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sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Abstemiopatias 2/12 - ABSTINÊNCIA ABSOLUTA OU ABSTINÊNCIA RELATIVA

ABSTEMIOPATIAS 2/12 - 

ABSTINÊNCIA ABSOLUTA OU ABSTINÊNCIA RELATIVA1


ESTUDO PARCIAL DO LIVRO:

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

ABSTINÊNCIA ABSOLUTA OU ABSTINÊNCIA RELATIVA¹


Manter-se em abstinência significa ficar sem usar nenhuma droga/álcool?


Existe abstinência total ou absoluta? Nesse estudo veremos que não há

abstinência total ou absoluta, apenas abstinência parcial ou relativa.

Já vimos em estudos anteriores que o conceito dado à expressão

“drogas/álcool” pode variar e ser mais elástico ou mais restritivo. Nessa toada, se considerarmos apenas as drogas ilícitas (conceito restritivo) como sendo causadoras de dependência, estaremos, automaticamente, excluindo drogas lícitas, tais como bebidas alcoólicas, cigarros (tabaco) e medicamentos. Por outro lado, podemos ampliar o conceito de drogas (conceito ampliativo) e abranger, além de substâncias psicoativas (SPA) lícitas ou ilícitas, outros comportamentos, como, por exemplo, jogos, sexo, fanatismo religioso, afetividade, neoadicções tecnológicas (internet), trabalho (workaholic) e alimentação. Ademais, podemos ampliar ainda mais esse conceito (conceito máximo) e compreender como sendo “drogas” outros comportamentos omissivos e, nesse caso, estaremos abrangendo sedentarismo, preguiça física, preguiça intelectual, e até mesmo imaturidade emocional²

.

Assim, o que exijo do nobre leitor é que faça o raciocínio no sentido de

entender como sendo “droga” uma multiplicidade de comportamentos. Entendo que qualquer forma de comportamento que cause a estagnação consciencial da pessoa pode ser compreendida como sendo “droga”. Nesse sentido, conheço pessoas que deixaram de evoluir consciencialmente após ingressarem em certos grupos sociais, como por exemplo: professores que após a colação de grau nunca mais fizeram nenhuma atualização (preguiça intelectual estagnativa), religiosos que após entrarem para um grupo confessional deixaram de mudar e evoluir (fanatismo religioso), ou abstêmios que pararam de usar drogas/álcool e não fizeram nenhuma mudança significativa em suas vidas pessoais e nem prestam assistência (preguiça assistencial).


Citarei um exemplo que pode ser radical, mas ajuda bastante na abertura da mente (quebra de crenças) para compreender a ampliação máxima do conceito de drogas/álcool. Imagine que alguém chega em casa após um dia cansativo de trabalho. Como de costume, essa pessoa toma seu banho, alimenta-se e senta-se no sofá para assistir televisão. Agora, imagine que esse comportamento foi realizado por 30 anos. Recentemente, essa pessoa fez uma consulta médica e descobriu que está com diabetes e outros problemas cardíacos. Nesse caso, especificamente, temos uma pessoa que foi sedentária (preguiça física) e que, por causa desse comportamento negligente e omissivo, sofreu uma overdose. Sim, se ampliarmos ao máximo o conceito de drogas/álcool, podemos compreender que o sedentarismo gerou uma “overdose de preguiça física” que debilitou sua saúde física.


Após esses breves esclarecimentos, podemos perceber que quanto MAIS AMPLO for o conceito dado à expressão “drogas/álcool”, MENOR será a probabilidade de obtermos a abstinência absoluta. Em outra toada, quanto MENOS AMPLIATIVO for o conceito dado à expressão “drogas/álcool”, MAIOR será a possibilidade de obtenção da abstinência absoluta. Penso, singelamente, que a abstinência da totalidade das dependências ou dos comportamentos viciosos seja algo utópico e incapaz de ser atingido.


A ABSTINÊNCIA ABSOLUTA compreende a interrupção de toda e qualquer forma do uso de drogas/álcool. Entretanto, como vimos, quanto mais elástico for o conceito de drogas/álcool, mais difícil será obter a abstinência absoluta.


Por exemplo, se entendermos que cafeína é droga – como de fato é –, para manter a abstinência, a pessoa não poderá consumir determinados

refrigerantes, bebidas energéticas, compostos vitamínicos, medicamentos, alimentos ou chás. Dessa forma, o conceito de abstinência absoluta tem relação direta com a amplitude e abrangência dada ao conceito de drogas/álcool.


A ABSTINÊNCIA RELATIVA, entretanto, deve relacionar-se diretamente

somente com as substâncias utilizadas durante o processo de adicção ou algumas drogas correlatas. Por óbvio, seria impossível para qualquer pessoa se abster de utilizar TODAS as drogas/álcool que existem, porque isso seria impraticável, visto que, inclusive, muitos alimentos também podem ser englobados pelo conceito de drogas/álcool³

.

Simplificando isso tudo, o processo abstêmio consiste em abster-se de

utilizar as drogas/álcool que foram responsáveis pelo desencadeamento do processo de adicção, bem como outras drogas/álcool que tenham relação com a adicção. Dessa forma, se a pessoa é dependente de nicotina, ela não poderá voltar a fumar cigarro e, também, deverá abster-se de charutos, cigarros de palha, cigarrilhas, maconha e até mesmo da cafeína, porque poderia gerar fissura pela nicotina. Porém, ela pode continuar sendo usuária positiva – mera usuária – de álcool, já que essa não foi a principal substância envolvida na sua adicção. Entretanto, não se recomenda essa atitude, porque a compulsão pela nicotina poderá migrar para outra droga/álcool e restabelecer outro processo de adicção4

.

Diante disso, a pessoa deverá abster-se do uso de drogas/álcool que lhe causaram o processo de adicção, bem como daquelas drogas/álcool correlatas, ou seja, se o abstêmio utilizava cocaína, deverá se abster de usar maconha, álcool ou benzodiazepínicos. Porém, nesse caso, poderá tomar café ou fumar cigarro. Francamente, esse fato é muito comum, mas, como dito antes, não se recomenda, já que o ideal seria abster-se também da nicotina e da cafeína.


Após todo esse raciocínio, podemos concluir que a abstinência absoluta

é uma utopia, mas a abstinência relativa é a realidade. A abstinência é

relativa porque se refere à privação do maior número de drogas/álcool possível, mas não de todas as drogas/álcool que existem na sociedade. Portanto, sobre esse tema, surgem algumas máximas abstemiológicas:


 A abstinência se relaciona diretamente com a amplitude e a

abrangência do conceito de drogas/álcool.

 Quanto MAIOR for a elasticidade da definição de drogas/álcool,

MENOR será a probabilidade de obter a abstinência absoluta, e vice-versa.

 A abstinência absoluta é utópica, enquanto a abstinência relativa é real e factível.

 A abstinência relativa deve ter a maior abrangência possível para

afastar o uso da maior quantidade plausível de drogas/álcool.

 Quanto maior poder de causar dependência a droga/álcool tiver, maior deverá ser a austeridade do processo abstêmio, bem como maior deverá ser a extensão da abstinência relativa.

 Toda abstinência será sempre relativa porque jamais conseguirá

abranger a totalidade das drogas/álcool ou comportamentos viciosos que existem no meio social.

Assim, concluímos que a abstinência total ou absoluta, na prática, é inviável.

A abstinência parcial ou relativa é possível porque se refere à droga/álcool que inviabilizou a existência digna da pessoa, bem como as drogas/álcool correlatas e que podem causar a migração do processo de adicção, inviabilizando, novamente, a vida do abstêmio.



1 ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora

Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora

Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora

Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-924432-3-8

2 Nesse caso, usando o conceito máximo de drogas, podemos compreender a Síndrome de Peter Pan como sendo uma adicção (vício) do comportamento imaturo.

3   A conclusão de um estudo da Universidade de Michigan (EUA) foi a de que determinados alimentos possuem alto poder para causar dependência, como, por exemplo: pizza, chocolate, salgadinhos processados, cookies, sorvete, batata frita, cheeseburger, refrigerante, bolo, queijo, bacon, frango frito, pipoca amanteigada, cereal matinal, bife, muffins, nozes e ovos.

4   FENÔMENO DA MIGRAÇÃO DA ADICÇÃO: ocorre quando a adicção inicial ou primordial é estancada, mas surge novo processo de adicção por outra droga/álcool correlata ou não com a adicção principal. Por exemplo: a pessoa era adicta de maconha (THC), mas conseguiu manter-se em abstinência. Porém, começou a fumar cigarro (tabaco) e, atualmente, fuma mais de 02 (dois) maços por dia. Nesse exemplo, muito comum na prática, houve a substituição da droga de eleição (maconha – THC) por outra droga correlata (tabaco – nicotina).






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