SOCIEDADE DO CANSAÇO NA
MODERNIDADE LÍQUIDA + o CONCEITO NIKSEN
Marcelo
Braga 18/03/2023
Um momento de velocidades
absurdas, produção industrial estratosférica e esgotamento de recursos naturais
e humanos, onde o desempenho (motivação) precisa sobreviver a qualquer custo.
O conceito de modernidade líquida foi desenvolvido pelo sociólogo
polonês Zygmunt Bauman e diz respeito a uma nova época em que as relações
sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos.
Byung-Chul Han (1959 - Seul) é um filósofo e ensaísta sul-coreano,
professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na
Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de
Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger.
Influenciado também por Foucault, Freud etc.
Em seu livro Sociedade do cansaço (2010), Han defende que o inconsciente
social contemporâneo é dominado por um paradigma de desempenho, onde cada
indivíduo se tornou empresário de si mesmo e está constantemente em busca de
maximizar sua produção. Massivas campanhas na linha do slogan cunhado por Barak
Obama, presidente estadunidense: “Yes, we can!” expressa com precisão o excesso
de positividade falseada onde, o subemprego foi normatizado e, há uma possível glamorização a cercear
esse ato de autoexploração.
“
Sociedade do Cansaço” ou “Sociedade do Esgotamento” marca o sofrimento psíquico
de uma época – essa em que vivemos. Para o autor, nossa época se
configura como uma “violência neuronal”. Cita como resultado das exigências no
âmbito organizacional, que inclui uma constante e inexorável motivação a plenos
pulmões, o surgimento de sofrimentos psíquicos como a síndrome de burnout, TDAH
e depressão.
Essa “violência neuronal” subentende-se como um ato que tende padronizar
a individualidade. Todos precisam ser do tipo psicológico extrovertido.
Palavras da moda, expressões conceituais como: “gratidão”, “mindset”
(configuração da mente), melhoramento cognitivo (sociedade do ‘dopping’), resiliência,
autoconfiança, empatia, positividade entre tantas outras norteiam o arcabouço
por vezes disfarçado de uma “sociedade pós-industrial” (Bell, 1999), “sociedade
de controle” (Deleuze, 1992), “capitalismo cognitivo” (Negri e Lazzarato, 2001;
Gorz, 2005), “biopolítica” (Foulcault) que ignoram a constituição psicológica e
limitações individuais. Passam a um imperativo, uma imposição de performance e
desempenho mediante a autossuperação intermitente – não há lugar para fracasso
e se houver, o sujeito é o único responsável pelo mesmo.
O autor também repara que a hiperatividade é sutilmente valorizada no
próprio DSM. Na apresentação ao “Episódio hipomaníaco”, o DSM-IV-TR evidencia
como o estado moderado de euforia e agitação – que não implica deficiência no
funcionamento normal do indivíduo, não requer hospitalização nem apresenta
características psicóticas – pode ser socialmente desejado: “(a) alteração no
funcionamento em alguns indivíduos pode assumir a forma de um aumento acentuado
na eficiência, realizações ou criatividade” (APA, 2002, p. 362).
Uma vez que o aperfeiçoamento das habilidades ilimitadas para o sucesso
profissional é lançada ao infinito, compreende-se, segundo Han, a elevação da
saúde à condição de divindade, ou melhor, a “histeria” ou “mania da saúde” –
uma perseguição patológica pela saúde. Em um aforismo sugestivo, o antropólogo
estadunidense Marshall Sahlins (2004) sentencia: “um povo que concebe a vida
exclusivamente como busca da felicidade só pode ser cronicamente infeliz.”
Na linha do otimismo, podemos comemorar que o sono se apresenta como a
única dimensão existencial ainda não colonizada (completamente) pelo
capitalismo.
Um desprezo total ao conceito holandês do “nada fazer” (niksen). Em uma cultura onde estar sempre ocupado é
visto como um valor e, nossa contemporaneidade nos presenteia com
superestímulos, não fazer nada pode ser extremamente difícil para algumas
pessoas – e até motivo de vergonha. Neste mundo de fluxo frenético de
informações que oferecem mil possibilidades, temos o culto à
superprodutividade: sempre somos estimulados e até coagidos a estarmos fazendo
alguma coisa, indo a algum lugar, postando alguma coisa ou até pensando em
alguma coisa útil. Vivemos em função da alta produtividade, e isso influencia
até nossos momentos de laser. Quantas vezes você não preencheu seu tempo livre
com coisas “produtivas” para não se sentir culpado? Seja ouvindo tal podcast,
fazendo outro curso online ou assistindo a um vídeo inspirador que acrescente à
sua produtividade? Bem, até ler um livro ou assistir a um filme se tornaram
atividades ligadas a tal conceito. Não é à toa que, ao mesmo tempo, temos como
consequência a síndrome de burnout, um distúrbio psíquico caracterizado pelo
esgotamento físico e mental.
“Usamos muito mal
nosso tempo, este recurso finito.”
O conceito holandês niksen aplica um valor oposto a este mundo
superprodutivo: reservar um tempo para não fazer absolutamente nada. A prática
pode aliviar o esgotamento psicológico que experimentamos neste ciclo de
produtividade e cobranças, dando tempo ao nosso cérebro para processar enormes
quantidades de informações que recebemos todos os dias.
“Não fazer nada é uma
arte.”
Fontes de consulta:
1. Raquel
Rapini Croffi de Camargo (jornalista)
2. Artigo
de Elton Corbanezi, professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política
da Universidade Federal de Mato Grosso e pesquisador do grupo de pesquisa
Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CTeMe – IFCH/Unicamp)
3. DSM
IV
4. Katie
Krimer – psicoterapeuta
5. “Sociedade
do Cansaço” (2010) Byung-Chul Han
6. “Modernidade
Líquida” (1999) Zygmunt Bauman
7. “Motivação
e seus Impactos no Âmbito Organizacional Moderno” artigos das autoras: Kelly
Justino de Souza e Dayse Maria Vasconcelos de Deus
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