Sociedade de Temperança Washington (1840) =
>. Na contramão da sentença preconizada por um dos fundadores da Sociedade Americana para a Promoção da Temperança, Justin Edwards em 1822, “Mantenha sóbrias as pessoas sóbrias; em breve, todos os bêbados irão morrer e a terra se verá livre deles”, uma noite de quinta-feira, 2 de abril de 1840, seis companheiros de boemia, todos eles bebedores contumazes, estavam reunidos em torno de uma mesa da Taverna Chasels, na Rua da Liberdade, em Baltimore, Virgínia, (EUA); foram eles: William K. Mitchell, um alfaiate; John F. Hoss, um carpinteiro; David Anderson e George Steers, dois ferreiros; James McCurley, fabricante de carroças, e Archibald Campbell, um ourives. Conversa vai, conversa vem, começaram a falar sobre a temperança, um dos assuntos da moda à época. Naquele dia a conversa girou entorno de uma palestra sobre a temperança que um professor visitante, o reverendo Matthew Hale Smith (1810-1879), iria proferir na cidade. Quatro deles se propuseram a assistir e ao seu retorno todos discutiram a palestra. Ao final da discussão, alegremente ergueram seus copos e brindaram às virtudes da temperança, enquanto condenavam a maldição do alcoolismo. Porém aquela proposta de temperança começou a se cristalizar em suas mentes.
No domingo, dia 5, eles voltaram a se reunir na taverna e a discussão sobre o tema da temperança voltou à tona. Surpreendentemente, após terem bebido umas e outras, tomaram a decisão de parar de beber e organizar uma sociedade de abstinência total. Eles próprios constituíram a diretoria sendo acordado que Mitchell seria o presidente, Campbell o vice-presidente, Hoss o secretário, McCurley o tesoureiro, e Steers e Anderson a comissão permanente. Instituíram as taxas de 25 centavos de dólar a inscrição, e, 12,5 centavos de dólar a mensalidade. Cogitaram de homenagear Thomas Jefferson (1743-1826, foi o terceiro presidente dos EUA, 1801-1809), como patrono da organização, mas a proposta foi rejeitada e delegaram ao presidente Mitchell e ao secretário Hoss a elaboração da Constituição e da escolha do nome para a organização. Nessa reunião decidiram que o presidente deveria compor a promessa de total abstinência que todos deveriam assinar no dia seguinte.
Na segunda-feira às nove horas, como combinado, Mitchell
dirigiu-se à casa de Archibald e
encontrou-o ainda na cama curtindo a ressaca do domingo. No entanto,
levantou-se, vestiu-se, e após ouvir a leitura da promessa desceu à sua loja de
canetas e tinta, e lá se concedeu a honra de ser o primeiro a assinar o
compromisso de temperança composto por Mitchell que rezava: “Nós, abaixo-assinados, com o propósito de constituir uma sociedade para nosso próprio
beneficio e para nos proteger de costumes perniciosos e prejudiciais à nossa
saúde, à nossa reputação e às nossas famílias, nos comprometemos, como
cavalheiros, a não ingerir qualquer bebida espirituosa, nem licores de malte,
nem vinhos ou sidra”.
Escolheram
o nome “Washington Temperance
Society” ou Sociedade
de Temperança Washington, em
homenagem ao primeiro presidente dos EUA George
Washington (1732-1799), e começaram a escrever a constituição da nova
sociedade que previa que somente pessoas com problemas de alcoolismo poderiam
fazer parte independentemente de sua condição social, política ou religiosa.
Aliás, assuntos políticos e religiosos eram terminantemente proibidos em suas
reuniões que começaram na mesma taverna, até que, devido ao inesperado
crescimento de associados, e à implicância do dono do local, alugaram uma sala
comercial e tornaram habitual uma reunião semanal que terminava sempre com o
compromisso assumido de que cada participante presente trouxesse mais um bêbado
na próxima reunião; nessas reuniões desenvolveram o procedimento, único até
então, de que cada orador conta-se sua própria história calcada no preposto de
“como eu era, o quê aconteceu comigo e
como sou agora”, depois usado em A.A. E se mantiveram sóbrios.
Em
novembro de 1840 realizaram sua
primeira reunião publica: o comparecimento foi maciço, a imprensa deu ampla
cobertura com reportagens muito favoráveis e que incluíam também o nome
completo dos fundadores. Tanto os alcoólicos como os não alcoólicos que se
comprometiam com a total abstinência eram bem-vindos ao grupo.
Cinco
meses mais tarde o movimento declarava constar de seus quadros mais de 1.000
alcoólicos recuperados, 5.000 abstinentes indecisos quanto à conclusão se eram
ou não alcoólicos, e outros 1.000 que mantinham abstinência total.
Algum tempo depois organizaram um espetacular desfile em
Baltimore, com banda de música, balizas e estandartes, presenciada por mais de
40.000 pessoas. Alto-falantes espalhavam ao vento: "Bêbado, venha até nós. Você pode se recuperar. Não desprezamos os bêbados, amamo-los
e guiamo-los, assim como uma mãe guia seus filhos nos primeiros passos".
A
abstinência total parecia um milagre. Era evidente que uma revolução moral
estava começando a se implantar, e todos os olhares estavam agora dirigidos ao Temperance Society of Washington em
Baltimore, como o centro de todas as suas operações.
Não foi possível manter os milagres dos Washingtonianos dentro de seus limites geográficos. A partir daí, o movimento ultrapassou as fronteiras de Baltimore e depois da Virgínia. Criaram uma organização paralela feminina que recebeu o nome da mulher do presidente G. Washington, Martha Washington (1731-4802), que alimentava e vestia os mais necessitados enquanto buscava apoio e adeptas ao movimento entre o sexo feminino. Seus membros estavam convencidos de que deles dependiam o socorro para os mais aflitivos casos; os alcoólicos recuperados e em atividade dentro do Movimento comprovaram, com seus exemplos, que podiam ajudar aos alcoólicos e estavam possuídos de uma extraordinária disposição de levar sua mensagem.
Depois,
essa campanha se ampliou, pela persuasão, no sentido de evitar o mesmo
sofrimento aos ainda não atingidos pelo alcoolismo, objetivando que
prosseguissem com a sobriedade através de uma total abstinência. Os líderes
mais influentes do Movimento eram de opinião de que necessitavam de bons “vendedores” para espalhar a mensagem de
prevenção e, os membros dos grupos washingtonianos proporcionaram uma vasta
relação de pessoas disponíveis. Nascia o 12º Passo remunerado.
Em menos de quatro anos da relatada reunião no botequim, o número de washingtonianos chegava ao máximo: estimava-se que o movimento incluía, no mínimo, 100.000 alcoólicos recuperados e 300.000 bebedores normais em total abstinência – (Alcoólicos Anônimos, ao cabo desse tempo todo, não tinha mais que cem membros). Com a arrecadação das inscrições e a contribuição mensal de seus membros o movimento tornou-se muito influente e poderoso. Membros não alcoólicos de prestigio acharam que as mensagens aos alcoólicos seriam desnecessárias se as bebidas fossem proibidas por lei, e iniciaram campanhas nesse sentido. Compraram briga com as igrejas ao afirmar serem os washingtonianos os verdadeiros praticantes do cristianismo e com os políticos ao se envolverem em questões polêmicas, tais como a abolição da escravatura - que viria a ocorrer em 1º de janeiro 1863, através de um Ato de Emancipação assinado pelo 16º presidente dos EUA, Abraham Lincoln (1809-1865).
Mas
logo chegaria ao esquecimento total. Pelo ano de 1848, tudo o que restava da espetacular e poderosa organização com
seu método original de tratamento do alcoolismo, era o Asilo dos Decaídos, em Boston, que após várias
modificações, no nome e
na orientação, funciona
hoje com o nome de Hospital
Washingtoniano, dedicando-se ao tratamento do alcoolismo seguindo
modernas técnicas médicas.
Embora
o programa de recuperação dos washingtonianos não fosse tão completo como os Doze Passos de A. A., nasceu da
experiência dos milhares de alcoólicos que através dele conseguiram a
sobriedade, e desenvolveram alguns métodos e procedimentos semelhantes aos que
mais tarde seriam adotados por Alcoólicos Anônimos:
1. Alcoólicos se ajudando mutuamente.
2. Reuniões semanais,
ou de frequência periódica.
3. Experiências
compartilhadas.
4. Levar a mensagem a outros.
5. A dependência de um poder superior
6. Total abstinência ao álcool.
Porém, falhou em não oferecer um método de conduta, para membros e grupos, e estas falhas inspiraram boa parte das Doze Tradições de A.A.; a maioria dos problemas dos washingtonianos situou-se em áreas amplamente protegidas por elas: atração ao invés da promoção, não usar de persuasão, o respeito ao anonimato, consciência coletiva, servidores não chefes, princípios acima das personalidades, não entrar em controvérsia pública, centrar-se no problema comum: alcoólico para alcoólico, não se meter em assuntos alheios ao movimento, não profissionalismo, etc. Não existindo garantias de salvaguarda para o movimento em seu conjunto, este implodiu. Embora toda esta trajetória basta-se para escrever a maioria das Doze Tradições de A.A., ela subsidiou apenas os textos das Tradições Quinta e Décima.
Tendo a breve história anterior como exemplo, é
possível efetuar uma limitada comparação entre o Movimento Washingtoniano e Alcoólicos Anônimos
e, meditar sobre as possibilidades de A.A. ter um
destino semelhante.
Esta experiência deu origem a uma sentença
usada em A.A.: “Se um dia
a Irmandade de
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