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terça-feira, 24 de setembro de 2024

Abstemiopatias 6/12 - DIFERENÇA ENTRE CODEPENDENTE E COABSTÊMIO

 Abstemiopatias 6/12 - DIFERENÇA ENTRE CODEPENDENTE E COABSTÊMIO


DIFERENÇA ENTRE CODEPENDENTE E COABSTÊMIO

 



“Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados” (FRIEDRICH NIETZSCHE, 1844‒1900).

 

A adicção tem como uma de suas características estabelecer um transtorno cognitivo e emocional generalizado entre diversas pessoas que pertencem ao mesmo núcleo afetivo. Da mesma forma que o adicto adoeceu, os seus familiares que presenciaram todo o processo doentio do uso abusivo de drogas/álcool também ficaram ‒ ou ficarão ‒ com graves sequelas emocionais. Nesse sentido, a codependência é uma patologia firmada nas emoções, sentimentos, pensamentos, condutas e relacionamentos doentios entre familiares, cônjuges, amigos e seus entes queridos adictos. A codependência, em regra, NÃO é cooperação para o consumo de drogas/álcool. Apesar disso, o codependente é alguém que adoeceu devido ao envolvimento direto e íntimo com uma pessoa imersa no processo de adicção. O codependente, tanto quanto o adicto, precisa de ajuda e de tratamento adequado.

 

Após a superação dos entraves finais e derradeiros do processo de adicção, com a subsequente interrupção do consumo de drogas/álcool começará o tão almejado processo de abstinência. Em outros termos, após a interrupção do consumo de drogas/álcool iniciará o período de sobriedade. Então, a partir desse momento, não estaremos mais diante de um usuário de drogas/álcool, mas perante um abstêmio. Pensando dessa maneira, após o abstêmio iniciar sua jornada de abstinência e alcançar sua sobriedade, os familiares também superarão, em grande parte, as sequelas emocionais adquiridas anteriormente durante a fase de adicção, principalmente se tiverem apoio e tratamento adequado. Seguindo essa linha de pensamento, entendemos que haverá mudança da CODEPENDÊNCIA para a COEVOLUÇÃO ou COABSTINÊNCIA. É possível compreender que essa “pequena” alteração semântica sintetiza, na realidade, uma profunda mudança paradigmática.


O raciocínio é simples: durante o processo de adicção, ou logo após, estaremos diante do fenômeno da CODEPENDÊNCIA. Entretanto, no decorrer do processo de abstinência não há que se falar em codependente nem codependência, mas em COABSTÊMIO e COABSTINÊNCIA.

 

Em que pese haver opiniões aguerridas no sentido de tratar todos envolvidos no processo de adicção como sendo codependentes mesmo após o transcurso de muitos anos de abstinência, NÃO concordamos em manter essa denominação na fase abstêmia. Assim, temos que a CODEPENDÊNCIA se estabelece na adicção, mas a COABSTINÊNCIA é o que ocorre durante a abstinência.

 

É ilógico denominar um familiar como codependente quando a própria pessoa que causou o fenômeno (antigo adicto) já possui muitos anos de abstinência. Além disso, ainda existe a questão pejorativa e o vulgo popular que atribui características preconceituosas a tal expressão. Inclusive, o uso dessa locução (codependência ou codependente) faz com que inúmeras pessoas se afastem e deixem de participar do processo abstêmio de seu ente querido uma vez que não desejam sofrer o estigmatizante etiquetamento social (Labeling Approach Theory). Por isso, entendemos que quando determinada pessoa se submete ao processo de abstinência, inexoravelmente, seus familiares pessoas do núcleo afetivo converter-se-ão em COABSTÊMIOS, caso tenham as características necessária para isso.

 

Existe um rol de termos que devem ser aplicados no que se refere ao familiar do abstêmio. Não é possível utilizar termos referentes à adicção1 quando estivermos perante familiares com longos anos de abstinência como,

 

 

 


1 Termos familiares na adicção: Codependente, Familiar adicto, Observador, Desorganização familiar, Família disfuncional, Convivência de situações destrutivas, Ausência de apoio técnico especializado, Amor, Negação familiar, Crise familiar, Intoxicações familiares, Inter-relacionamentos patológicos, Família limitada e restrita (muitas vezes mononuclear) e Desinformação.


por exemplo, no caso do fenômeno da abstinência paralela. Em futuros estudos analisaremos cada um desses termos2.

 

Coabstinência é o fenômeno no qual estão inseridas as pessoas, denominadas de coabstêmios, que desejam servir de modelo paradigmático de abstinência. Na coabstinência a pessoa serve de exemplo abstêmio e, através disso, tentar incentivar e difundir ideias abstemiológicas no meio social. Embora existam muitos coabstêmios que surgiram após um processo intenso de dependência, como no caso dos padrinhos ou madrinhas de grupos anônimos, é importante destacar que nem sempre os coabstêmios desenvolveram alguma dependência.

 

Em suma, a codependência se estabelece na adicção, mas a COABSTINÊNCIA é o que ocorre durante a abstinência. Por causa disso, NÃO concordamos em denominar os familiares ou as pessoas que pertencem ao mesmo núcleo familiar do abstêmio como codependentes.

 

Bons estudos!

(Escritor: Péricles Ziemmermann)

 

 


 

 

REFERÊNCIAS

 

 

Sugerimos,    humildemente,    a    leitura    do    texto    disponível    no    site    da abstemiologia: “ABSTINÊNCIA PARALELA”.

 

ZIEMMERMANN,       Péricles. PRINCÍPIOS       ABSTEMIOLÓGICOS.       Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8

 

 


2 Termos familiares na abstinência: Coabstêmio ou coevolucionando, Familiar assistido, Cuidador, Reestruturação familiar, Recuperação da funcionalidade familiar, Convivência de situações salutares e edificantes, Apresentação aos mecanismos adequados, Amor-exigente, Aceitação familiar e Terapia de família.


ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS:

Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

 

 

ZIEMMERMANN,      Péricles. ITINERÁRIOS      ABSTEMIOLÓGICOS.      Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8

 

 

ZIEMMERMANN,    Péricles. ABSTEMIOPATIAS.    Porto    Alegre/RS:    Editora Simplíssimo, 2021. ISBN 978-85-824583-6-5



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