Não é coisa distante assim, data-se no início dos anos 80.
Tínhamos no bairro do Pechincha em Jacarepaguá, uma cristaleira de portas e vidros desenhados, bem antiga, talvez tivesse vindo da Europa. Nela, álbuns de fotografias, talheres de prata e taças de cristal nunca usados e outras antiguidades. Bastante portas e algumas divisões interiores que me faziam supor “esconderijos” secretos em minhas brincadeiras infantis e cabeça imaginativa.
Não deveria ter aberto uma dessas portas, mas minha curiosidade não permitiu que ficassem cerradas. Numa dessas portas deparei-me com um tal de Monteiro Lobato: tudo tivera início alí. Veio-me logo de encontro Julio Verne. Mexiam com minha cabeça de 7 anos. Veio aniversário, alguém tipo pai, tipo mãe, não me lembro mais, solta em minhas mãos Ziraldo e seu Menino Maluquinho. Logo em seguida em dose dupla: O Menino do Dedo Verde e O Pequeno Príncipe. Depois: Vamos Aquecer o Sol, Os Meninos da Rua Paulo e assim por diante. Estava plantado meu amor pela leitura, nada imposto por ninguém, vale reiterar.
Logo me precipitei a fazer livrinhos, historinhas “fantásticas” como A Magia do Espelho, As Aventuras de (não sei quem mais...), O Caba (meu jabuti, chamava-se Caba) e outros; encadernados com cola tenaz que vieram me render meus primeiros e “únicos” lucros com literatura. Os vendia a tios, tias, primos, mãe, pai e pedia que me devolvessem após a leitura. Me esbodegava com bananadas e paçocas. Inventei também um tal de Jornal Tupi, mensal, da mesma forma vendido a parentes.
Naquela cristaleira havia ainda muita coisa a ser descoberta. Haviam dois livros de muitas páginas e capas intrigantes, títulos estranhos que me causavam medo; não, nunca iria lê-los! Li: Tieta do Agreste de Jorge Amado e Histórias Macabras de Alfred Hithcoch. Logo depois: O País do Carnaval, Suor, Cacau, Teresa Batista, Dona Flor, Mar Morto, Capitães de Areia, ABC de Castro Alves e etc.
Ainda daquela prateleira Os Últimos Dias de Pompéia, vários Orígenes Lessa e outros que não me recordo, mas que eu ia lendo às vezes antes que o colégio pedisse.
Veio-me de minha inesquecível professora do Colégio Pólen, prô Miriam: "Um Cadáver Ouve Rádio" com uma dedicatória: ao meu futuro escritor.
Um dia meu pai carregou, uns livrinhos daqueles, que eu ia ininterruptamente escrevendo, ao seu trabalho na intenção de mostrá-los ao seu patrão, mas não conseguiram sair da seção de arte final, onde meu pai trabalhava: um vidro inteiro de nanquim derramado sobre eles. Adolfo Bloch não teve conhecimento daqueles livrinhos. Foi minha primeira perda de originais, outras o computador se encarregariam de realizar.
Em São Paulo, premiado por boa desenvoltura na distribuição de livros pelo Círculo do Livro, onde eu trabalhava como entregador coringa: "Os Miseráveis" de Victor Hugo. Pronto, saí em busca de Os Trabalhadores do Mar do mesmo autor e outros de teorias libertárias como Castro Alves e Cruz e Sousa. Uma nova semente: digeria estilos específicos, mas era apenas uma das muitas fases que viriam ainda. A primeira foi essa: Justiça e Liberdade.
Pelos sebos do centro antigo do Rio, percorria nas horas de almoço da gráfica em que passei a trabalhar, faminto e insaciável atrás de Érico Veríssimo, do mago Paulo Coelho em seu início, dos regionalistas, dos “boca-sujas”, vi peça no teatro da Glória que falava de Maquiavel, coisas de Shakespeare no centro nervoso da cultura nacional. Percorri bibliotecas, fiz carteirinhas das mesmas, examinei dicionários, tentei o francês e me contentei com o “portunhol”. Percorri *nove estados da federação observando gírias, tradições, alimentos, costumes, sotaques, tipos físicos e psicológicos. Vi Belchior no João Caetano, Adriana Calcanhoto no Canecão lançando Senhas, seu primeiro disco, passei a gostar de discos usados de Caetano e Chico, vi Arthur Moreira Lima na Bloch com seus dedos mágicos sobre o piano, vi Baden Powell no violão em sua casa no Itanhangá, Peninha em Jacarepaguá, Lady Zu numa quitinete em São Paulo, o conterrâneo de Ritchie, vindo da Guiana Inglesa: Sathúdeo Persardis. Pronto, a cultura se instalava.
Li Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, Júlio Ribeiro, Lima Barreto, Menotti Del Picchia, Rachel de Queiroz, Cecília Meirelles, Vinícius, Jornal do Brasil, Clarisse Lispector, revista Veja, Exame, Geográfica Universal, Machado de Assis, José de Alencar, Almanaque Abril, Larousse Cultural, Guiness Book, bíblias de diversas traduções, coisas do hinduísmo, budismo, mórmons e etc.
Li críticos, colunistas, meus dois primeiros filósofos: Kant e Voltaire, comediantes tipo Juca Chaves e Jô Soares, folheei diversos Atlas, li histórias de civilizações antigas e na falta de opções, letreiros, outdoors, código civil, lei orgânica, botânica, bulas, cardápios e lápides!
Fui e sou leitor assíduo e um devorador incontinente de tudo que me apetece ler.
Contraí o vírus, a doença espalhou-se: a “demência” das letras.
Achei-me então no direito de escrever também.
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