
Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS:
Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles.
ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto
Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. ABSTEMIOPATIAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo,
2021. ISBN 978-85-824583-6-5
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