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quarta-feira, 22 de março de 2023

SOCIEDADE DO CANSAÇO NA MODERNIDADE LÍQUIDA + o CONCEITO NIKSEN

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO NA MODERNIDADE LÍQUIDA + o CONCEITO NIKSEN

Marcelo Braga 18/03/2023

 

   Um momento de velocidades absurdas, produção industrial estratosférica e esgotamento de recursos naturais e humanos, onde o desempenho (motivação) precisa sobreviver a qualquer custo.

  O conceito de modernidade líquida foi desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman e diz respeito a uma nova época em que as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos.

   Byung-Chul Han (1959 - Seul) é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Influenciado também por Foucault, Freud etc.

   Em seu livro Sociedade do cansaço (2010), Han defende que o inconsciente social contemporâneo é dominado por um paradigma de desempenho, onde cada indivíduo se tornou empresário de si mesmo e está constantemente em busca de maximizar sua produção. Massivas campanhas na linha do slogan cunhado por Barak Obama, presidente estadunidense: “Yes, we can!” expressa com precisão o excesso de positividade falseada onde, o subemprego foi normatizado e, há uma possível glamorização a cercear esse ato de autoexploração.

  “ Sociedade do Cansaço” ou “Sociedade do Esgotamento” marca o sofrimento psíquico de uma época – essa em que vivemos. Para o autor, nossa época se configura como uma “violência neuronal”. Cita como resultado das exigências no âmbito organizacional, que inclui uma constante e inexorável motivação a plenos pulmões, o surgimento de sofrimentos psíquicos como a síndrome de burnout, TDAH e depressão.

   Essa “violência neuronal” subentende-se como um ato que tende padronizar a individualidade. Todos precisam ser do tipo psicológico extrovertido. Palavras da moda, expressões conceituais como: “gratidão”, “mindset” (configuração da mente), melhoramento cognitivo (sociedade do ‘dopping’), resiliência, autoconfiança, empatia, positividade entre tantas outras norteiam o arcabouço por vezes disfarçado de uma “sociedade pós-industrial” (Bell, 1999), “sociedade de controle” (Deleuze, 1992), “capitalismo cognitivo” (Negri e Lazzarato, 2001; Gorz, 2005), “biopolítica” (Foulcault) que ignoram a constituição psicológica e limitações individuais. Passam a um imperativo, uma imposição de performance e desempenho mediante a autossuperação intermitente – não há lugar para fracasso e se houver, o sujeito é o único responsável pelo mesmo.

   O autor também repara que a hiperatividade é sutilmente valorizada no próprio DSM. Na apresentação ao “Episódio hipomaníaco”, o DSM-IV-TR evidencia como o estado moderado de euforia e agitação – que não implica deficiência no funcionamento normal do indivíduo, não requer hospitalização nem apresenta características psicóticas – pode ser socialmente desejado: “(a) alteração no funcionamento em alguns indivíduos pode assumir a forma de um aumento acentuado na eficiência, realizações ou criatividade” (APA, 2002, p. 362).

   Uma vez que o aperfeiçoamento das habilidades ilimitadas para o sucesso profissional é lançada ao infinito, compreende-se, segundo Han, a elevação da saúde à condição de divindade, ou melhor, a “histeria” ou “mania da saúde” – uma perseguição patológica pela saúde. Em um aforismo sugestivo, o antropólogo estadunidense Marshall Sahlins (2004) sentencia: “um povo que concebe a vida exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz.”

   Na linha do otimismo, podemos comemorar que o sono se apresenta como a única dimensão existencial ainda não colonizada (completamente) pelo capitalismo.

   Um desprezo total ao conceito holandês do “nada fazer” (niksen).  Em uma cultura onde estar sempre ocupado é visto como um valor e, nossa contemporaneidade nos presenteia com superestímulos, não fazer nada pode ser extremamente difícil para algumas pessoas – e até motivo de vergonha. Neste mundo de fluxo frenético de informações que oferecem mil possibilidades, temos o culto à superprodutividade: sempre somos estimulados e até coagidos a estarmos fazendo alguma coisa, indo a algum lugar, postando alguma coisa ou até pensando em alguma coisa útil. Vivemos em função da alta produtividade, e isso influencia até nossos momentos de laser. Quantas vezes você não preencheu seu tempo livre com coisas “produtivas” para não se sentir culpado? Seja ouvindo tal podcast, fazendo outro curso online ou assistindo a um vídeo inspirador que acrescente à sua produtividade? Bem, até ler um livro ou assistir a um filme se tornaram atividades ligadas a tal conceito. Não é à toa que, ao mesmo tempo, temos como consequência a síndrome de burnout, um distúrbio psíquico caracterizado pelo esgotamento físico e mental.

“Usamos muito mal nosso tempo, este recurso finito.”

   O conceito holandês niksen aplica um valor oposto a este mundo superprodutivo: reservar um tempo para não fazer absolutamente nada. A prática pode aliviar o esgotamento psicológico que experimentamos neste ciclo de produtividade e cobranças, dando tempo ao nosso cérebro para processar enormes quantidades de informações que recebemos todos os dias.

“Não fazer nada é uma arte.”

 

Fontes de consulta:

1.       Raquel Rapini Croffi de Camargo (jornalista)

2.       Artigo de Elton Corbanezi, professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Mato Grosso e pesquisador do grupo de pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CTeMe – IFCH/Unicamp)

3.       DSM IV

4.       Katie Krimer – psicoterapeuta

5.       “Sociedade do Cansaço” (2010) Byung-Chul Han

6.       “Modernidade Líquida” (1999) Zygmunt Bauman

7.       “Motivação e seus Impactos no Âmbito Organizacional Moderno” artigos das autoras: Kelly Justino de Souza e Dayse Maria Vasconcelos de Deus

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