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sábado, 21 de setembro de 2024

Abstemiopatias 3/12 - ABSTINÊNCIA ENDÓGENA E ABSTINÊNCIA EXÓGENA

 

ABSTINÊNCIA ENDÓGENA E ABSTINÊNCIA EXÓGENA


 

Imagine dois abstêmios tendo, cada um deles, muitos anos de abstinência. O primeiro abstêmio acredita que a abstinência é algo obtido graças a algum fator externo (medicamento, remédio, internação, grupo terapêutico, grupo anônimo ou Poder Superior). O outro abstêmio acredita que a abstinência é algo interno e que a manutenção dessa condição é de sua própria (auto)responsabilidade. Repetindo, mais uma vez, ambos os abstêmios possuem longos períodos de abstinência. Qual dos abstêmios está com a razão?

 

Vou me adiantar e responder que ambos os abstêmios possuem razão. Nesses dois casos temos os fenômenos da ABSTINÊNCIA EXÓGENA e ABSTINÊNCIA ENDÓGENA, respectivamente. Vamos analisar cada uma dessas modalidades (tão comuns) de abstinência.


 

 

Na ABSTINÊNCIA EXÓGENA o abstêmio acredita que seu processo de abstinência possui um LOCUS EXTERNUS, ou seja, a origem da abstinência se deve a um elemento externo e que está “fora” do sujeito. Nesses casos os abstêmios costumam atribuir o sucesso do processo de abstinência a fatores como: medicamentos, terapeutas, clínica de recuperação ou comunidade terapêutica em que foi internado, grupo terapêutico ao qual pertence, grupo anônimo do qual participa ou qualquer outra forma de Poder Superior. Note que, para esses abstêmios, a própria abstinência se baseia no locus externus de modo que eles “confundem” as técnicas para iniciar, manter e permanecer em abstinência com a própria origem da abstinência. Para esses abstêmios (com abstinência exógena) o seu próprio processo de abstinência é resultado de algum fator externo que lhe “concedeu” a saída do universo da adicção. Essa modalidade de abstinência é a mais utilizada por pessoas que, de certa forma, procuram explicações espirituais, clínicas ou sociais para a superação da drogadição. Embora existam estudos que sinalizam a ABSTINÊNCIA EXÓGENA como sendo mais efêmera do que a ABSTINÊNCIA ENDÓGENA, na prática, empiricamente, existem muitos abstêmios exógenos com longos anos de abstinência[1].

 

Ainda no que se refere à ABSTINÊNCIA EXÓGENA, às vezes, pode ocorrer a confusão entre uma técnica para manter a abstinência e a própria origem da abstinência. Contudo, esse desalinho NÃO se sustenta por longos anos, ou seja, se o abstêmio está há muito tempo em abstinência é porque NÃO houve desarranjo. Ademais, uma das vantagens dessa abstinência é que ela cria fortes laços sociais fazendo com que o abstêmio se relacione com outras pessoas que também estão em abstinência. Essa modalidade de abstinência facilita a superação de hábitos adictos e, simultaneamente, neutraliza os lugares relacionados à adicção porque coloca o abstêmio, geograficamente, em novas dimensões. Os abstêmios exógenos também são pessoas mais preparadas pera prestarem assistência e realizarem o 12º passo dos grupos anônimos.


 

 

Na ABSTINÊNCIA ENDÓGENA, por sua vez, o abstêmio acredita que seu processo de abstinência possui um LOCUS INTERNUM, ou seja, a origem da abstinência se deve a um elemento interno e que está “dentro” do sujeito. Nesses casos os abstêmios costumam atribuir o sucesso do processo de abstinência a fatores como: autorresponsabilidade, autoenfrentamento da crise, autossuperação, realização de mudanças, readequação das distorções cognitivas ou abandono da autopiedade, autossabotagem e autossuficiência como mecanismos que davam sustentação à drogadição. Para esse abstêmio (com abstinência endógena) o seu “próprio” processo de abstinência é resultado de algum fator interno que após ser encontrado, através do autodiagnóstico (dirigido ou não), lhe “concedeu” a saída do universo da adicção. Essa modalidade de abstinência é a mais utilizada por pessoas que, de certa forma, procuram explicações lógicas, racionais ou psicológicas para a superação da drogadição.

 

A ABSTINÊNCIA ENDÓGENA ainda é muito focada no “EU”. Isso faz com que, em regra, esses abstêmios sejam mais refratários à ideia de assistência ou prestação de auxílio aos outros colegas. Porém, se o abstêmio está há muitos anos em abstinência, tudo indica que o egoísmo que sustentava a adicção foi substituído ou neutralizado por outra forma de pensar. Nessa forma de manter-se abstêmio haverá uma separação muito nítida entre as técnicas para manter-se abstêmio e a própria origem e desenvolvimento da abstinência. De qualquer forma, essa abstinência possui muitos adeptos.

 

São exemplos de ABSTÊMIOS EXÓGENOS ATÍPICOS: abstêmio do efeito wundermittel[2] e abstêmio por trauma (próprio ou de terceiro)[3]. Os desvios abstêmios que podem ocorrer normalmente se referem aos desvios de (abstêmio-mero usuário) ou 3º (abstêmio-usuário abusivo) escalão.

 

São exemplos de ABSTÊMIOS ENDÓGENOS ATÍPICOS: abstêmios superman[4] e abstêmios one step[5]. Os desvios abstêmios que podem ocorrer normalmente se referem aos desvios de 4º (abstêmio-adicto) escalão.


 

 

Por fim, sinalizo que em ambos os modelos de abstinência, exógena ou endógena, existe a interrupção definitiva do uso de drogas/álcool. Essas formas de abstinência são muito comuns e possuem enorme valia para todos os abstêmios. Aliás, cabe ressaltar que o número de abstêmios exógenos supera (muito) o número de abstêmios endógenos[6].


Péricles Ziemmermann)

 


REFERÊNCIAS

 

 

[1]   RIGOTTO, Simone Demore; GOMES, William B.. Contextos de abstinência e de recaída na recuperação da dependência química. PSIC.: TEOR. E PESQ., Brasília, v. 18, n. 1, p. 95-106, Abril/2002.

 

[2]   Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: FENÔMENOS ABSTÊMIOS ATÍPICOS

 

[3]   Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: ABSTÊMIOS POR TRAUMA

 

[4]  Ver nota 02.

 

 

[5]  Vide nota nº 02.

 

 

[6]   Por óbvio, esses dados são empíricos. Apesar disso, o estudo descrito na nota de rodapé 01 pode fornecer maiores elementos de convicção.

 

ZIEMMERMANN,       Péricles. PRINCÍPIOS       ABSTEMIOLÓGICOS.       Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8


 

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS:

Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

 

 

ZIEMMERMANN,      Péricles. ITINERÁRIOS      ABSTEMIOLÓGICOS.      Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8

 

 

ZIEMMERMANN,    Péricles. ABSTEMIOPATIAS.    Porto    Alegre/RS:    Editora Simplíssimo, 2021. ISBN 978-85-824583-6-5

 

 

 

 

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