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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Nossas "cavernas" modernas


21.03.2012.
 
 


Li semana passada uma entrevista com o doutor em filosofia, pela Université de Paris I (Panthéon – Sorbonne), o mineiro Ivan Domingues, que trata no geral de seu trabalho o âmbito principal da filosofia contemporânea. Ele considera a ÉTICA como o fator central.
 
Nessa entrevista ele relata sua visão entre a lógica e a historicidade. Trata das linhas filosóficas atuais e suas raízes, sendo a maioria, galhos do existencialismo surgido em Schopenhauer, Nietzsche (que eu diria ser o “inventor” da psicologia), Sören Kierkegaard e outros nomes de outras linhas filosóficas que pouco li: Hegel, Marx, Wittgenstein, Heidegger.
 
Pois bem. Ainda não era suficiente para que eu escrevesse esse leigo ensaio. Minha pretensão era entender se alguém estava vendo esse período de transição das relações humanas, tão surpreendente por seu tamanho e mudanças gerais na sociedade. Quem viveu os anos 80 sabe um pouco do que quero dizer. Sentávamos em um ônibus, haviam pessoas lendo livros e desconhecidos conversando. Hoje a metade está dormindo, a outra metade plugada em música, redes sociais e jogos eletrônicos.
 
Não quero ser saudosista, aliás tenho “apenas 38” anos. Nem “antinada”. Apenas observo que muita tecnologia já causa a distância entre seres humanos.
 
Uma pessoa que possui 4000 mil “amigos” virtuais e participa de 38 redes sociais (isso é apenas um exemplo é claro), tem tempo de dar atenção à sua esposa, ao seu marido, ao seu filho, a um amigo(a) real?
 
O Recanto das Letras já me toma um tempo considerável no dia para que eu possa postar aquilo que escrevo e trocar amabilidades em forma de visita a outros escritores. Imagino se eu tivesse ainda outras ocupações virtuais, além dos e-mails? Tenho meu trabalho. Tenho minha família. Tenho problemas do cotidiano. Tenho um e-mail para vendas. Tenho bichos para cuidar. Plantas. E quando falam comigo em MSN, BLOG, FACEBOOK e afins, recuso na hora. Não sou contra – apenas sei que mal tenho dado conta disso tudo que inventei para mim que, qualquer outro tipo de movimentação, seja na vida real ou na virtual, entrarei em colapso.
 
Para amadurecer esse ensaio eu precisava de mais alguma coisa. Tenho lido alguns ótimos textos de FChagass, Yamânu, Ana Bailune, Ciro Fonseca e outros escritores da Rede Mundial que tratam desses aspectos: desses novos tempos em que vivemos. Chego a vibrar como sempre vibrei, quando leio alguém que pensa, vê, compreende e se pergunta aquilo que eu achava estar pensando, vendo, compreendendo e me perguntando sozinho.

Li então um ensaio de Rodrigo dos Santos Manzano – graduado em filosofia pela UNAFAI, professor da rede pública de São Paulo que chegou ao consenso quase que perfeito diante de minha visão de contemporaneidade social.
 
Ele diz em seu ensaio intitulado: “Por Um Resgate da Sensibilidade” que nossa época cultua a indiferença à Religião e até mesmo ao ateísmo, onde se é tratado como assuntos supérfluos. Ressalta porém que, por trás da aversão religiosa convencional, cultos a outros deuses emergiram, sem que se fossem percebidos, nessa rápida mudança da ética universal. E ele, assim como eu, considera o culto ao ser humano como o mais visível de todos.
 
Ele percebe o caos em que a humanidade emerge.
 
Percebo que a sociedade procura modelos externa e extremamente perfeitos em todos os âmbitos. Na mídia principalmente, isso é claramente exposto. A grande massa se adapta de imediato.
 
Um trecho de Rodrigo que destaco: “Nunca, ironicamente, se desprezou tanto a questão afetiva e os grandes problemas que atingem os homens vêm exatamente dessa ordem. O mal de nosso século, a depressão, é o exemplo mais claro disso.”
 
Algumas pesquisas apontam que em 2020, mais da metade da população do Planeta sofrerá desse mal; antes considerado doença da elite e chamado de estafa mental.
 
Rodrigo ainda destaca a superficialidade nas relações interpessoais, a frieza e o estresse como sinais de que nós somos uma sociedade “doente emocionalmente.”
 
Vivemos o medo de ter medo. O medo de um abraço. O medo de um encontro. O medo da vida real. O medo virtual. Milhões de tribos virtuais onde se “escondem” pessoas reais, algumas doentes, outras ainda não.

Nossas cavernas apenas são mais modernas...


Marcelo Braga





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