ABSTINÊNCIA
ENDÓGENA E ABSTINÊNCIA EXÓGENA
Imagine dois abstêmios tendo, cada um deles, muitos anos de
abstinência. O primeiro abstêmio
acredita que a abstinência é algo obtido graças a algum fator externo (medicamento, remédio, internação,
grupo terapêutico, grupo anônimo ou
Poder Superior). O outro abstêmio acredita que a abstinência é algo interno e que a manutenção dessa condição é de sua própria
(auto)responsabilidade. Repetindo,
mais uma vez, ambos os abstêmios possuem longos períodos de abstinência. Qual dos abstêmios
está com a razão?
Vou me adiantar e responder que ambos os abstêmios possuem
razão. Nesses dois casos temos os fenômenos da ABSTINÊNCIA
EXÓGENA e ABSTINÊNCIA ENDÓGENA, respectivamente. Vamos analisar cada uma dessas
modalidades (tão comuns) de abstinência.
Na ABSTINÊNCIA
EXÓGENA o abstêmio acredita
que seu processo de abstinência possui um LOCUS EXTERNUS, ou seja, a origem da
abstinência se deve a um elemento
externo e que está “fora” do sujeito. Nesses casos os abstêmios costumam atribuir o sucesso do processo de abstinência
a fatores como: medicamentos, terapeutas, clínica de recuperação ou comunidade terapêutica em que foi internado, grupo
terapêutico ao qual pertence, grupo anônimo do qual participa
ou qualquer outra forma de Poder Superior.
Note que, para esses
abstêmios, a própria abstinência se baseia no locus externus de modo que
eles “confundem” as técnicas para iniciar, manter e permanecer em abstinência com a própria origem da
abstinência. Para esses abstêmios (com
abstinência exógena) o seu próprio processo de abstinência é resultado de algum fator externo que lhe “concedeu” a saída do universo da adicção. Essa modalidade de abstinência é a mais
utilizada por pessoas que, de certa forma, procuram
explicações espirituais, clínicas
ou sociais para a superação da drogadição. Embora existam estudos
que sinalizam a ABSTINÊNCIA
EXÓGENA como sendo mais efêmera do que a ABSTINÊNCIA ENDÓGENA, na prática, empiricamente, existem muitos
abstêmios exógenos com longos anos de abstinência[1].
Ainda no que se refere à ABSTINÊNCIA EXÓGENA, às vezes, pode
ocorrer a confusão entre uma técnica
para manter a abstinência e a própria origem da abstinência. Contudo, esse desalinho NÃO se sustenta por longos anos, ou seja, se o abstêmio está há muito tempo em
abstinência é porque NÃO
houve desarranjo.
Ademais, uma das vantagens dessa abstinência é que ela cria fortes laços sociais fazendo com que o abstêmio se relacione com outras pessoas que
também estão em abstinência. Essa modalidade de abstinência facilita
a superação de hábitos adictos
e, simultaneamente, neutraliza os lugares relacionados à adicção porque coloca o abstêmio, geograficamente, em novas dimensões. Os abstêmios exógenos
também são pessoas mais preparadas pera prestarem assistência e realizarem o 12º passo
dos grupos anônimos.
Na ABSTINÊNCIA
ENDÓGENA, por sua vez, o abstêmio acredita que seu processo de abstinência possui um LOCUS
INTERNUM, ou seja, a origem da abstinência se deve a um elemento interno
e que está “dentro” do sujeito. Nesses casos os abstêmios
costumam atribuir o sucesso do processo de abstinência
a fatores como: autorresponsabilidade, autoenfrentamento da crise, autossuperação, realização de mudanças,
readequação das distorções cognitivas ou abandono da autopiedade, autossabotagem e
autossuficiência como mecanismos que
davam sustentação à drogadição. Para esse abstêmio (com abstinência endógena)
o seu “próprio” processo de abstinência é resultado de algum fator interno que após ser encontrado, através
do autodiagnóstico (dirigido
ou não), lhe “concedeu” a saída do universo da adicção.
Essa modalidade de abstinência é a mais utilizada por pessoas que, de certa forma, procuram explicações
lógicas, racionais ou psicológicas para a superação da drogadição.
A ABSTINÊNCIA ENDÓGENA ainda
é muito focada no “EU”. Isso faz com que, em regra,
esses abstêmios sejam mais refratários à ideia de assistência ou prestação de auxílio aos outros
colegas. Porém, se o abstêmio está há muitos
anos em abstinência, tudo indica que o egoísmo que sustentava a adicção foi substituído ou neutralizado
por outra forma de pensar. Nessa forma de
manter-se abstêmio haverá uma separação muito nítida entre as técnicas para manter-se abstêmio e a própria origem
e desenvolvimento da abstinência. De qualquer
forma, essa abstinência possui muitos adeptos.
São exemplos de ABSTÊMIOS
EXÓGENOS ATÍPICOS: abstêmio do efeito wundermittel[2] e abstêmio por trauma (próprio ou de terceiro)[3]. Os desvios abstêmios
que podem ocorrer
normalmente se referem
aos desvios de 2º (abstêmio-mero usuário) ou 3º (abstêmio-usuário abusivo) escalão.
São exemplos
de ABSTÊMIOS ENDÓGENOS
ATÍPICOS: abstêmios superman[4] e abstêmios one step[5]. Os desvios abstêmios
que podem ocorrer
normalmente se referem
aos desvios de 4º
(abstêmio-adicto) escalão.
Por fim, sinalizo
que em ambos os modelos
de abstinência, exógena
ou endógena, existe a interrupção definitiva do uso de drogas/álcool. Essas formas de abstinência são muito comuns e possuem
enorme valia para todos os abstêmios.
Aliás, cabe ressaltar que o número de abstêmios exógenos
supera (muito) o número de abstêmios
endógenos[6].
Péricles Ziemmermann)
![]()
REFERÊNCIAS
[1] RIGOTTO, Simone Demore;
GOMES, William B.. Contextos de abstinência e de recaída
na recuperação da dependência química.
PSIC.: TEOR. E PESQ., Brasília,
v. 18, n. 1, p. 95-106, Abril/2002.
[2]
Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: FENÔMENOS ABSTÊMIOS
ATÍPICOS
[3]
Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: ABSTÊMIOS POR TRAUMA
[4] Ver nota nº 02.
[5] Vide nota nº
02.
[6] Por óbvio,
esses dados são empíricos. Apesar
disso, o estudo descrito na nota de rodapé nº 01 pode fornecer maiores
elementos de convicção.
ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto
Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles.
TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS:
Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0
ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto
Alegre/RS: Editora
Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8
ZIEMMERMANN, Péricles. ABSTEMIOPATIAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2021. ISBN
978-85-824583-6-5
Nenhum comentário:
Postar um comentário