Sofrimento - ótica filosófica
02.01.2022.
Em qualquer lugar do universo em que exista a vida está presente o sofrimento: doenças, velhice, morte, separação dos entes queridos, coexistência forçada com aqueles que nos oprimem, privação de coisas de que necessitamos, confrontações com aquilo que tememos, e assim por diante.
Teriam o mesmo significado filosófico e mesmo pela própria língua portuguesa. Resumindo aqui, eu posso dizer que é todo ato ou efeito de sentir dor física ou moral; padecimento; amargura; resignação; desastre.
Sofrimento é um conceito que se estende por diversas definições tanto na Filosofia, como na psicologia e na própria língua portuguesa. A etimologia da palavra é uma variante do latim, sufferire. Sufferre, que significa “aguentar, sofrer”, formado por SUB-, “sob”, mais FERRE, “levar, carregar”. Sofrimento é, portanto, o que se carrega depois ou ao longo do sentimento de dor.
Podemos resumir esse conceito na prática como todo ato ou efeito de sofrer dor física ou moral; padecimento; amargura; desastre. Podemos acrescentar a essa definição a angústia, o medo, ansiedade, o desespero, a revolta, a autodepreciação etc. Diante de tantos efeitos, podemos afirmar que o sofrimento se constitui em permanecer num estado de coisas que promove uma condição degradante de profunda tristeza.
Filosoficamente, a palavra que mais se aproxima dessa tristeza é a Akedia. Palavra grega, composta de Kedos, que significa importar-se com, porém, somada do prefixo negativo, temos: não importar-se com. Akedia, vem com o sentido de descrever um estado de desinteresse que pode se manifestar como estupor e falta de participação na vida. Na antiguidade clássica, encontramos os primeiros esboços sobre o sofrimento melancólico nos escritos de Homero, na Ilíada, onde Bellerofonte, vítima de ódio dos deuses e por eles condenado ao ódio, ao sofrimento e à solidão.
Com Hipócrates (462-377 a.C.) a melancolia é tratada como um problema fisiológico, no qual os distúrbios mentais passam a ser associados a um desequilíbrio do sangue, da linfa, da bile amarela e da bile negra. A melancolia seria originada do aumento de produção da bile negra – melas (negro), Kholé (bile). Segundo Hipócrates, a melancolia seria a tristeza, a ansiedade e a tendência ao suicídio – sintomas ligados à fatores ambientais e internos que irrompem em doenças. Para Aristóteles (384-322 a.C.), a melancolia é uma patologia que atingia pessoas ilustres, devido a uma sensibilidade maior de seus organismos. Segundo ele, nessas pessoas havia a possibilidade de alta concentração de bile negra. Entretanto, se houvesse uma concentração moderada da mesma bile o homem se tornaria um gênio, desencadeando habilidades em diversas áreas do conhecimento.
Outro teórico que dará ares de doença à tristeza é Galeno (129-201 d.C.), médico do imperador Marco Aurélio. Para Galeno, a doença aguda era oriunda do sangue ou da bile amarela. Ele ainda destaca três possíveis locais da manifestação da doença no corpo: no cérebro, na corrente sanguínea e no estômago.
A partir do século IV d.C., com os patriarcas da igreja e pensadores de Alexandria, o termo adquiriu um significado mais técnico, passando a descrever um estado de saciedade com a vida ou de cansaço. O professor Spencer Junior nos explica essa abordagem:
“Existem descrições em Evágrio Pôntico (d.C. 345-399) que mencionam a Akedia como acedia e que esta era reconhecida como demônio do meia-dia e que atacava o monge em pleno dia, fazendo o sol parecer imóvel no céu. Vista como doença do mosteiro, fazia da vida dos monges um verdadeiro tédio. […] Para o monge latino João Cassiano (d.C. 360-432), a acedia não devia mais ser considerada algo demoníaco, mas como uma forma de subcategoria eremítica da tristeza comum. Para este monge a acedia seria o pior dos sentimentos, pois rejeitava Deus, /passando então, à condição de opositora diametral da alegria. […] Segundo Dante (d.C.1300), no sétimo canto da Divina Comédia a acedia é elemento antagônico à alegria e motivo de arrastamento do homem ao limbo[…] (2009, p.22).” A acedia aqui, é considerada um outro tipo de tristeza, uma tristeza que afasta os monges de sua vocação e que se diferencia da melancolia.
No Renascimento, a concepção aristotélica, reassume o posto de superioridade hierárquica das experiências humanas como fonte de inspiração e assim se estendeu até o século XVIII. A Idade da Razão, porém, revisitando o conceito, reelabora sua definição colocando as emoções humanas como objeto de estudo científico. A partir de então, o sofrimento passa a ser submetido à critérios de exame do campo da ciência/psicologia que a redundam à aspectos mais analíticos.
Professora Roberta Melo.
Referencias:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
JAPIASSÚ, H. e MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1996.
PAULA, Marcos Ferreira de. Sobre a felicidade. Belo Horizonte: Autentica, 2014.
SPENCER JR. Tristeza: a face oculta da felicidade. Recife: EDUPE, 2009.
Para Schopenhauer, somente o sofrimento é positivo, pois se faz sentir com facilidade, enquanto que aquilo ao qual chamamos felicidade é negativo, pois é a mera interrupção momentânea da dor ou tédio, sendo estes últimos a condição inerente à existência.
Quando o desejo e a satisfação se seguem em intervalos que não são nem demasiados longos nem demasiados curtos, o sofrimento, resultado comum de um e de outro, desce ao mínimo: e essa é a vida mais feliz, visto que existem muitos outros […]. [2]
A temática “vontade” é discutida por Schopenhauer e Rée. O primeiro, a partir da Filosofia da “metafísica da vontade”, enxerga o sujeito sendo a vontade e ela a essência do mundo, e o segundo, do ponto de vista da Psicologia comportamental, observa, por exemplo, através de experiência do comportamento do jumento, que há uma casualidade do “estado do querer”, onde a interação entre o ser e o ambiente é o resultado de seu estímulo:
Por que, então, de todas as coisas, um ato de vontade de um jumento deveria vir a existir sem uma causa? Além disso, o estado do querer, o qual imediatamente precede a excitação dos nervos motores, não é diferente, em princípio, de outros estados – como a antipatia, a preguiça ou o cansaço.
Alguém acreditaria que todos estes estados existem sem uma causa? E, se não se acredita nisso, por que se consideraria que apenas o estado do querer deveria ocorrer sem uma causa suficiente? [3]
A vontade é dor e também a sua causa, porque não haverá satisfação total do desejo. Enquanto não se concretiza, a ilusão e a esperança possibilitam a espera da sensação que o sentimento de felicidade pode proporcionar:
Na alternância entre os desejos saciados e os surgimentos incessantes de outros, a Vontade move-se em uma cadeia de aspirações infinitas que conduzem ao sofrimento, ou senão quando esse desejo for satisfeito logo surge o tédio, a apatia, dor muito pior que o necessitar. [4]
O sofrimento, erroneamente, é entendido como sinal de patologia e não como parte da experiência da existência. A busca pela comodidade mental e física é evidente, no entanto, como entende o psicólogo Rollo May, a vida é o espectro, e o sofrimento parte do que existe. Além disso, diz que a rotulação das experiências, que podem trazer desenvolvimentos, é prejudicial, no sentido de opor-se a processos naturais que trazem crescimentos de teor psicológico.
Arthur Schopenhauer, “o filósofo do pessimismo”, percebeu que as injustiças do mundo e as inúmeras tristezas e frustrações que se agigantam sobre a nossa vida frágil e efêmera, não passam de uma grande piada de mau gosto. Para Schopenhauer, cujas idéias certamente influenciaram em muitos aspectos […] Não é de propósito que ele nos frustra. É como se vivêssemos sob a alternância de um pêndulo: de um lado, o tédio, que se aproxima do vazio da vontade, ou da vontade de vazio, que é a própria morte; do outro lado, o desejo, que é a experimentação da falta, ou seja, é a aflição de se querer algo e não se ter.[6]
[2] ↑ FAZIO, Domenico M. A ética na escola de Schopenhauer: O caso de Rée. Revista Ethica, Florianópolis, p. 87-98, 6/2012.
[3] ↑ SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo. Tradução J.S. Oliveira. São Paulo: Brasil Editora, 1969.
[4] ↑ SOUSA, Karla Samara S. Principais elementos do pessimismo Schopenhauriano. Revista Lampejo, Paraíba, p. 114-129, 10/2012.
[6] ↑ MARTINEZ, Daniela et al. Com a noite na alma: Uma reflexão sobre a noite na vida dos artistas. Revista Eclética, São Paulo, p. 71-76, 07-12/2003.
O sofrimento é uma travessia a ser percorrida para a passagem à alegria ou para que haja mudança psíquica. Percorre-se o tema da dor psíquica em Nietzsche a partir das figuras da culpabilidade, quais sejam, a má-consciência e o ressentimento.
A filosofia de Nietzsche se destaca pelas elaborações acerca do sofrimento, tema central na obra, sobre o qual dissertam vários de seus livros. A dor, para este pensador, não é vista como algo ruim. Pelo contrário, a dor pode ser libertadora e via de transformação para a alegria, ao se conceber que dor e alegria não podem ser separadas uma da outra.
"Em Nietzsche, como já dito, a dor não é uma experiência necessariamente ruim. Ele critica o utilitarismo, para o qual a finalidade da ciência seria abolir o desprazer, propondo, como contraponto, o conhecimento alegre, a sabedoria aliada ao riso e a uma sensação de júbilo que só é possível quando a dor encontra-se enlaçada ao prazer. Em A gaia ciência (1882/1957), a dor é valorizada como uma via que pode tornar os homens mais fortes. O homem da modernidade carece de uma experiência da dor que teria o caráter de uma “formação”, lidando com meras “picadas de mosquito” (p. 125) como se
fossem grandes dores. Esse homem, o europeu branco do final do século XIX, tornou-se pusilânime por não ter se habituado a enfrentar a dor. Assim, a ausência geral de um exercício da dor tem como consequência uma aversão à dor: “Repugnamos muito mais a dor do que os homens de outrora” (ibidem, p. 124). Houve uma época em que se passava por uma “formação da dor”, por meio da qual voluntariamente se fazia sofrer, época em que se exigia do homem que se confrontasse com a crueldade, seja ela a própria ou a alheia. Se o sofrimento dos tempos da modernidade se traduz em uma espécie
de hipersensibilidade e intolerância à dor, o remédio proposto para este “mal” parece ser paradoxal: “a melhor receita para a miséria é a própria miséria” (ibidem, p. 125). Neste sentido, podemos dizer que a dor é a travessia necessária para o ultrapassamento da própria dor." Isabel Fortes
No próximo texto, uma visão mais do que biológica do sofrimento que engloba o social, a desigualdade social e outros estressores de considerações etiológicas igualmente importantes, segundo Freud e Bauman. Freud (mal-estar da civilização) e de Bauman (mal-estar da pós-modernidade).
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