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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Vacinas de Abstinência 31/33 - Teorias de Ação

 

As teorias de ação indicam que para iniciar, manter e evoluir no processo abstêmio precisa-se “fazer algo”, ou seja, para ter abstinência é preciso agir. Essa ideia vai à contramão daqueles que entendem que abstinência é simplesmente “abster-se de algo”. É necessário abster-se do uso de drogas/álcool e para que isso seja possível é imprescindível que sejam praticados vários atos. O teor dos atos que devem ser praticados para atingir a meta abstêmia é discutido pelas teorias de ação. Seguindo esse raciocínio, temos duas teorias de ação: teoria do action item2 e teoria da action move3.

 

TEORIA DO ACTION ITEM OU TEORIA DO ITEM DE AÇÃO

A teoria do action item consiste em demonstrar, através de um processo lógico e racional, qual é o principal item de ação para que se possa obter a abstinência, ou seja, indaga-se, qual é o ponto de ação que se não existir fará com que a abstinência também não exista? Onde o abstêmio deverá agir para ficar em abstinência? Qual é o fator que sustenta toda a abstinência? Todas essas perguntas parecem ter sempre a mesma resposta: a abstinência exige um “não fazer” que consiste em não usar drogas/álcool em qualquer situação e sobre qualquer contexto. Então, na verdade, a abstinência exige um “fazer”, mas esse fazer é negativo já que é um “não fazer”. A abstinência se cria, se solidifica e se propaga através de uma inação que é caracterizada por um “não fazer”.

A teoria do action item nos informa que o ponto de ação da abstinência é uma inação. Esse é o contrassenso uma vez que para “não fazer” o uso de drogas álcool a pessoa precisa “fazer” muita coisa. Dessa forma, o ponto de ação para atingir a abstinência se baseia numa ação negativa - ou em um “não fazer” - que  pode ser obtida “fazendo” muitas outras ações, tais como: terapias, aplicação de técnicas abstêmias, participação ativa em grupos anônimos, uso de ferramentas medicamentosas, solicitação de “pedidos” de ajuda e prestação de assistência.


Se a pessoa conseguir “fazer” todo o grupo de fatores que são necessários para ficar em abstinência, ela conseguirá fazer uma “inação” que consiste em não usar drogas/álcool. Veja que o simples fato de não usar drogas/álcool já é uma das formas de obter a abstinência, mas essa ainda não é a abstinência real. O simples fato de não usar drogas/álcool é apenas uma das formas de desvirtuamento da abstinência que se caracteriza pela abstinência putativa.4

A teoria do action item nos mostra que para ficar em abstinência precisamos “fazer” de tudo, para “não fazer” o uso de drogas/álcool. Como o próprio termo diz: abstinência é abster-se, mas é abster-se do uso de drogas/álcool fazendo muitas outras ações, por isso entende-se que, em regra, a abstinência é algo que se obtém ativamente, e não passivamente. Tudo isso faz com que essa teoria do action item seja muito usada para diferenciar a abstinência putativa da abstinência real.

 

TEORIA DA ACTION MOVE OU TEORIA DO MOVIMENTO DE AÇÃO

A teoria do action move indica que, após a decisão de manter-se em abstinência (inação do uso de drogas/álcool) o abstêmio precisa iniciar a prática de condutas abstêmias. Essas condutas podem ser praticadas de diversas formas e constituem em verdadeiras tomadas de decisão (movimentos) que podem ser: inteligentes, razoáveis, erradas ou néscias.


O movimento inteligente (smart move) é a prática de conduta em prol da abstinência. O movimento razoável (reasonable move) é a conduta que pode ser praticada, mas deve ser melhor desenvolvida se forem aplicadas, simultaneamente, outras técnicas abstêmias. O movimento errado (blunder move) é a prática de uma conduta de forma omissa, errada ou enganosa5. O movimento néscio (stupid move) ocorre quando a conduta não foi praticada de acordo com a abstinência sendo, na realidade, apenas uma reiteração de hábitos adictos, encontro com pessoas imersas no universo da adicção ou frequência a lugares da ativa. Para facilitar a compreensão, foi elaborado o seguinte quadro:

ACTION

MOVE

SMART

MOVE

REASONABLE

MOVE

BLUNDER

MOVE

STUPID

MOVE

Movimentos

Movimento

inteligente

Movimento

razoável

Movimento

errado

Movimento

néscio

 

Exemplo 01 Comparecimento a festividades -

socioterapia

Não ir à festa nas fases iniciais de abstinência

 

Nas demais fases de abstinência aplicar o reasonable move com outros elementos, por exemplo, ficar o menor tempo possível nessa festividade e usar técnicas antes, durante e após a

festividade

 

 

 

Ir na festa acompanhado de alguém que tem muita informação sobre como manter o processo de abstinência

 

 

 

Ir na festa acompanhado de alguém que não tem a menor noção sobre o processo abstêmio

 

 

 

 

 

 

Ir na festa sozinho

 

Exemplo 02

Uso de medicação psiquiátrica - farmacoterapia

Aplica o reasonable move com outros elementos

Atribuir a terceiro (cuidador abstêmio) a supervisão do uso e controle da medicação nas fases iniciais da abstinência

Usar a técnica medicamentosa para prevenir e não apenas para

remediar

 

 

 

 

Usar a medicação recomendada, na hora e na dose indicada pelo médico

 

 

 

 

Deixa a medicação terminar para, depois, tentar adquirir nova medicação

 

 

 

 

Usar medicação sem prescrição médica

 

automedicação

 

ACTION MOVE

SMART MOVE

REASONABLE MOVE

BLUNDER MOVE

STUPID MOVE

Movimentos

Movimento inteligente

Movimento razoável

Movimento errado

Movimento néscio

 

Exemplo 03 Comparecimento a grupos de ajuda mútua

Aplicar o reasonable move com outros elementos, como: participar ativamente dos grupos, prestar assistência e

envolver-se com seu processo de

abstinência

 

 

Comparecer a grupos anônimos e manter vínculos com abstêmios

Comparecer a grupos anônimos, mas manter vínculos com pessoas adictas da época da

ativa

Não comparecer a grupos anônimos e manter vínculos com pessoas adictas da

época da ativa

Quadro: teoria da action move.

 

O quadro anterior possui três exemplos práticos de como a teoria do movimento de ação pode ser utilizada em seus diversos níveis de aplicabilidade. Por óbvio, o desejado é que o abstêmio pratique suas ações de forma inteligente (smart move) evitando colocar-se em riscos desnecessários.


1 Tema apresentado no Livro e Ebook:

ZIEMMERMANN, Péricles. Teorias abstemiológicas. 1ª ed. Curitiba/PR: Edição do autor, 2019. 151 p.; 14 X 21 cm. ISBN: 978-85-924432-2-1. Distribuído pela Editora Simplíssimo.

2 Também denominada de teoria do item de ação.

3 Denominada, também, de teoria do movimento de ação.

4 A abstinência putativa é uma forma de abstinência irreal ou imaginária porque se caracteriza pelo fato do abstêmio não está usando drogas/álcool, apenas – e somente – isso. Assim, se o abstêmio não usa drogas/álcool, mas não aplica nenhuma técnica, não participa de grupos anônimos, não presta assistência e nem demonstra mudanças de ordem subjetiva estará em abstinência putativa. Na abstinência putativa, apesar do abstêmio estar em abstinência ele não está em evolução abstêmia. A abstinência putativa representa uma estagnação evolutiva. Por outro lado, o desejável, é a abstinência real em que o abstêmio realiza diversas ações para manter-se no processo abstêmio.

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