01.08.2013.
Meus sentimentos como filho sempre foram confusos em relação a meu pai. Passei mais de 20 anos tentando entender se eu o amava ou o odiava. Continuo até hoje confuso. No fundo ainda sou um menino que tenta entender quem era o João Marcos Batista da Silva... um tirano? Um grande pintor de telas a óleo? Uma figura mística? Alguém que me arrastou para abismos sem explicações e penas? Um grande repórter fotográfico da extinta TV Manchete?
Nascido em Sagrado Coração de Jesus, hoje município de Osasco, São Paulo em 1949. Falecido no dia 4 de agosto de 1989 com 40 anos e 15 dias na Reserva Biológica do Tinguá em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, enquanto fotografava uma queimada na mesma. Infarto agudo do miocárdio.
Em 18 de novembro de 1994 em Barra do Piraí escrevi uma série de poemas chamados: "Com os Dias Contados", textos que se encontram em meu livro: "Pretensão de Encarar o Sol". O primeiro texto da série começa com uma pergunta:
"Meus dias já foram contados
Completo hoje 7.788
Será que chego aos 14.615 de meu pai?
Da metade já passei..."
Pois então, passei mais de 20 anos de minha vida com esse bobo temor que se repetisse comigo a morte precoce de meu pai. Completo hoje 14.615 vividos - posso responder então àquele distante Marcelo de 20 anos atrás à sua pergunta: "Sim Marcelo, você chegou!". Tá, mas e daí?!
Essa nova pergunta talvez me persiga por mais 20 anos: "Tá, mas e daí?!".
Cresci sem a figura paterna nos momentos mais incômodos para um adolescente. Cresci sem ajuda, sem conselhos, sem carinho, sem um amigo, sem um orientador, sem um mestre que eu admirasse. Ah, os livros! Sim, os livros; companheiros únicos em minha formação como pessoa e ampliadores de minha visão humana, de mundo. Vários e vários que me marcaram e de alguma forma tomaram o lugar vazio daquilo que muitos conhecem como família e sociedade.
Lembrei-me hoje pela manhã de um desses livros, "Carta a Meu Pai" - Franz Kafka. O único que ponderou satisfatoriamente minha relação com meu pai. Lembro que o li em 2007. Mas tudo ainda é confuso, é passado, é um vulto em meio à neblina que me cerca nessa questão.
Resta-me afastar dessa lacuna que talvez nunca venha ser preenchida e ser pai, acertar como pai, como pai que não fui de meus dois primeiros filhos e a vida vem assim me dando a oportunidade, uma terceira oportunidade.
Quanto à contagem de dias, refaço agora a pergunta: "Tá, mas e daí?!".
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