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sexta-feira, 31 de março de 2023

O COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA NO BRASIL

 

TRABALHO DE ESTÁGIO BÁSICO I EM PSICOLOGIA

PROFESSORA: RAFAELA MARTINS

ALUNO: MARCELO BRAGA DA SILVA

23/11/2022

 

 

O COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA NO BRASIL

 

   A OMS (Organização Mundial da Saúde) em 1946, definiu saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade.

   A sociologia compreende que "O Estado de bem-estar social é uma concepção que abrange as áreas social, política e econômica e que enxerga o Estado como a instituição que tem por obrigação organizar a economia de uma nação e prover aos cidadãos o acesso a serviços básicos, como saúde, educação e segurança. O Estado de bem-estar social visa reduzir as desigualdades sociais decorrentes do capitalismo para promover um modo de vida que leve uma condição mais humanitária às classes trabalhadoras e às camadas mais pobres da população. "

   Nesse trabalho de melhorar as condições humanas diminuindo as desigualdades sociais, a área da saúde está comprometida e organizada para atuar também nessa área.

   A Psicologia entra com o estudo do homem, considerando-se sua história, cultura e o seu ambiente. Estuda o homem tanto no nível subjetivo, quanto no nível interpessoal e na sua relação com o meio, de modo que tudo o que influencia a vida do homem ou está em relação com ele é objeto da Psicologia.

   Destaco abaixo alguns dos Princípios Fundamentais do “Código de Ética Profissional do Psicólogo” (agosto de 2005) pertinentes à proximidade do compromisso da profissão com o social:

“ I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.”

   Ainda no “Código de Ética Profissional do Psicólogo” em “das responsabilidades do psicólogo” destaco:

Art. 1 – são deveres fundamentais dos psicólogos:

d) Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou emergência, sem visar benefício pessoal;”

 

   Pois bem, hoje temos uma estrutura de nível internacional envolvendo acordos, conferências, tratados, comissões e organizações que regulamentam o que seria “desenvolvimento”, “desenvolvimento sustentável” e logo de início, se esclarece que “desenvolvimento” é de longe acumulação e geração de riquezas.

   Quando se refere hoje aos paradigmas do desenvolvimento, tais como sustentabilidade, a valorização da cultura, o espaço local, as relações sociais, a ética, a solidariedade e o meio ambiente estão inclusos.

   Um desenvolvimento que busque o crescimento econômico aliado à qualidade de vida, gerando, acima de tudo, benefícios sociais e culturais para a sociedade. Um desenvolvimento que seja mais democrático e participativo, respeitando as tradições, os costumes e as culturas locais, em contraposição a um modelo que visa à acumulação de riquezas, não importando que o resultado seja a geração de pobreza, exclusão social e desigualdades de todo o tipo.

   Dessa estrutura de desenvolvimento inclusivo a todos, histórica e cronologicamente, podemos citar alguns eventos:

·         O Clube de Roma, fundado em 1968, surge com o intuito de abrir caminho para o debate de um vasto conjunto de assuntos relacionados à política, à economia internacional e, sobretudo, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável.

·         Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, de 1972 realizada em Estocolmo

·         As discussões em torno de formas alternativas de desenvolvimento ganham amplitude em 1987, com o relatório “Nosso Futuro Comum”, organizado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente.

·         A partir da década de 1990, os parâmetros de um desenvolvimento sustentável ganham uma nova configuração com conferências como a Rio 92 e os encontros que se sucederam.

·         Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em 2012, no Rio de Janeiro.

  

   No entorno dessas discussões sobre a melhoria conjunta, social e democrática da população, a Psicologia aos poucos foi saindo de seu papel filosófico no momento do século XIX que antecedia Wundt às contribuições e engajamentos que hoje vemos na Psicologia Social e Comunitária. Mas para isso, o caminho percorrido foi longo.

   Ana Mercês Bahia Bock passeia no tempo ao discorrer sobre o desenvolvimento da Psicologia em nosso país.

   Relata o Brasil colonial de formação predominantemente jesuítica, que tinham claramente a finalidade de contribuir para o controle dos indígenas.

   Com a vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, grandes alterações sociais acontecem em uma cidade que se aglomera sem condições básicas de vida. Os conteúdos psicológicos aparecem então nas produções médicas para caracterizar as doenças da moral, presente nas prostitutas, nos pobres e nos loucos. É o período da criação dos grandes hospícios.

   Na primeira metade do século XX, luta-se pela modernização da sociedade brasileira. A defesa da educação, da difusão do ensino, das ideias escolanovistas, vão embasar as produções da época. A Psicologia vem, então, dar fundamentos e elementos para o desenvolvimento destas novas ideias educacionais.

   Em 1962, a Psicologia foi definitivamente institucionalizada, através da Lei 4119, que regulamentou a profissão no país. Cursos de Psicologia proliferaram no país, associações profissionais e científicas, campos de trabalho foram surgindo.

   Na década de 70, mais precisamente em 1979, os psicólogos, inicialmente em São Paulo, mas seguidos pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e, logo depois, Brasília, Ceará, Paraná, ocuparam ou criaram seus sindicatos. Os Conselhos foram em seguida ocupados por grupos mais progressistas.

   A década de 80 trouxe novos desafios aos psicólogos: a pequena, mas significativa, abertura do mercado de trabalho no serviço público de saúde. Estava dada a largada para um período em que os psicólogos iriam se perguntar e refletir sobre a relação de seu trabalho e do próprio fenômeno psicológico com a realidade social.

   Perguntei-me o porquê do envolvimento tão direto e necessário da Psicologia com a Sociologia na realidade brasileira e logo obtive resposta no texto de Ana Mercês. Em um antecipado resumo: somos o país da desigualdade social. Como tratar um suposto TDAH sem antes investigar se a criança está se alimentando em condições mínimas sugeridas pela FAO (órgão da ONU para a alimentação)?

   Considerando-se o PIB, o Brasil ocupa, hoje, o lugar de 10ª economia mundial. Entre 174 nações, o Brasil é a 10ª em produção de riqueza.

   Mas, se considerarmos, agora, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Brasil tem outra classificação: somos a 79ª nação. Somos a 86ª em educação; temos altos índices nas taxas de mortalidade infantil, analfabetismo, e baixos índices nas condições de moradia e saneamento básico, em atendimento à população. E 15,8% da população brasileira, ou seja, 26 milhões de pessoas, não têm acesso às condições mínimas de saúde, educação e serviços básicos.

   Nosso país vive um drama, o drama do descaso da política com os menos favorecidos, o drama da desigualdade social, o drama da violência, o drama dos altos impostos sem que haja o devido retorno em bens e serviços públicos à população.

   E o que nós, psicólogos temos a ver com isto?

   Nós, profissionais da vida, não podemos deixar de considerar esse quadro, pois é dele que tiramos as necessidades e demandas para a nossa profissão.

   Podemos acreditar que no conforto de nossos consultórios particulares estamos oferecendo um serviço de contribuição ou interferência para a melhoria das condições de vida – e, de alguma forma, numa pequena porção, sim – mas, não podemos camuflar as limitações sociais gritantes que interferem na qualidade de vida de todos, ricos e pobres, que sofrem com o descaso e desigualdade social institucionalizado em nosso país.

   Para finalizar, friso que, o trabalho do psicólogo deve apontar para a transformação social, para a mudança das condições de vida da população brasileira. Apontar no sentido de se caracterizar um compromisso, uma perspectiva ética da profissão.

   Uma minoria que, possuindo condições de comprar nossos serviços, foi por muito tempo usuária deles. Queremos agora dar a volta por cima e construir uma profissão identificada com as necessidades da maioria da população brasileira, uma maioria que sofre, dadas as condições de vida que possui; uma maioria que luta, dadas as condições de vida que possui. Identificar-se com as necessidades de nosso povo e acompanhar o movimento destas necessidades, sendo capazes de construirmos, sempre e permanentemente, respostas técnicas e científicas. É este o nosso desafio.”

 

  

 

 

·         Brasil Escola.

·         “A Importância da Psicologia Social Comunitária para o Desenvolvimento Sustentável” – Tania Maria de Freitas Barros Maciel e Monalisa Barbosa Alves.

·         “A Psicologia a caminho do novo século: identidade profissional e compromisso social” – Ana Mercês Bahia Bock

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