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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Abstemiopatias 12/12 - SÍNDROME ABSTÊMIA DA TORRE DE BABEL

 

SÍNDROME ABSTÊMIA DA TORRE DE BABEL

 

Você já passou por alguma situação na vida em que precisou pedir orientações sobre como resolver determinado problema para outras pessoas? Agora, imagine que você tenha pedido ajuda para 20 (vinte) pessoas e cada uma delas deu uma sugestão diferente, qual das sugestões você vai acatar? É isso o que ocorre quando o abstêmio precisa de ajuda e cada ator que participa do seu processo de abstinência resolve dar uma sugestão diferente. Essa confusão que se forma é conhecida como síndrome abstêmia da torre de babel. Nesse breve estudo vamos entender como isso se desenvolve e como pode ser solucionado.


Exemplificando: o abstêmio deseja comparecer a alguma festividade, mas antes de tomar a decisão pergunta qual é a opinião das pessoas que participam do seu processo de abstinência sobre esse evento. Daí, podemos ter situações como: o padrinho pode sugerir que não deve comparecer; o psicólogo pode sugerir que deve comparecer desde que use alguma outra técnica de forma concomitante; seus familiares lhe dizem para comparecer obrigatoriamente; seus amigos sugerem que deve comparecer e que ele pode “beber” desde que seja, apenas, “um pouquinho”; sua esposa diz que ele deve comparecer, mas tem hora certa para voltar; e seu psiquiatra diz que ele pode comparecer se ingerir medicação ansiolítica antes e depois da festividade. Qual será a decisão a ser tomada pelo abstêmio? Essa confusão e divergência de opiniões é um exemplo da síndrome abstêmia da torre de babel.


Essa síndrome é caracterizada pela confusão que se estabelece no abstêmio quando existirem vários interlocutores de sobriedade. Quanto mais pessoas estiverem influenciando as decisões do abstêmio, mais conflitos internos ele sentirá. Então, quando outros abstêmios, terapeutas, familiares, psiquiatras, assistentes sociais ou psicólogos apresentam sugestões divergentes sobre o mesmo evento, mais dúvidas e indagações surgirão.

 

Essa síndrome pode se agravar sobremaneira quando não houver convergência nas opiniões, porém pode ser muito reduzida caso todos os envolvidos tenham sugestões muito similares. Isso ocorre porque fica mais fácil tomar uma decisão quando várias pessoas dão a mesma orientação, mas, por outro lado, caso os envolvidos no processo de abstinência tenham opiniões divergentes a situação se complica. O abstêmio pode sentir uma confusão na linguagem gerada por todos que lhe desejam ajudar de modo que as diversidades dos sistemas de crenças e dos sistemas ideológicos apresentados podem desorientar ou embaralhar o processo abstêmio.

 

Agora que você já sabe como essa síndrome se manifesta podemos passar para a próxima etapa: como resolvemos essa crise? Para remediar essa síndrome, o abstêmio precisa de autoconhecimento, responsabilidade e lucidez já que somente ele poderá, no final das contas, decidir o que é mais protetivo para si. Recorde-se, além disso, da existência do princípio do in dubio pro abstinentia2 que sinaliza ao abstêmio a necessidade de tomar as medidas mais adequadas à manutenção da abstinência evitando colocar-se em situações de risco de forma desnecessária.

 

Cito algumas características relevantes da síndrome abstêmia da torre de babel:

 

·    Essa síndrome se manifesta com mais frequência no início do processo de abstinência (caráter preliminar) de forma que seu maior impacto se dirige aos abstêmios mais novatos (abstêmio mínimo e abstemenor);

 

·    Para a existência dessa síndrome se faz necessário uma multiplicidade e divergência de opiniões. Já vimos anteriormente que as opiniões no mesmo sentido não geram essa crise. Esse é o caráter da pluralidade de pessoas e de opiniões;

 

·    Essa síndrome só pode ocorrer antes da tomada de decisão (caráter precedente), ou seja, quando o abstêmio procura ajuda e opiniões para decidir sobre como deve comportar-se ou agir em determinado momento. Assim, caso o abstêmio já tenha tomado sua decisão a importância dada àquilo que os outros vão lhe dizer não causa essa síndrome porque não existe conflito interno;

 

·    Essa síndrome é frequentemente usada como desculpa para justificar eventuais recaídas. Explico: o abstêmio pede a opinião de várias pessoas sobre determinado problema e opta por seguir a opinião mais incoerente com o processo de abstinência. Isso é muito comum nos casos em que a pessoa não deseja manter-se em abstinência. Esse é o caráter ambivalente dessa síndrome já que pode gerar a manutenção da abstinência ou o retorno ao processo de adicção;


2 A obra PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS (desse mesmo autor e dessa mesma Editora) discorre acerca de 81 (oitenta e um) princípios relevantes ao início, desenvolvimento e manutenção do processo de abstinência. O princípio do in dubio pro abstinentia é apresentado em tal livro.


·    Existem modelos de solução de controvérsias que sugerem a aplicação da técnica da opinião média, ou seja, em havendo várias opiniões sobre como comportar-se ou agir, o abstêmio deve aplicar a opinião mediana e que não lhe restrinja e nem lhe exponha a perigos de forma desnecessária. Sinceramente, não concordo com essa técnica. Entendo, modestamente, que nesses casos deve ser aplicada a técnica da opinião mais restritiva de modo que, em havendo dúvida sobre como comportar-se ou agir, o abstêmio deve aplicar a opinião mais restritiva e que lhe mantenha no processo abstêmio. Penso que nos casos de abstêmios mais experientes (abstemaior e mega- abstêmio) podem ser aplicadas outras técnicas para resolver esse conflito, por exemplo, a mencionada técnica da opinião média ou, até mesmo, a técnica da opinião elástica3. Esse é o caráter técnico dessa crise;

 

·    Em regra, a opinião de outro amigo que também seja abstêmio (como no caso dos padrinhos ou madrinhas dos grupos anônimos) sempre terá um peso maior na hora da tomada de decisão. Por isso, os abstêmios possuem uma enorme responsabilidade ao darem suas opiniões para outros colegas de sobriedade, sobretudo quando a opinião é direcionada aos mais novos. Esse é o caráter de efetividade dessa crise.


Por último, quanto mais pessoas derem opinião e tiverem o poder de influenciar a decisão do abstêmio, mais conflitos serão gerados na sua psique. Por isso, é tão relevante que as opiniões dadas tenham fundamento técnico e sejam condizentes com a manutenção e desenvolvimento do processo de abstinência.

 

3 A técnica da opinião elástica sugere que os abstêmios mais experientes podem expor-se a situações de risco e de perigo desde que sejam por curto período de tempo. Assim, havendo várias opiniões sobre como o abstêmio deve agir ou comportar-se ele pode optar pela opinião que lhe traga mais riscos de perda da abstinência. Para aplicar essa técnica são necessários, no mínimo, três requisitos: multiplicidade/divergência de opiniões, lapso temporal abstêmio extenso (muito extenso) e exposição às situações de risco por curtíssimo período.

REFERÊNCIAS

[1]   RIGOTTO, Simone Demore; GOMES, William B.. Contextos de abstinência e de recaída na recuperação da dependência química. PSIC.: TEOR. E PESQ., Brasília, v. 18, n. 1, p. 95-106, Abril/2002.

 

[2]   Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: FENÔMENOS ABSTÊMIOS ATÍPICOS

 

[3]   Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto no site da ABSTEMIOLOGIA: ABSTÊMIOS POR TRAUMA

 

[4]  Ver nota 02.

 

 

[5]  Vide nota nº 02.

 

 

[6]   Por óbvio, esses dados são empíricos. Apesar disso, o estudo descrito na nota de rodapé 01 pode fornecer maiores elementos de convicção.

 

ZIEMMERMANN,     Péricles.      PRINCÍPIOS     ABSTEMIOLÓGICOS.      Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8

 

 

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS:

Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

 

 

ZIEMMERMANN,     Péricles.     ITINERÁRIOS     ABSTEMIOLÓGICOS.     Porto

Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8

 

 

ZIEMMERMANN, Péricles.   ABSTEMIOPATIAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2021. ISBN 978-85-824583-6-5

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