Doze (Os) Passos de A.A. =
> Desde
o ingresso de Bill no Grupo de Oxford em dezembro de 1934, ele e Ebby desenvolveram um “programa de informação verbal” a partir da mensagem de Ebby, em
novembro daquele ano, e dos conhecimentos adquiridos nesse Grupo através do
Rev. Samuel Shoemaker: as ideias de autoconhecimento,
reconhecimento de defeitos de caráter,
reparação para dano causado e trabalhando com outros. Da leitura do
livro “As Variedades da Experiência
Religiosa” de William James saíram os conceitos da calamidade e o colapso, e o
apelo dirigido a um poder superior. Resumiram-no numa proposta que
consistiu de seis passos:
1.
Admitir a derrota e a impotência perante o álcool.
2.
Fazer um inventário moral
de todos os defeitos.
3.
Compartilhar
essas imperfeições com outra pessoa, de forma confidencial.
4.
Fazer reparações àqueles que tínhamos prejudicado, devido
à nossa bebedeira
5. Ajudar outros alcoólicos, sem buscar recompensa em dinheiro ou prestígio.
6. Pedir a Deus a força necessária para praticar estes preceitos. Isto era em essência o que, em fins de 1937, se estava dizendo aos recém-chegados em Nova York.
Enquanto isso, na área de influência do Dr. Bob, Akron e Cleveland, seguia-se uma orientação extremamente fundamentalista, baseada em estudos bíblicos e leituras do pensamento cristão do Grupo de Oxford, como consta de um relatório feito por Frank Amos a pedido de John D. Rockefeller sobre o “pretenso Grupo Alcoólico de Akron, Ohio”:
1.
Um
alcoólico deve reconhecer que é um doente incurável do ponto de vista médico, e
que precisa deixar de beber para sempre qualquer coisa que contenha álcool.
2. Deve de alguma
forma se render
a Deus, percebendo que em si próprio não há esperança.
3.
Não
somente deve querer parar de beber permanentemente, mas remover de sua vida
outros pecados, tais como o ódio, o adultério, e outros que, com frequência,
acompanham o alcoolismo. Se não seguir esses passos de forma absoluta, Smith e
seus associados se recusam a trabalhar com ele.
4.
Deve
fazer devoções todas as manhãs – um ‘momento de silencio’ para a oração e para
a leitura da bíblia e de outra leitura religiosa. Se isso não for seguido
fielmente, há grave perigo de uma recaída.
5.
Deve
estar disposto a ajudar outros alcoólicos a se recuperarem. Isso levanta uma
barreira protetora e fortalece sua própria força de vontade e convicções.
6.
É
importante, mas não vital, que, com frequência, reúna-se com alcoólicos
reformados e juntos formem um companheirismo social e religioso.
7.
Importante,
mas não vital, que participe de algum tipo de serviço religioso pelo menos uma
vez por semana.
Bill
e o Dr. Bob, com o apoio dos primeiros membros do movimento recém-criado,
chegaram a um acordo para escrever um programa único que teria como base algo
muito próximo dos seis passos iniciais. Entretanto, quando Bill começou a
escrever o quinto capítulo - Como
Funciona, do livro Alcoólicos Anônimos, onde Os Doze
Passos estão relatados, entendeu que esse programa permitia brechas através
das quais a racionalização alcoólica poderia fazer em
pedaços aqueles passos e se dispôs a fazer o rascunho de mais seis passos,
enfatizando mais a postura religiosa de Akron. Isto resultou num formato muito
parecido com um desdobramento dos seis passos originais e totalizou doze
passos.
Bill
gostou do resultado; os membros de Akron, conservadores, também. Já, boa parte
dos membros do Grupo de Nova York reagiu muito mal: tinha Deus demais na
parada, e não aceitavam se “ajoelharem” perante
ninguém como constava no Passo Sete; ponderaram que a média dos alcoólicos não
iria aceitar aquilo do jeito que estava.
Os
membros que participavam da redação do programa dividiram-se em três grupos: os
conservadores, liderados por Fitz M. - o segundo AA de Nova York,
eram favoráveis ao pensamento bíblico no sentido doutrinal da palavra;
basicamente eram os que seguiam as orientações do Dr. Bob do Grupo de Oxford.
Os liberais formavam
o maior contingente e não colocaram objeção ao uso da palavra “Deus”, mas mostraram-se totalmente
contrários a qualquer proposta teológica: espiritualidade sim, religião não.
Por último os radicais: não queriam nem Deus nem religião. Liderados por Hank P., o primeiro AA de Nova York, e por Jim B., ex-aluno de escolas religiosas, agnóstico convicto - tinha aversão a todas as igrejas e religiões estabelecidas, consideraram que a palavra Deus deveria ser substituída por um “poder universal”; eram favoráveis a um programa psicológico que atraísse o alcoólico e uma vez dentro do Grupo, o membro poderia aceitar Deus ou não, como quisesse. Após acalorados debates chegou-se a um compromisso formal que Bill W. considerou aceitável, mas que para o futuro de A.A. foi de fundamental importância, já que abria as portas da Irmandade a todos aqueles que queiram se recuperar sem qualquer tipo de condicionamento religioso: ateus, agnósticos, apóstatas, teístas, panteístas, deístas, objetores de consciência, etc. No Passo Dois, foi colocado “um Poder Superior a nós mesmos”, nos Passos Três e Onze, foi inserido “Deus, na forma em que O concebíamos”, descrições estas creditadas a Jim B. - embora a primeira também seja dividida com William James (que foi ateu), e que também ajudaram a descrever a Terceira Tradição. Do Passo Sete foi retirado “ajoelhados”, e o conjunto todo deveria ser apresentado como sugestões.
Os liberais formavam o grupo maior, mas tinham desvantagem em relação aos grupos radicais e conservadores juntos. Assim, o programa dá ênfase à espiritualidade, porém, não existindo maioria absoluta prevaleceu o consenso negociado por Hank P. e Jim B. do livre arbítrio, isto é, não-dogmático. Assim, como sentença de cabeçalho estão escritas estas palavras: “Eis os Passos que aceitamos, os quais são sugeridos como programa de recuperação”.
Portanto,
Os Doze Passos de A.A. são apenas sugestões
para que qualquer pessoa possa tentar e aceitar. Cada membro pode interpretar à sua vontade
estes princípios ou até mesmo nem lhes dar importância se assim o desejar.
O
enunciado dos Doze Passos, redigido na primeira pessoa do plural, indica que
seus autores foram os primeiros membros do movimento e também coautores do
livro “Alcoólicos Anônimos” que deu o
nome àquele movimento. Os nove primeiros Passos estão conjugados no pretérito
perfeito e neles os pioneiros dizem o que fizeram para alcançar a sobriedade e conseguir a recuperação; nos três últimos
Passos, conjugados no presente, eles
contam o que continuaram a fazer para manter a sobriedade e a recuperação
alcançadas.
Na
página 88 do Livro Azul (4ª edição, Junaab, código 102), e nas paredes das
salas de A.A.do mundo inteiro em forma de persianas ou banners, são
apresentados assim:
“Eis os Passos que aceitamos, os quais são sugeridos como programa de recuperação:”
1.
Admitimos que éramos impotentes
perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio das nossas vidas.
2.
Viemos acreditar que um poder Superior a nós mesmos
poderia devolver-nos a sanidade.
3.
Decidimos entregar nossa vida e
nossa vontade aos cuidados de Deus, na forma em que O Concebíamos.
4.
Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5. Admitimos
perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata das nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos
de caráter.
7. Humildemente rogamos
a Ele que nos livra-se
de nossas imperfeições.
8.
Fizemos uma relação de todas
aquelas pessoas que tínhamos prejudicado, e nos dispusemos a reparar os danos a
elas causados.
9.
Fizemos reparações diretas dos
danos causados a tais pessoas sempre que possível, salvo quando fazê-lo
significasse prejudicá-las, ou a outrem.
10.
Continuamos fazendo o inventário
pessoal e, quando estávamos errados nós o admitíamos prontamente.
11.
Procuramos, através da prece e da
meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O
Concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e
forças para realizar essa vontade.
12.
Tendo experimentado um despertar
espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem a outros
alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
N.T.: 1 - Embora boa parte dos Doze Passos
tenham sido inspirados em preceitos seguidos pelo Grupo de
Oxford, este movimento nunca teve em seu
programa nada parecido com a denominação de Passos ou Etapas. O núcleo do programa do Grupo de Oxford
eram “Os Quatro Absolutos”: honestidade
absoluta, abnegação absoluta,
pureza absoluta e amor absoluto; tinham também os cinco “Cs”: confiança,
confissão, convicção, conversão e continuidade; e ainda os “cinco
procedimentos”: entregar-se a Deus, atender a direção de Deus, confirmar a orientação,
restituição e compartilhar - para dar testemunho e confessar. (A.A. Atinge a Maioridade, Levar Adiante,
etc.)
N.T.: 2 - A ideia de se fazer o programa em Passos
numerados parece ter sido inspirada nas “Nove
Etapas” para o tratamento do alcoolismo que o terapeuta leigo Richard
Peabody advindo do Movimento Emmanuel
(ver abaixo), concebeu no livro “O
Senso Comum de Beber” de 1931, muito lido pelos primeiros AAs;
todavia o teor dos Passos é espiritual e
o das Etapas comportamental.
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